Guerra no Oriente Médio pressiona petróleo, barril chega a subir 13%, a US$ 82, mas perde força com Trump

Os mercados financeiros globais e as negociações de petróleo iniciaram a segunda-feira pressionados por causa da escalada do conflito no Oriente Médio após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã e a retaliação de Teerã. Efeito colateral: Ataques entre Irã, Israel e EUA provocam maior interrupção no transporte aéreo desde a pandemia Petróleo, dólar, inflação: Quais serão os impactos dos ataques entre EUA, Israel e Irã? O petróleo tipo Brent, referência internacional, chegou a subir 13% na abertura dos negócios, acima de US$ 82, maior preço desde janeiro de 2025. Ainda de manhã, a alta perdeu força e a cotação estava em US$ 76,23 em Cingapura, alta de 4,6%, após o presidente dos EUA, Donald Trump, declarar ao New York Times que estava aberto a suspender as sanções contra o Irã se o novo líder iraniano fosse pragmático. Especialistas ouvidos pelo GLOBO acreditam numa forte elevação no preço do petróleo, além de valorização do dólar e do ouro e possíveis impactos inflacionários mundo afora e também no Brasil, às vésperas da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em que as apostas são de início de um ciclo de cortes da taxa básica de juros (Selic, hoje em 15% ao ano). Terras-raras: ‘Somos o maior produtor em escala fora da Ásia’, diz presidente da brasileira Serra Verde O dólar subiu e o franco suíço avançou em relação aos seus principais pares nas primeiras negociações nos países do Oriente, enquanto o dólar australiano liderou a queda das moedas sensíveis ao risco. O impacto no petróleo e na inflação é uma preocupação primordial, já que o Irã é o oitavo maior produtor de petróleo bruto do mundo, com 3,2 milhões de barris produzidos diariamente em 2024, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Opep e o Estreito de Ormuz Em sua reunião mensal, no domingo, a Opep anunciou que seus membros acordaram com um aumento de 206 mil barris por dia na oferta de petróleo. Petroleiros fundeados no Terminal de Carga de Khor Fakkan, nos Emirados Árabes Unidos, no Estreito de Ormuz AFP É pouco, perto da quantidade colocada no mercado pelo Irã, mas não é só um corte nas exportações iranianas que poderá elevar as cotações. O fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégia de navegação no Golfo Pérsico, poderá ser o principal efeito colateral, também com impactos negativos para o transporte marítimo global. A Bloomberg Economics estimou que, se o estreito for fechado, o preço do petróleo poderá atingir um pico de US$ 108. Luiz Carlos Prado, professor de Economia Internacional da UFRJ, concordou que o mais provável é que o barril alcance US$ 100, dadas as instabilidades no Oriente Médio. Passam pelo estreito, por dia, cerca de um quinto do consumo global de petróleo e gás. Por isso, qualquer interrupção no tráfego pode provocar alta nos preços e instabilidade nos mercados internacionais. Mapa mostra onde fica localizado o Estreito de Ormuz Editoria de Arte O Ministério das Relações Exteriores da Rússia, um grande produtor de petróleo e gás, alertou ontem que o fechamento do Estreito de Ormuz à navegação pode levar a desequilíbrios significativos nos mercados. — Vai haver um aumento de preço. A discussão é de quanto e como isso afeta a economia mundial, inclusive o Brasil. Os efeitos no petróleo podem ter consequências monetárias, com pressões inflacionárias, e também financeiras, porque isso afeta os mercados. Se for o caso de um fechamento efetivo do Estreito de Ormuz por mais tempo, as consequências podem ser bastante graves, no mínimo de recessão mundial — disse Prado, da URFJ. Efeitos nos mercados e pressão sobre companhias aéreas O cenário de instabilidade mexe com os investidores, que, em momento de crise como o atual, tendem a buscar refúgio em ativos considerados mais seguros, como ouro e títulos da dívida do Tesouro americano. Especialista em câmbio e analista da Genial Investimentos, Luan Aral acredita numa valorização do dólar, do ouro e de títulos públicos americanos. Há outro problema. Nos últimos anos, os aeroportos de Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, locais que têm sido considerados “paraísos” protegidos das instabilidades do Oriente Médio, se transformaram em hubs do transporte aéreo internacional. E as interrupções provocadas pela nova guerra já podem ser consideradas as maiores desde a pandemia de Covid-19. Passageiros no Aeroporto Internacional de Dubai, no sábado, primeiro dia dos ataques: voos foram cancelados Filipe Vidon/O Globo Na análise de Aral, da Genial Investimentos, as ações de companhias aéreas podem sofrer perdas no mercado global: — Nesse primeiro momento, a queda vai ser generalizada, em praticamente todos os ativos, incluindo papéis das aéreas. Mas, se houver uma escalada das tensões, podemos ter um reflexo mais direto em companhias aéreas de passageiros e também de cargas. No médio e longo prazos, os efeitos econômicos da crise decorrente da nova guerra Irã poderão se alastrar, já que se somam a outras instabilidades globais, como o tarifaço imposto pelo presidente americano, Donald Trump, lembrou Prado, da UFRJ. (Com Bloomberg News)