TCU pede que Mendonça compartilhe eventuais provas sobre participação de autoridades em festas de Vorcaro

ISADORA ALBERNAZ BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) O ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Jorge Oliveira pediu a André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), que compartilhe eventuais provas sobre a participação de autoridades de alta cúpula em festas do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em uma casa de veraneio em Trancoso, na Bahia. Em despacho assinado no sábado (28), o relator do processo na corte de contas suspendeu a análise até que surjam elementos conclusivos sobre o tema no processo do Master no Supremo, que é relatado por Mendonça, e em inquéritos vinculados. Oliveira também determinou que a unidade técnica do TCU monitore o andamento das investigações no STF "e, oportunamente, promova a instrução do feito à luz das evidências eventualmente compartilhadas". Como a Folha de S. Paulo mostrou, uma representação do MP (Ministério Público) junto à corte, protocolada em 29 de janeiro, solicita que o TCU identifique procuradores, magistrados e outras autoridades que teriam participado dos encontros privados, denominados "Cine Trancoso", além de verificar eventual envolvimento de órgãos federais no financiamento ou promoção dos eventos. A unidade técnica do tribunal, no entanto, recomendou o arquivamento ao alegar que o pedido, apresentado pelo subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado, se baseia em notícias divulgadas pela imprensa e "carece de indícios mínimos de irregularidade na gestão de recursos públicos federais". Além disso, segundo a AudBancos (Unidade de Auditoria Especializada em Bancos Públicos e Reguladores Financeiros), investigar se autoridades participaram de festas de Vorcaro incluiria fatos que estariam fora da competência do TCU. O ministro Jorge Oliveira disse que "a alta sensibilidade e a relevância" do pedido impedem um arquivamento. Segundo ele, embora em fase inicial, o caso "possui conexão umbilical com os graves fatos que permeiam a crise e a liquidação do Banco Master". "É imperativo que este Tribunal atue com extrema prudência, evitando que uma decisão prematura obste a fiscalização de irregularidades que possam vir à tona no futuro", escreveu em sua decisão. A informação foi antecipada pelo portal Metrópoles e confirmada pela Folha de S. Paulo. Ao justificar o pedido de compartilhamento de informações ao STF, o relator afirmou que o Tribunal de Contas da União deve "adotar todos os meios para avaliação de eventuais irregularidades". "Deve-se reconhecer que a natureza de ação conduzida pelo STF confere àquela Corte poderes investigativos intrinsecamente superiores e mais profundos -como quebras de sigilo e perícias técnicas- que são essenciais para elucidar se a presença de autoridades nos referidos eventos teve reflexos em atos administrativos, omissões de fiscalização ou favorecimentos indevidos em detrimento do patrimônio público federal." O TCU não exerce função penal, não investiga crimes comuns nem substitui o Judiciário ou o Ministério Público. ENTENDA O CASO O pedido do subprocurador menciona uma matéria da revista digital Liberta, que aborda os acontecimentos no litoral baiano. Reportagem publicada pela Folha de S. Paulo em setembro de 2025 também tratou de eventos realizados no local. Em três aluguéis de temporada entre 2021 e 2022, Vorcaro se hospedou no imóvel, que pertencia à empresária Sandra Habib, mulher de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil. Depois, a casa foi comprada por empresas ligadas a Vorcaro, e essa venda foi parar em um processo na Justiça em que são descritos detalhes de transtornos provocados quando ele ainda era locatário. Em mensagens de WhatsApp, reproduzidas no processo, a antiga dona da casa se declarou furiosa com o que aconteceu no local. Ao corretor que intermediou a locação Sandra conta que seus funcionários ficaram chocados. "O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas! Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior", escreveu Sandra ao corretor no dia 5 de outubro de 2022. Era a véspera do aniversário de Vorcaro. Segundo ela, eram mais de 30 pessoas, quando o acertado no contrato limitava o número a 20. Nas mensagens, Sandra afirmou que Vorcaro contratou um conjunto de pagode, com música alta, chamando a atenção dos vizinhos, da polícia local e ambiental. Essas festas, no entanto, segundo a Folha de S. Paulo apurou com 13 executivos, empresários e integrantes de órgãos públicos, não se restringiram a Trancoso. Eventos festivos, alguns maiores ou menores, teriam sido promovidos por Vorcaro em diferentes locais, no Brasil e no exterior. Em São Paulo, a área de um hotel ficou conhecida por encontros mais regulares. O fato é que viraram assunto nos círculos políticos e financeiros, e suas repercussões ganham força quanto mais as investigações do caso Master avançam. Na época, a assessoria de imprensa do banqueiro disse, em nota, que a defesa de Vorcaro "repudia as informações e alegações apresentadas, que se baseiam em fonte não fidedigna e em relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresário".