Segundo pesquisa recém divulgada pela AtlasIntel , em parceria com a Bloomberg, 91,5% dos brasileiros acreditam que facções criminosas dominam a política e a Justiça . É um dado estarrecedor: em cada dez brasileiros, mais do que nove acreditam viver sob governo do crime. O dado, aliás, faz recordar a recente declaração do presidente da Unafisco, segundo a qual, no Brasil, seria menos perigoso investigar o PCC do que altas autoridades da República . + Leia mais notícias de Política em Oeste Obviamente, para os nossos juristocratas autoproclamados “editores da sociedade”, tudo não passa de um delírio coletivo causado pela disseminação de fake news na internet, numa operação calculada pelo “novo populismo digital extremista” (ou seja, pela direita) para atacar a credibilidade das instituições republicanas. Mas esses juristocratas não devem ser ouvidos sobre isso. Afinal, eles são os principais responsáveis pelo descrédito dessas instituições, e por, uma vez em posição magisterial, portar-se como delinquentes, como quando usam a força para perseguir inimigos, fazem gestos de degola, erguem o dedo do meio para a sociedade e anunciam — sem ser de forma jocosa — que “cabeças vão rolar”. Portanto, o resultado da pesquisa traduz uma percepção empírica: o crime organizado deixou de ser um problema de polícia e tornou-se uma variável institucional. A percepção é justa e correta. Ao longo dos últimos anos, assistimos à consolidação do Estado bandidólatra, que parece desprezar o cidadão de bem — esse termo de tão fácil compreensão, apesar de extrair esgares de ódio da elite cultural uspiana —, na medida em que nutre um amor materno pelo delinquente, um carinho patológico pelo homicida. A empatia que certa esquerda nega aos fetos humanos abortados é concedida, generosamente, aos facínoras mais violentos. O traficante vira “vítima do sistema”; o policial, suspeito em potencial. Estátua da Justiça com STF ao fundo | Foto: Gustavo Moreno/STF Não é casual. A vitória da polícia é vivida, nesse imaginário, como derrota ideológica. O que exaspera a esquerda narcoafetiva que passou a dominar o Estado brasileiro não é o sangue do criminoso — cuja dimensão humana não lhe interessa, já que marxistas enxergam classes, não pessoas —, mas o vislumbre de um Estado que ousa agir como Estado. Cada operação policial bem-sucedida é um tiro no coração de uma visão de mundo que romantiza a desordem urbana como etapa necessária da revolução social. No plano cultural, o fenômeno roça o clínico. A hibristofilia — o fascínio erótico por criminosos violentos — já foi observada por Carlinhos Oliveira em Terror e Êxtase e ganhou expressão pública na curiosa relação do cineasta João Moreira Salles com Marcinho VP, líder do Comando Vermelho. Não se trata de casos isolados, mas de sintomas de um ambiente intelectual que estetiza o crime e demoniza a repressão. Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília | Foto: Reprodução/Agência Senado Quando 91,5% da população afirma que facções influenciam os altos postos da República, não está apenas expressando medo. Está registrando uma evidência histórica recente: o avanço de facilitadores, cúmplices e garantidores políticos de um ecossistema criminoso que se infiltrou nas instituições. A narcoafetividade deixou de ser um capricho universitário e incorporou-se à própria estrutura do Estado. O povo percebeu. E, ao menos desta vez, a intuição popular está anos luz à frente da teoria. Leia também: A 'bandidolatria' nos tribunais , reportagem publicada na Edição 157 da Revista Oeste O post Sob um Estado criminoso apareceu primeiro em Revista Oeste .