O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou nesta segunda-feira (2) que a França aumentará o número de suas ogivas nucleares e vai cooperar com oito países da Europa para ajudar a proteger o continente. Macron, que falou na base de submarinos nucleares de Île Longue, na Bretanha, atualizou a doutrina nuclear do seu país num momento em que a guerra da Rússia contra a Ucrânia entra em seu quinto ano, conflitos no Oriente Médio se alastram e os países da Otan demonstram preocupação com o compromisso dos EUA com a aliança militar. Desde o último discurso de Macron sobre dissuasão nuclear em 2020, o governo em Paris vem mantendo conversas com países como Alemanha e Polônia sobre como a França poderia usar seu arsenal atômico para reforçar a segurança da Europa. Num discurso de forte teor bélico, com um submarino nuclear às suas costas e cercado por militares, Macron considerou que os interesses vitais de seu país "não terminam na fronteira" e incluem também o continente europeu. O presidente francês falou num momento em que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã ameaçam lançar o Oriente Médio num novo conflito e desestabilizar toda a região. Os bombardeios a Teerã, que começaram no sábado, trazem e continuarão trazendo "instabilidade e uma possível conflagração às nossas fronteiras, com as capacidades nucleares e balísticas do Irã ainda intactas", afirmou. 'Dissuasão avançada' Macron anunciou a implementação gradual do que chamou de "dissuasão avançada". "Devemos fortalecer nossa dissuasão nuclear diante de múltiplas ameaças, e devemos considerar nossa estratégia de dissuasão no interior do continente europeu, com total respeito à nossa soberania", disse Macron. "Quem quer ser livre deve ser temido. Quem quer ser temido deve ser forte", afirmou. França é a única potência nuclear da UE Desde a saída do Reino Unido da União Europeia, em 2020, a França é a única potência nuclear do bloco. O país detém o quarto maior arsenal nuclear do mundo, estimado em cerca de 290 ogivas. Macron anunciou que, ao contrário do que fazia antes, a França não divulgará mais o número de suas armas nucleares. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), a França possui 290 das aproximadamente 12.200 armas nucleares existentes no mundo, o que a torna a quarta maior potência nuclear, atrás de Rússia, Estados Unidos e China. O país conta ainda com quatro submarinos armados com mísseis nucleares, capazes de lançar ogivas com alcance de cerca de 10 mil quilômetros. A França também pode lançar armas nucleares pelo ar. Seus caças Rafale podem disparar cerca de 50 mísseis de cruzeiro com ogivas nucleares, que oficialmente têm alcance de aproximadamente 500 quilômetros. Oito parceiros na Europa Macron anunciou que a França permitirá o envio temporário de suas aeronaves armadas com ogivas nucleares para países aliados como parte de uma nova estratégia nuclear voltada a fortalecer a independência da Europa, mas reservou para o presidente da República Francesa a decisão final sobre o uso das armas nucleares francesas. Macron afirmou que oito países europeus concordaram em participar do esquema de dissuasão nuclear "avançado" proposto pela França. São eles Alemanha, Reino Unido, Polônia, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca. Esses países poderão sediar as "forças aéreas estratégicas" francesas, que poderão "se espalhar pelo continente europeu" para "complicar os cálculos de nossos adversários", disse ele. O esquema também poderá envolver "a participação convencional de forças aliadas em nossas atividades nucleares", como em exercícios militares recentes que contaram com a presença de forças britânicas, acrescentou Macron. "A Alemanha é um parceiro-chave", disse ele sobre a cooperação na área de dissuasão nuclear. "Os primeiros passos dessa colaboração começarão ainda este ano e podem incluir visitas a locais estratégicos, bem como exercícios conjuntos." Em paralelo ao discurso, Macron e o chanceler federel alemão, Friedrich Merz, anunciaram a formação de um grupo dedicado à coordenação entre os dois países, que inclui "consultas sobre a combinação adequada de capacidades convencionais, de defesa antimíssil e nucleares francesas". Base de Île Longue A base de Île Longue abriga os quatro submarinos franceses com mísseis balísticos. Pelo menos um deles permanece no mar em tempo integral para garantir a dissuasão nuclear. Macron anunciou a construção de um novo submarino nuclear capaz de lançar mísseis atômicos, que deverá ser lançado em 2036.