Casca da fruta para preservar o solo, o projeto que tirou o 2º lugar no Jovem Cientista no Ensino Médio

Na comunidade Quilombo do Travessão do Caroá, em Carnaíba (PE), Beatriz Vitória da Silva, de 18 anos, transformou um problema ambiental antigo em solução de baixo custo. Aluna da Escola Técnica Estadual Professor Paulo Freire, ela conquistou o segundo lugar na categoria Estudante do Ensino Médio da 31ª edição do Prêmio Jovem Cientista com o projeto Filtropinha: dos resíduos aos recursos. A iniciativa propõe o uso de cascas de fruta-pinha, ou fruta-do-conde, para filtrar a manipueira — líquido tóxico extraído da mandioca na produção de farinha — reduzindo a poluição do solo e o consumo de água nas casas de farinha da região. Benefício comprovado: Jovem Cientista abre portas para carreira em pesquisa Nas inscrições: Alunos da rede pública se destacam A ideia surgiu em 2024, durante uma aula da disciplina Construções e Invenções Sustentáveis, quando o professor Gustavo Santos Bezerra desafiou a turma a criar soluções para problemas locais. Beatriz e os colegas Ângela Rafaela, Luana Noêmia e Eduardo da Silva decidiram investigar a degradação do solo ao redor da casa de farinha do Travessão do Caroá. Ao analisarem a manipueira, constataram que o resíduo contém ácido cianídrico e pode ser até 25 vezes mais poluente que o esgoto comum quando descartado sem tratamento, além de causar mal-estar nos trabalhadores. Alunos da Escola Técnica Estadual Professor Paulo Freire em comunidade rural Arquivo pessoal Na prática, o problema também envolve alto consumo de recursos. Na casa de farinha, a lavagem das raízes de mandioca pode consumir de 15 mil a 20 mil litros de água para produzir entre 250kg e 350kg de farinha. O Filtropinha inclui a fabricação de um filtro com as cascas da fruta, material com potencial de absorver a carga poluente da manipueira e permitir o reaproveitamento mais seguro da água no processo produtivo. Abundância na comunidade Observando a própria comunidade, os estudantes encontraram na abundância da fruta-pinha a matéria-prima para o filtro. A porosidade da casca mostrou potencial de absorção, confirmado em testes laboratoriais. Mas, durante o desenvolvimento, o grupo enfrentou outro desafio: o alto custo das fitas usadas para medir a concentração de ácido cianídrico, que variam entre R$ 600 e R$ 800. Como alternativa, recorreram a um experimento com sementes de alface para testar a eficácia do experimento. Enquanto a germinação das sementes em manipueira não filtrada foi de apenas 20%, no líquido tratado pelo filtro, chegou a cerca de 80%. O protótipo final, feito com farinha e carvão ativado das cascas, custa menos de R$ 5 e apresentou alta capacidade de redução da toxicidade. A pesquisa também venceu o prêmio Criativos Escola + Natureza, do Instituto Alana, e levou a equipe à COP30, em Belém. — Nossas atitudes de hoje estão transformando o futuro. Um futuro em que os trabalhadores das casas de farinha não precisem mais se preocupar com problemas do passado, como o descarte da manipueira — afirma. — Saber ancestral e ciência podem caminhar juntos.