A surpresa é o elemento central — e também o maior charme — das mostras Aberto, que promovem uma vez por ano exposições em casas criadas por grandes arquitetos, espaços que normalmente não são acessíveis ao público. A estreia, em 2022, já foi em grande estilo, ocupando uma residência desenhada por Oscar Niemeyer, em São Paulo. As edições seguintes revelaram projetos igualmente importantes, assinados por Vilanova Artigas, Ruy Ohtake (para sua mãe, Tomie) e Chu Ming Oliveira. No ano passado, aterrissou em Paris, para abrir as portas da Maison La Roche, de Le Corbusier. Os interiores da Casa Bola Ruy Teixeira A expectativa para descobrir qual será o próximo lugar e o privilégio de conhecer por dentro essas obras-primas transformaram o evento em um dos mais aguardados pelos amantes de arquitetura, arte e design — os três pilares que compõem as exibições, já que elas também reúnem a produção de artistas plásticos, peças de mobiliário e objetos autorais selecionados por uma curadoria cuidadosa. Escorregador colorido leva ao térreo Ruy Teixeira Nesta temporada, que se inicia no próximo dia 8 de março e segue até 31 de maio, a Aberto volta à capital paulistana. A estrela será a Casa Bola, a moradia em forma de esfera, construída nos anos 1970 pelo arquiteto Eduardo Longo, que até hoje marca a paisagem da Avenida Faria Lima atraindo olhares curiosos. “A gente sempre tenta contar uma história”, explica o fundador da plataforma, Filipe Assis. “Desta vez, buscamos uma outra arquitetura que não a modernista e a brutalista, que já havíamos abordado”. Quarto de dormir: mobiliário integrado à arquitetura Ruy Teixeira Um dos pontos altos deste ano é o fato de o arquiteto homenageado estar vivo. “Essa acabou se tornando uma oportunidade de revisitar minha trajetória. A exposição me permite retomar certas ideias e utopias que continuam fazendo sentido para mim”, diz Longo, 83 anos, que durante cinco décadas morou na Casa Bola. Eduardo Longo, autor do projeto da Casa Bola: arquiteto visionário Ruy Teixeira “Ela é um projeto que dialoga com a tendência atual de espaços mais compactos e de uma vida mais despojada, mas com um encanto inesperado”, avalia. Quem passar por lá poderá admirar fotografias, desenhos, maquetes e plantas que marcaram sua carreira, sob a curadoria de Fernando Serapião. Para completar, a ETEL, especialista em mobiliário brasileiro contemporâneo, que tradicionalmente faz lançamentos durante as exposições, trará uma cadeira inédita criada pelo arquiteto. Filipe Assis, fundador da mostra, entre as curadoras, Kiki e Claudi Ruy Teixeira A curadoria das obras ficou a cargo da designer Claudia Moreira Salles e da crítica de arte Kiki Mazzucchelli. O foco foi o período em que a Casa Bola foi construída, olhando sobretudo para artistas que investem no humor e no experimentalismo, características fortes da casinha com jeito de nave espacial. Entre os convidados estão Luiz Zerbini, Vivian Caccuri, Adriano Costa, Claudio Tozzi, Fran Chang e Sarah Lucas. Ao todo, cerca de 60 trabalhos de 50 artistas — a maioria deles desenvolvido para a ocasião — vão tomar o espaço de um mil metros quadrados do edifício, que inclui, além da estrutura esférica, três pavimentos e um terraço. “A Casa Bola é um manifesto construído. Ela rompe com os csânones do modernismo e reflete a inquietação da contracultura dos anos 1960. Buscamos obras de arte que dialogam com esse espírito de ruptura”, explica Claudia, que lança, como parte do programa, uma nova versão de sua poltrona Siri, em colaboração com a artista visual Luísa Matsushita, que desenvolveu os assentos em tecido, e a mesa de apoio Aberto. Fernando Serapião assina a curadoria de arquitetura Ruy Teixeira Este ano, a exibição extrapola o prédio sede. Ela vai levar esculturas ao canteiro central da Faria Lima, num movimento batizado de Aberto Rua. “A ideia é democratizar a arte. Quero que a mostra esbarre na vida do paulistano, impactando quem passa a pé, de bicicleta, de carro ou de ônibus”, ressalta Assis, lembrando que São Paulo conta com uma enorme diversidade arquitetônica. “Na Europa, as casas modernistas estão espalhadas. Essa concentração que existe aqui é única”. Uma visão endossada por um artigo publicado recentemente no Financial Times: “Nenhuma outra cidade possui uma camada tão impressionante de moradias experimentais, inspiradoras, inventivas, desafiadoras e, muitas vezes, brilhantes das décadas de 1960 e 1970”. Abrir esses lugares para visitação significa colocá-los em evidência, preservá-los e ampliar o conhecimento sobre essas joias da arquitetura brasileira para que seu valor se mantenha vivo na memória do público.