Após 30 anos, acordo põe fim a conflito agrário histórico registrado por Sebastião Salgado no Paraná

Após 30 anos, acordo põe fim a um dos maiores conflitos agrários do país Após 30 anos, o maior e mais antigo conflito fundiário do Paraná foi encerrado com um acordo entre o Governo Federal e as empresas Rio das Cobras Ltda. e Araupel S.A. A conciliação vai beneficiar mais de três mil famílias de agricultores em Quedas do Iguaçu e Rio Bonito do Iguaçu, no oeste do estado, segundo a Advocacia-Geral da União (AGU). Com a conciliação, mais de 33 mil hectares ficarão disponíveis para a instalação de novas famílias. Em contrapartida, o grupo empresarial receberá R$ 584 milhões em indenização, por meio de precatórios federais, pelas terras da Gleba Pinhal Ralo adquiridas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). As empresas vão manter a posse de 680 hectares, destinados a atividades industriais e ao desenvolvimento regional. ✅ Siga o g1 Foz do Iguaçu e região no WhatsApp Famílias comemoram fim do conflito Jonas Fures é morador do acampamento Dom Tomás Balduíno, formado em 2015 em Quedas do Iguaçu dentro do território que faz parte do acordo. Ele define o dia como um momento de muita emoção. “É um dia muito especial, talvez seja o dia mais esperado nesses últimos 10 anos. É onde as famílias almejam chegar, com a solução do conflito. E já sonham com outras coisas, com um futuro melhor. E também já começaram a planejar a vida de assentado e não mais de acampado”, afirma. Famílias camponesas vivem nas comunidades há cerca de 10 anos Arquivo MST Entre as milhares de famílias que ocuparam a área e formaram a comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, há 11 anos, em Rio Bonito do Iguaçu e Nova Laranjeiras, está a de Sandra Padilha Alves. “Estou desde o início do acampamento, onde conquistamos um pedaço de terra. Trabalho com minha família na produção de hortaliças e estou começando um horto medicinal. Não tem como descrever a emoção deste dia. Temos muito o que comemorar”, diz Sandra. Leia também: ‘Prolongou sofrimento por 3 meses’: diz juíza em sentença que condenou empresários por desvio de R$ 2,5 milhões de menina com câncer no Paraná Ponta Grossa: Mulher grávida de 4 meses baleada na cabeça após ter casa invadida no PR morre no hospital Vida de ostentação: Casal é suspeito de usar nome de pessoas em situação de rua no PR para fazer empréstimos Conflito teve início nos anos 1990 Ocupação da Fazenda Araupel, no Paraná, em 17 de abril de 1996 Sebastião Salgado O conflito agrário envolvendo terras da madeireira Giacomet-Marodin, hoje chamada de Araupel, começou no dia 17 de abril de 1996, em Rio Bonito do Iguaçu. Durante a madrugada, mais de 12 mil homens, mulheres e crianças ocuparam parte da área da madeireira. A quebra do cadeado da porteira de uma das maiores fazendas do Sul do Brasil ficou imortalizada pelo fotógrafo Sebastião Salgado, com uma imagem que ele batizou como “A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana”. Desde então, o território era considerado uma das maiores áreas contínuas de reforma agrária da América Latina. Além de Rio Bonito do Iguaçu, a área se estende também pelos municípios de Nova Laranjeiras, Espigão Alto do Iguaçu e Quedas do Iguaçu. Escola Vagner Lopes, localizada dentro da área do assentamento Arquivo MST Em agosto de 1997, o Incra formalizou a criação do assentamento Ireno Alves dos Santos, com 900 famílias, nas terras do acampamento Buraco. O local foi o maior assentamento do Brasil até 2003, quando foi criado, em Quedas do Iguaçu, o assentamento Celso Furtado, com 1.100 famílias. Nos anos seguintes, novos acampamentos e assentamentos foram criados na região. Disputa na Justiça Em 2014, uma ação judicial movida pelo Incra contestou a validade dos títulos do imóvel localizado entre Rio Bonito do Iguaçu e Quedas do Iguaçu. Em agosto de 2017, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) declarou nulos os títulos de propriedade da madeireira sobre as áreas ocupadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entendendo que as terras, na verdade, pertenciam à União e foram cedidas de forma irregular. Em 1997, um ano após o início do conflito, a madeireira Giacomet-Marodin passou a se chamar Araupel S.A. O g1 entrou em contato com a empresa para comentar o acordo. A Araupel optou por não se manifestar sobre o assunto. Preparação dos berços para plantio de 3 mil mudas Thiarles França VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Oeste e Sudoeste.