Críticos da guerra russa na Ucrânia, europeus adotam cautela sobre ação no Irã e dizem 'não ser hora' de discutir legalidade

Lideranças europeias adotaram a cautela ao comentar o conflito lançado por EUA e Israel contra o Irã no sábado, evitando discutir a legalidade do conflito e concentrando palavras duras à República Islâmica, que atacou países do Oriente Médio como retaliação. Tom distinto do adotado sobre outra invasão com poucas bases legais ou justificativas militares: a guerra iniciada há quatro anos pela Rússia na Ucrânia. — Agora não é o momento de dar lições aos nossos parceiros e aliados, apesar de todas as dúvidas, compartilhamos muitos dos seus objetivos, embora não sejamos capazes de os alcançar nós mesmos — disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, em entrevista coletiva neste domingo em Berlim. Ao vivo: Irã promete 'vingança' contra EUA e Israel por morte de Khamenei 'Surpresa tática': Rastreada pela CIA, reunião de cúpula do Irã abriu chance de raro ataque durante o dia; entenda Na véspera, o E3, grupo formado por Alemanha, Reino Unido e França voltado à diplomacia com o Irã, declarou ter alertado o regime a encerrar o programa nuclear — acusado de ter finalidades militares —, a restringir o desenvolvimento de mísseis balísticos e a suspender “a terrível violência e repressão contra o seu próprio povo”. Os países disseram que não participaram dos ataques, e reiteraram o “compromisso com a estabilidade regional e com a proteção da vida civil”, ao mesmo tempo em que condenaram as retaliações do Irã. “Condenamos veementemente os ataques iranianos contra países da região. O Irã deve abster-se de ataques militares indiscriminados. Apelamos ao retorno das negociações e instamos a liderança iraniana a procurar uma solução negociada”, diz o comunicado, emitido dois dias depois de uma rodada de negociações entre EUA e Irã em Genebra, na qual diplomatas relataram avanços importantes. Israel ataca base da Guarda Revolucionária em Teerã Kaja Kallas, chefe da diplomacia da União Europeia (UE), chamou a situação de “alarmante” e disse que está em contato com lideranças da região, o que não inclui representantes do regime em Teerã. “O regime iraniano já matou milhares de pessoas. Seus programas de mísseis balísticos e nuclear, juntamente com o apoio a grupos terroristas, representam uma séria ameaça à segurança global”, escreveu Kallas na rede social X. “A proteção de civis e o direito internacional humanitário são prioridades.” Ataques contra o Irã: Saiba quais comandantes teriam morrido e quais foram os alvos de ação dos EUA e Israel Kallas atacou as retaliações iranianas contra países da região, sem citar o bombardeio contra uma escola de meninas em Minab, no sul do Irã, que deixou 153 mortos, segundo autoridades locais. Uma das raras críticas ao conflito veio do premier espanhol, Pedro Sánchez. "Rejeitamos a ação militar unilateral dos Estados Unidos e de Israel, que representa uma escalada e contribui para uma ordem internacional mais incerta e hostil. Rejeitamos igualmente as ações do regime iraniano e da Guarda Revolucionária", escreveu Sánchez no X. ”Exigimos uma desescalada imediata e o pleno respeito ao direito internacional. É hora de retomar o diálogo e alcançar uma solução política duradoura para a região.” Morte de Khamenei: Regime iraniano buscar demonstrar resiliência com sucessão rápida de líder supremo Até o momento, o governo americano não deu uma justificativa clara sobre o que levou o presidente Donald Trump a declarar guerra contra um país soberano diante da rejeição da maioria dos americanos ao conflito e atuando sem o aval do Congresso ou do Conselho de Segurança da ONU. O termo “guerra ilegal” circula sem restrições em Washington, e o senador democrata Mark Warner, membro da Comissão de Inteligência da Casa, afirmou que as informações disponíveis sugerem que não havia "nenhuma ameaça iminente" vinda do Irã. Republicanos dizem que Trump agiu dentro da lei ao bombardear o território iraniano, e citam uma lei de 1973 que dá ao presidente o poder de mobilizar as Forças Armadas. Contudo, a oposição aponta que a medida só pode ser invocada em caso de “emergência nacional decorrente de um ataque aos Estados Unidos”. o que não aconteceu. “O ataque militar de Donald Trump e Benjamin Netanyahu contra o Irã é um ato ilegal de agressão. Não há justificativa legal para ele”, afirmou, em artigo no jornal britânico Guardian, Kenneth Roth, ex-diretor da Human Rights Watch. “Não é diferente da invasão da Ucrânia pelo presidente russo Vladimir Putin ou da invasão da República Democrática do Congo pelo presidente ruandês Paul Kagame.” Análise: Ao lançar ataque contra o Irã sem objetivo definido, Trump evoca fracassos passados dos EUA Tal como Trump, Putin até hoje não deu explicações ou um casus belli aceitável para sua guerra, que completou quatro anos na semana passada. A “desnazificação” do governo de Kiev é um conceito tão vago quanto as alegações de “russofobia” ou os questionamentos sobre o direito de existir do Estado ucraniano. Mas os europeus, que veem Moscou como uma ameaça existencial, não economizam palavras contra os russos. “[O texto] reitera que a guerra de agressão ilegal, não provocada e injustificada da Rússia contra a Ucrânia constitui uma violação flagrante do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, bem como um ataque sem precedentes à arquitetura de segurança europeia”, diz uma resolução adotada pelo Parlamento Europeu na terça-feira passada. Guerra na Ucrânia: Com significados opostos, Kiev e Moscou afirmam que Rússia não atingiu objetivos militares após quatro anos Em 2022, durante sua intervenção na sessão de debates da Assembleia Geral da ONU, o presidente da França, Emmanuel Macron, disse que a Rússia, “através de um ato de agressão, invasão e anexação, quebrou nossa segurança coletiva ao deliberadamente violar a Carta da ONU e o princípio da soberania dos Estados”. — Eles (russos) estão errados. Estão cometendo um erro histórico. Aqueles que se calam hoje são, de certa forma, cúmplices da causa de um novo imperialismo que está atropelando a ordem vigente — disse o presidente francês, que no sábado pediu o retorno à diplomacia e exigiu que o regime iraniano aceite “o fim de seus programas nuclear e de mísseis balísticos”. Initial plugin text A própria Ucrânia, invadida por uma potência nuclear, saiu em defesa da nova guerra de Trump, citando o fornecimento de drones e armas de Teerã para os aliados russos. — Portanto, é justo dar ao povo iraniano a chance de se livrar do regime terrorista. De se livrar e garantir a segurança de todas as nações que sobreviveram ao terrorismo originário do Irã — afirmou o presidente Volodymyr Zelensky, sem economizar nos elogios aos EUA. — É importante que os Estados Unidos se mantenham firmes. E sempre que há determinação americana, os políticos globais enfraquecem. Para a Rússia, o ataque americano ao Irã, tal como na Venezuela em janeiro, foi uma demonstração de como os EUA não veem mais o sistema internacional do pós-Segunda Guerra Mundial como escrito em pedra. Vozes ligadas ao Kremlin acreditam que o conflito serve também como um alerta para as futuras negociações sobre a Ucrânia. “Em resumo, o Irã abandonou seu programa nuclear. Fez concessões unilaterais e, em essência, capitulou na mesa de negociações. E apenas algumas horas depois, o primeiro ataque com mísseis foi lançado contra o país”, escreveu, em artigo no portal da agência Ria Novosti, o cientista político e propagandista Alexander Nosovitch. “Ao longo das negociações, as críticas da Rússia em relação ao futuro da Ucrânia após o conflito discutiram inabaláveis. E se alguém pensou que o próprio princípio das negociações pressupõe flexibilidade e concessões, o Irã declarou na prática como os americanos lidam com aqueles que demonstram fraqueza.”