Em agosto de 1978, Reza Pahlavi, então príncipe herdeiro da coroa, deixava o Irã rumo aos EUA, onde participaria de um treinamento militar. Seria a última vez que veria o país, de onde meses depois seu pai, o xá Mohammad Reza Pahlavi, seria deposto e expulso. Quase 50 anos depois, ele viu sua imagem ganhar força em meio aos sangrentos protestos nas ruas iranianas entre dezembro e fevereiro e celebrou a morte no sábado do líder supremo, Ali Khamenei, como "último suspiro" do regime. A declaração foi a mais recente mostra de que Pahlavi postula o comando de um eventual futuro governo no Irã, mesmo sem a certeza de qual futuro a nação deseja para si. Ato: Filho do último xá do Irã se diz pronto para liderar 'transição' em ato que reuniu 250 mil contra regime teocrático em Munique 'Viva o xá!' e 'Pahlavi voltará': Quem é Reza Pahlavi, ex-príncipe herdeiro do Irã citado durante protestos no país Nomeado príncipe herdeiro aos sete anos, no final dos anos 1960, Pahlavi estava ao lado do pai em seu leito de morte no Cairo, em 1980, e meses depois se declarou o novo titular do trono iraniano — àquela altura, com a instauração da República Islâmica, o título era meramente simbólico. No exílio, tentou angariar o apoio de outros dissidentes e chegou a conclamar o povo do Irã a uma jornada de “resistência nacional” contra o novo regime, sem sucesso. Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, em discurso nos EUA SAUL LOEB / AFP Segundo relatos, ele buscou o apoio de Israel para um golpe de Estado, em meados dos anos 1980, em um plano que envolveu o então ministro da Defesa e futuro premier, Ariel Sharon, e tinha no líder supremo do país, o aiatolá Ruhollah Khomeini, o principal alvo. O plano naufragou com a chegada de Yitzhak Shamir ao poder: segundo Samuel Segev, ex-oficial de inteligência de Israel, Shamir acreditava que seu país não deveria “se envolver em uma nova aventura”. Em outra iniciativa para angariar reconhecimento, Pahlavi anunciou, em 1986, um desacreditado governo no exílio. Patrimônio bilionário e décadas de exílio: Conheça a vida da última imperatriz do Irã Sem poder de fato, mas com o apoio de parte da diáspora iraniana, Pahlavi pautou seus discursos na defesa da queda do regime hoje comandado pelo aiatolá Ali Khamenei. Para ele, o Irã deve se tornar uma democracia secular, com um Gabinete de transição, uma nova Constituição e um referendo para definir a nova forma de governo. Em entrevistas e declarações, afirma que seu objetivo não é restaurar a monarquia à imagem de seu pai, tampouco ocupar cargos públicos. “Podemos nos libertar de forma semelhante a outras nações do mundo que superaram ditaduras. Com aspirações nacionais unificadas, alicerçadas em nossa vontade nacional, alcançaremos o que é necessário e digno da grande nação iraniana”, escreveu em 2016, quando a República Islâmica completou 37 anos. Reza Pahlavi prega uma imagem dourada do Irã pré-revolucionário, quando o país tinha um governo secular, uma sociedade liberal, era aliado do Ocidente (com generosos investimentos), mantinha relações ordeiras com vizinhos como Israel e fez reformas e modernizações do Estado. Mas ele omite as décadas de concentração de renda, a corrupção endêmica nas instituições nacionais e a repressão liderada pela polícia secreta, a Savak, e pelo partido governista, o Rastakhiz, cuja adesão era obrigatória aos funcionários públicos. Petróleo como ator principal: Entenda como golpe orquestrado por EUA e Reino Unido nos anos 1950 no Irã está na raiz da crise no Oriente Médio — Muitos iranianos mais velhos se lembram do dia em que nasci e da comoção nacional que houve —disse recentemente ao Wall Street Journal. — Mas agora, aos 65 anos… os jovens iranianos me chamam de pai. E isso é o melhor de tudo. Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, e a imperatriz, Farah Diba, em visita a Brasília Arquivo / Agência O Globo A desilusão dos iranianos com o atual regime — protestos anteriores também miraram a deterioração da economia, a corrupção estatal e a repressão às mulheres, mas sem a força vista até uma repressão brutal — fez com que muitos lhe dessem um voto de confiança. Especialmente entre os mais jovens, que não têm na memória o fervor revolucionário ou as histórias de repressão dos tempos do xá: o apoio a Pahlavi soa como um apelo desesperado à única figura palpável contra o regime do qual querem se livrar. “Posso afirmar com certeza que, se um referendo for realizado e um dos lados da história for Reza Pahlavi, todos votarão nele porque não conhecem ninguém além dele”, afirmou, em publicação no Facebook em 2023, Khashayar Dahimi, um intelectual baseado em Teerã. Do ataque limitado ao caos regional: Os sete cenários possíveis de um confronto entre EUA e Irã Em entrevista à rede CBS News, ao ser questionado se tinha responsabilidade nas mortes das milhares de pessoas convocadas por ele para irem às ruas, respondeu que "essa é uma guerra, e a guerra tem suas vítimas". A fala foi criticada por outros dissidentes, que também notaram que menções e publicações referentes ao levante em defesa dos direitos das mulheres — Vida, Mulher, Liberdade, de 2022 — foram apagadas de suas redes sociais recentemente. Mesmo antes do ataque dos EUA, ele defendia uma intervenção externa no Irã, com ataques “cirúrgicos” contra alvos da Guarda Revolucionária e do regime, acompanhados por novas ferramentas de pressão econômica, incluindo uma caça aos navios que transportam petróleo iraniano a compradores, burlando sanções internacionais. No ano passado, não condenou os ataques israelenses durante a guerra de 12 dias, em junho, mas sua mulher, Yasmine, os louvou em publicações no Instagram — segundo levantamentos independentes, cerca de 1,2 mil iranianos morreram. Há três anos, Pahlavi esteve em Israel, onde se encontrou com o premier Benjamin Netanyahu, mas até agora não conseguiu um encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, a quem apoia e diz admirar. A recíproca pode não ser verdadeira. — Ele parece ser muito simpático, mas não sei como ele se sairia em seu próprio país — afirmou Trump, em entrevista à agência Reuters, no começo de janeiro. — Não sei se seu país aceitaria sua liderança. Mulher segura cartaz com as imagens do filho do último xá do Irã, Reza Pahlavi, e do presidente dos EUA, Donald Trump Kirill KUDRYAVTSEV / AFP Seus críticos dizem que ele não conseguiu sequer unificar a oposição iraniana no exílio, onde elementos hostis ao regime atual e à monarquia — como os Mujahedins do Povo — têm voz e dinheiro. A falta de diálogo com os reformistas dentro do Irã é citada como outro ponto frágil, que mina sua legitimidade em um cenário pós-República Islâmica. E a recusa em condenar a repressão cometida durante o reinado de seu pai, Mohammad Reza, é lembrada com frequência pelo regime, que ainda emprega técnicas de tortura e execução de dissidentes criadas pela Savak (com apoio dos EUA). “Após [Mohammad] Mossadegh [premier derrubado após um golpe em 1953], o governo americano deu apoio total e inequívoco à ditadura real, que era percebida pela oposição como mais americana do que iraniana e culpada de violar uma ampla gama de direitos humanos”, escreveu, em artigo publicado em 1980, o cientista político americano Richard Cottam, referindo-se aos abusos do xá. “O quadro resultante foi o de um regime culpado das mais flagrantes violações dos direitos humanos, e que foi tanto colocado quanto mantido no poder pelo governo americano.”