Mulheres reclamam sobre flacidez na vulva com uso de canetas emagrecedoras; Especialistas pontuam causas e soluções

Faz três anos que Daniela*, de 39, iniciou o tratamento contra a obesidade com canetinhas emagrecedoras. Perdeu cerca de 30 quilos e ganhou até um tanquinho aliando o medicamento à dieta e treinos de crossfit. Mas, o que a gerente de uma clínica estética não esperava era que a rápida perda de gordura fosse provocar flacidez na região da vulva, efeito colateral que tem sido chamado nas redes de “Pepeca de Mounjaro”. “Minha ‘bichinha’ ficou murcha, coitada”, comenta a mineira. É natural que a mulher já passe pelo processo de flacidez na região íntima ao longo da vida, especialmente após os 40 anos, em situação de pós-parto e menopausa, mas pouco se fala da contribuição da perda de peso nessa equação. Segundo a ginecologista Luciana Deister, que publicou vídeo explicativo sobre o tema em seu perfil nas redes sociais, a diminuição de gordura na vulva vai muito além da aparência estética, envolve a condição de qualidade de vida das pacientes de maneira geral. “A mulher pode perceber desconforto ao usar roupas mais justas, a região fica mais sensível e ressecada, porque a perda de peso tende a vir acompanhada da redução de colágeno e de hidratação local; sem falar na perda de autoestima corporal e possível repercussão na relação sexual”, comenta a médica. Membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, Lorena Lima Amato destaca que a perda de tecido adiposo promovida pelas canetinhas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro, não ocorre de forma seletiva. “A pessoa não escolhe a região de onde será reduzida a massa gordurosa, nem por métodos naturais. Há estudos que apontam uma diminuição de cerca de 40% da gordura visceral com o uso desses medicamentos, enquanto os outros 60% correspondem à área subcutânea, da qual as regiões íntimas fazem parte”, explica a endocrinologista. Mas, se não há como escolher de onde o corpo vai perder gordura, seria possível ao menos evitar esse efeito na região íntima? Para a ginecologista Luciana Deister, essa garantia não existe. Ainda assim, segundo ela, é possível preservar a estética e a função da vulva com acompanhamento adequado. “Há estratégias para minimizar e retardar a perda de tecido adiposo, como reposição hormonal quando bem indicada, além de hábitos que protegem o colágeno: alimentação rica em proteínas e antioxidantes, boa hidratação e a redução de fatores de risco, como tabagismo e consumo excessivo de álcool”, explica. Entre os procedimentos mais utilizados para melhorar a flacidez e preservar a função da região íntima, segundo a cirurgiã plástica Renata Magalhães, está o preenchimento vulvar feito com gordura da própria paciente retirada de uma área doadora. “Esse é o padrão ouro, porque é a forma mais natural, que nunca vai dar complicação para a paciente, dando uma jovialidade mais duradoura”, comenta a médica, que também cita a possibilidade de repor volume dessa área com ácido hialurônico. Há também outras tecnologias para combater a flacidez, como bioestimuladores de colágeno, laser de CO₂, radiofrequência e ultrassom microfocado, melhorando a textura da pele e promovendo maior tonicidade local. A empresária Fabiana*, de 54 anos, optou pela cirurgia que consiste na retirada de excesso da pele dos grandes lábios vaginais combinada com preenchimento gordural. Adepta ao uso da Tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, ela perdeu oito quilos em seis meses. “Eu já estava sentindo um incômodo com a aparência dessa flacidez proporcionada pelo envelhecimento, mas senti que piorou muito com o emagrecimento”, comenta a goiana. “Mexe com minha autoestima. Vou me submeter a esse procedimento por mim. Se tem como melhorar, por que não?” Em contrapartida, há também quem esteja curtindo a diminuição de gordura na vulva, principalmente quando não se percebe perda de tônus na região. É o caso da designer gráfica Talita Coelho, de 30 anos, que perdeu 23 quilos em dois meses com as canetinhas emagrecedoras. A sul-mato-grossense relata que começou a sentir mais prazer durante as relações sexuais, em função da maior exposição do clitóris, que ficava coberto pelo volume de tecido adiposo dos grandes lábios. “Quando eu estava com sobrepeso, era difícil fazer movimentos que dessem acesso a essa região. Comecei a estranhar, porque passei a ter uma sensação no sexo que para mim era muito diferente”, conta. No final, toda experiência é individual.