O esboço do plano de urbanização e infraestrutura PAC Periferia Viva, na Rocinha — iniciativa do governo federal em parceria com a Prefeitura do Rio, divulgado na semana passada —, vem sendo alvo de críticas da associação de moradores da favela. O programa dispõe de R$ 350 milhões para melhorias na comunidade. A polêmica se dá porque a entidade defende que os recursos sejam aplicados integralmente em saneamento básico, mas o município apresentou uma série de intervenções. Uma delas é a desapropriação de um imóvel para a construção de um terminal intermodal de três mil metros quadrados. Violência sexual: menor que atraiu adolescente vítima de estupro coletivo em Copacabana era seu colega de escola, diz delegado Rio 461 anos: de roleta do jogo do bicho ao violão de Cazuza, a história da cidade contada por objetos No Diário Oficial do último dia 23, a prefeitura publicou o decreto 57.556, que desapropria um prédio na Estrada da Gávea para destinar a área ao novo projeto de transporte. No último sábado, a União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR) divulgou um manifesto criticando a iniciativa e enfatizou que a prioridade é uma “infraestrutura sanitária adequada”. ‘Essencial e inadiável’ “A prefeitura iniciou a divulgação de diversos projetos: intervenções viárias, reorganização do transporte urbano, melhorias na entrada da comunidade e outras propostas complementares. É importante afirmar com serenidade, mas com firmeza: nenhuma dessas obras é prioridade enquanto o saneamento básico não for tratado como eixo central do investimento. Não se constrói mobilidade sobre esgoto a céu aberto. Não aceitaremos que investimentos públicos ignorem aquilo que é básico, essencial e inadiável. Não aceitaremos a inversão de prioridades”, diz o texto da associação. Polêmica. O projeto da prefeitura do terminal intermodal na Favela da Rocinha: imóvel foi desapropriado por decreto Reprodução/ site da prefeitura Diretor de projetos e relações institucionais da UPMMR, William de Oliveira disse ter ficado surpreso ao se deparar com a projeção em 3D do futuro terminal no site da prefeitura. Ele contou que, em reunião com o prefeito Eduardo Paes no dia 7 de janeiro para discutir o projeto, ficou claro que o desejo dos moradores era priorizar o saneamento. O encontro ocorreu na quadra da Acadêmicos da Rocinha e reuniu cerca de mil moradores. — Quando vimos a divulgação das maquetes, ficamos em alerta. A do terminal foi o estopim para que expuséssemos nossa posição. Até temos necessidade de outras coisas, mas não adianta ter um terminal de transporte lindo, e o morador ter que pisar no esgoto para chegar até ele. Não vamos abraçar esses projetos que só servem como maquiagem. Temos mais de 20 valões a céu aberto, de onde saem ratos que entram nas casas e causam leptospirose. Não pode, em 2026, as pessoas morrerem porque um roedor urinou em sua comida — afirma. — A última vez que fizeram alguma melhoria relacionada a saneamento foi no primeiro PAC, entre 2009 e 2011, mas foram apenas medidas paliativas. Outra solução que a associação julga importante incluir nas obras de saneamento é uma rede de drenagem capaz de escoar as águas das fortes chuvas que atingem o Rio sobretudo no verão. — A drenagem da Rocinha é difícil. Quando chove, as ruas se tornam verdadeiros rios, com a correnteza arrastando o que encontra pela frente. As pessoas perdem tudo dentro de casa. Há moradores que vivem esse problema há mais de 30 anos. Estamos pedindo a Deus para que essa chuva que matou dezenas de pessoas em Minas Gerais não chegue ao Rio, porque nossa comunidade é muito afetada — descreve William. Esgoto e lixo acumulado na Rocinha Custodio Coimbra/15-01-2016 O PAC Periferia Viva para a Rocinha prevê intervenções numa área de 280 mil metros quadrados na comunidade. De acordo com a prefeitura, a proposta inclui abertura de novas ruas e obras de água, esgoto, drenagem e urbanização, com foco na ampliação da infraestrutura urbana. Questionado sobre a crítica dos moradores, o município informou que as intervenções seguirão o cronograma que será estabelecido em diálogo com as lideranças locais, priorizando as medidas de saneamento básico. Não informou, porém, quanto do orçamento será destinado à adequação da rede de esgoto e aos outros setores. Em relação à desapropriação, explicou que foi feita conforme o plano aprovado no PAC, a fim de evitar a destinação privada do terreno para outros interesses e garantir as obras na Rocinha. O imóvel já abrigou uma das filiais da empresa de telefonia Oi.