Crianças com múltiplas cáries ou que sofrem de gengivite grave apresentam uma incidência significativamente maior de acidente vascular cerebral (AVC), infarto e doença arterial coronariana na vida adulta. Essa é a conclusão de um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Adriana Araújo: entenda o que é aneurisma cerebral, condição que motivou internação da sambista mineira Café X matcha: qual bebida dá mais energia? Os pesquisadores utilizaram dados do Registro Nacional de Odontologia Infantil (SCOR) de todas as crianças nascidas entre 1963 e 1972 que possuíam pelo menos dois registros no SCOR, totalizando 568.778 indivíduos. Esses dados foram comparados com os dados do Registro Nacional de Pacientes de 1995 a 2018 sobre doenças cardiovasculares, período em que os mesmos indivíduos tinham entre 30 e 56 anos. Os resultados foram ajustados para o nível de escolaridade dos participantes, que teve um efeito claro na incidência da doença. Os pesquisadores também ajustaram para a ocorrência de diabetes tipo 2, visto que este é um fator de risco conhecido para doenças cardiovasculares. Ao examinar esses extensos conjuntos de dados, os pesquisadores identificaram diversos padrões impressionantes. Crianças com numerosas cáries apresentaram uma incidência até 45% maior de doenças cardiovasculares na vida adulta, em comparação com crianças com poucas cáries. Para crianças com gengivite grave, a incidência foi até 41% maior. Os números variam de acordo com o sexo, mas a tendência é clara para ambos os grupos. Ao mesmo tempo, a incidência parece aumentar à medida que os problemas dentários pioram durante a infância. A inflamação é uma possível explicação Então, o que explica a ligação entre doenças dentárias e doenças cardiovasculares? Os pesquisadores não podem afirmar com certeza com base neste estudo, pois o estudo examina apenas as correlações entre saúde bucal e doenças cardiovasculares e não pode determinar causalidade – ou seja, não pode demonstrar se os problemas dentários causaram diretamente as doenças cardiovasculares ou se outros fatores desempenharam um papel. Uma teoria, no entanto, aponta para a inflamação. "Suspeitamos que a exposição a altos níveis de inflamação, na forma de doenças gengivais e cáries dentárias já na infância, possa influenciar a forma como o corpo responde à inflamação posteriormente", afirma Nikoline Nygaard, pesquisadora de pós-doutorado no Departamento de Odontologia da Universidade de Copenhague e uma das autoras do estudo, em comunicado. Essa teoria é apoiada por diversos outros estudos que encontraram uma associação entre periodontite e doenças cardiovasculares. A Federação Mundial do Coração publicou um relatório de consenso afirmando que existem fortes evidências de que a periodontite aumenta o risco de doenças cardiovasculares. O relatório sugere que as bactérias da doença gengival podem desencadear inflamação sistêmica em outras partes do corpo, acelerando a doença cardiovascular aterosclerótica. Em outro estudo, Nygaard e seus colegas também examinaram a relação entre saúde bucal e diabetes tipo 2 e encontraram um padrão semelhante. Crianças com doença gengival grave apresentaram uma incidência até 87% maior de diabetes tipo 2, enquanto aquelas com múltiplas cáries dentárias apresentaram uma incidência 19% maior. O estilo de vida como fator chave O estilo de vida provavelmente tem um impacto significativo no aumento da incidência de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2 e, portanto, os pesquisadores ajustaram seus dados para o nível educacional. Em geral, um nível educacional mais alto está associado a vidas mais saudáveis e longas. "Não podemos descartar que o estilo de vida desempenhe um papel importante. Mas mesmo após o ajuste para o nível educacional, a incidência de doenças cardiovasculares ainda é bastante acentuada", afirma Nikoline. Não se esqueça da escova de dentes Embora o estudo não possa estabelecer causalidade, ele ainda pode apontar para um potencial significativo de prevenção. Isso é especialmente relevante, visto que a cárie dentária infantil é uma das doenças mais disseminadas globalmente – e tanto a cárie dentária quanto a doença gengival podem ser prevenidas com relativa facilidade com uma escovação dental completa. "Se pudermos identificar marcadores que indiquem quem tem maior risco de desenvolver diversas doenças mais tarde na vida, podemos direcionar os esforços preventivos para esses grupos. E isso poderia trazer benefícios para a saúde a longo prazo, até a idade adulta", afirma Merete Markvart, professora associada do Departamento de Odontologia da Universidade de Copenhague e coautora do estudo. Ela destaca que a gengivite é geralmente pouco estudada, apesar de sua alta prevalência entre crianças e adolescentes. Portanto, ela defende que o registro da gengivite no Registro Nacional de Odontologia Infantil seja obrigatório, da mesma forma que o registro de cáries. "Não se trata de resolver doenças cardiovasculares tratando os dentes das crianças. Mas, se direcionarmos nossos esforços para grupos específicos, podemos influenciar muitas pessoas na direção certa, simplesmente melhorando sua saúde bucal", conclui Merete.