No segundo dia da guerra lançada pelos EUA e por Israel contra o Irã, o regime iraniano tenta demonstrar que, em meio às bombas, ainda está no controle do país. As autoridades devem anunciar em breve o nome do sucessor do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, morto no sábado, e ampliaram as ações de retaliação contra alvos americanos e israelenses, além de ataques contra as monarquias do Golfo. Acompanhe ao vivo: Irã promete 'vingança' contra EUA e Israel por morte de Khamenei Análise: Ao lançar ataque contra o Irã sem objetivo definido, Trump evoca fracassos passados dos EUA Neste domingo, o aiatolá Alireza Arafi foi selecionado para o Conselho de Liderança Interino, responsável pelo controle da República Islâmica até que um novo líder supremo seja escolhido. Arafi, membro do Conselho dos Guardiões e da Assembleia dos Especialistas, é um dos pesos-pesados do meio religioso iraniano, mesclando posições conservadoras com a defesa do uso da tecnologia na República Islâmica. Para analistas, a escolha dele para o conselho foi um aceno à Guarda Revolucionária e ao establishment político local, sugerindo que não haverá guinadas a curto ou médio prazo. Além do clérigo, a junta interina é composta pelo presidente, Masoud Pezeshkian, e por Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, chefe do Poder Judiciário. Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) divulga como ocorreram os disparos contra Irã Segundo fontes ouvidas pela rede Iran International, a Guarda Revolucionária pressiona para que um novo líder supremo seja escolhido o quanto antes, de forma a garantir a continuidade do regime e passar uma imagem de resiliência ao exterior, especialmente aos EUA. Ao anunciar a guerra, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que um de seus objetivos era criar condições para que a população derrubasse o regime dos aiatolás, apostando no desmoronamento das estruturas criadas e aperfeiçoadas ao longo de quase cinco décadas. Reações: Morte de líder supremo é maior chance de povo iraniano recuperar seu país, diz Trump À exceção de atos pontuais e celebrações pela morte de Khamenei, não há sinais de grandes manifestações, distúrbios internos ou deserções nas forças de segurança. Apesar da pressa, não está claro como a sucessão acontecerá. De acordo com a Constituição, o líder supremo precisa ser confirmado pela Assembleia dos Especialistas, um órgão formado por 88 membros eleitos pelo voto popular, e que hoje é dominado pela ala conservadora. Contudo, com bombardeios direcionados a lideranças do governo, reunir seus membros presencialmente não parece cabível, afirmaram as fontes ouvidas pela Iran International. A lista de possíveis candidatos traz os nomes de Arafi e Mohseni-Ejei, que integram o conselho provisório de governo; de Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá morto e que há anos é citado como possível sucessor; de Mohammad Mehdi Mirbagheri, um clérigo radical conhecido por suas visões anti-Ocidente; e por Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica e que tem visões mais moderadas sobre o governo e o regime. 'Impacto fatal': Repórter do GLOBO mostra mísseis iranianos no céu dos Emirados Árabes A sucessão do líder supremo é há décadas um dos temas mais quentes e pouco claros no meio político do Irã. Na única vez em que aconteceu, o processo começou a ser desenhado anos antes com a aprovação inicial do nome do aiatolá Ali Montazeri, em 1985, quatro anos antes da morte do aiatolá Ruhollah Khomeini. Mas as críticas de Montazeri, um progressista, à repressão contra a população o afastaram da linha sucessória. Ele foi preso em 1997 e morreu em 2009. Com a morte do aiatolá, em junho de 1989, a Assembleia dos Especialistas rejeitou uma proposta de um conselho de liderança, formado por três integrantes, e a candidatura de Mohammad Reza-Golpaygani. Mas com dois terços dos votos, aprovou o nome do então presidente, Ali Khamenei, apesar do clérigo não ter na época as credenciais religiosas necessárias para o posto, algo resolvido com uma mudança na Constituição. Initial plugin text Enquanto a República Islâmica tenta encontrar um novo líder, os sinais de que essa não será uma guerra rápida ao redor do Oriente Médio. Neste domingo, Israel lançou novos bombardeios contra Teerã, atingindo uma base da Guarda Revolucionária (Sarallah) que abriga unidades responsáveis pela repressão a protestos. O local havia sido atingido pelos israelenses durante o conflito de 12 dias em junho do ano passado, e imagens de satélite confirmaram obras nos arredores dos prédios. Israel ataca base da Guarda Revolucionária em Teerã No sul iraniano, uma corveta da Marinha foi atingida pelos EUA e afundou, informou o Pentágono. A embarcação, em operação desde 2010, tinha capacidade de levar até 120 pessoas e levava a bordo mísseis antiaéreos, torpedos e canhões. Em Mehran, perto da fronteira com o Iraque, 43 membros das forças de segurança morreram em um ataque aéreo contra uma base. Segundo a agência Mehr, “este ato hostil foi realizado por agentes dos Estados Unidos e do regime sionista”, como o Irã se refere a Israel na imprensa. Em entrevista à rede Fox News, Trump disse que 48 lideranças do regime morreram na guerra, uma lista que inclui Khamenei, o ministro da Defesa, Aziz Nasirzadeh, e o chefe do serviço de inteligência da polícia, Gholamreza Rezaei — neste domingo, surgiram relatos sobre a morte do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, mas sem confirmação oficial. — Está avançando. Está avançando rapidamente. Tem sido assim há 47 anos — declarou. —Está avançando rapidamente. Ninguém consegue acreditar no sucesso que estamos tendo, 48 líderes caíram de uma vez. E está avançando rapidamente. Guga Chacra: A guerra de Trump e Netanyahu contra o Irã Ao portal The Atlantic, Trump afirmou que quer conversar com as novas lideranças iranianas, replicando uma estratégia adotada após a captura do líder venezuelano, Nicolás Maduro, em janeiro. — Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então vou conversar com eles. Eles deveriam ter feito isso antes. Deveriam ter apresentado algo que era muito prático e fácil de fazer antes. Esperaram demais — acrescentou. Dois dias antes da guerra, iranianos e americanos se reuniram em Genebra para discutir um novo acordo focado no programa nuclear do Irã, acusado de ter fins militares. Diplomatas afirmaram que houve avanços, citando uma proposta do Irã para não armazenar urânio enriquecido e diluir o material existente para patamares adequados ao uso civil. O chanceler de Omã, Badr al-Busaidi, que atua como mediador nas conversas, afirmou que Teerã está aberto a “esforços sérios para desescalar” a situação. TV estatal exibe imagens de escola atingida por ataque mortal no sul do Irã O premier de Israel, Benjamin Netanyahu, que há décadas aponta o Irã como uma ameaça existencial, disse que seus militares ainda não estavam atacando “com força total”. — Dei instruções para a continuação da campanha... Nossas forças estão agora atacando o coração de Teerã com grande poder, e isso só irá se intensificar nos próximos dias — declarou o premier em pronunciamento. Vista do Aeroporto Internacional de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos Filipe Vidon No domingo, o Irã lançou novos ataques contra Israel, deixando nove mortos em uma cidade próxima de Jerusalém. Bombas também atingiram Tel Aviv, maior cidade do país, demonstrando mais uma vez que os sistemas de defesa israelenses não são impenetráveis. Houve bombardeios contra os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar, Arábia Saudita e Omã, onde uma pessoa ficou ferida em um ataque com drones contra o porto de Duqm, e embarcações foram atingidas perto do Estreito de Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico. Dezenas de navios estão ancorados na área, e países da Organização dos Países Produtores de Petróleo e associados (Opep+) concordaram em ampliar a produção de petróleo a partir de abril, de forma a amenizar impactos da guerra nos preços do barril. Petroleiros seguem fundeados no Terminal de Carga de Khor Fakkan, nos Emirados Árabes Unidos, no Estreito no Ormuz AFP Em comunicado, o Comando Central dos EUA confirmou a morte de três militares, as primeiras baixas americanas da guerra, sem detalhar onde e como eles morreram. Bases dos EUA ao redor do Oriente Médio são alvos preferenciais, assim como embarcações de combate. A imprensa iraniana chegou a afirmar que o porta-aviões Abraham Lincoln, que está no Golfo Pérsico, havia sido atingido, informação negada pelo Pentágono.