Agro e exportações devem puxar PIB de 2025, mesmo em ano marcado pelo tarifaço

O PIB de 2025 será divulgado nesta terça-feira pelo IBGE, e economistas projetam crescimento da economia puxado por um bom momento da agropecuária, acompanhado por alta nas exportações, mesmo em um ano marcado por condições desfavoráveis, como a política monetária restritiva no país, e um cenário externo permeado por tarifas e tensões no comércio mundial. Entenda: Economia perde fôlego e 2026 será ano de 'inércia seletiva', avalia professor do Insper Mercado de trabalho: Desemprego no Brasil estaciona no piso. Cinco fatores explicam As projeções indicam um crescimento de 2,3%, segundo mediana calculada pela Bloomberg. Se esse número se confirmar, será o menor crescimento desde 2021, quando a alta foi de 4,8%, em recuperação à queda intensa observada em 2020 (-3,3%), ano em que a economia foi impactada pela pandemia de Covid-19. Em 2022, a alta foi de 3%, seguida de 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. A desaceleração já era esperada pelos economistas. Juliana Trece, coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE, explica que o crescimento ainda é robusto, diante do cenário adverso. — O PIB está desacelerando, crescendo um pouco menos do que vinha nos últimos anos. Mas, de modo geral, não é um crescimento ruim, é um crescimento forte. E quando a gente olha a composição, vemos que todos os principais componentes cresceram, teve crescimento na agro, na indústria, nos serviços, no consumo das famílias, formação bruta de capital fixo, exportação. Só que a maior parte dos componentes cresceu menos do que vinha crescendo. Ela acrescenta que os principais componentes que puxam a atividade para baixo, já que são os de maior peso no PIB, são o setor de serviços e o consumo das famílias, que foram impactados pela alta nos juros e o aperto nas condições de crédito. Fim da escala 6x1: implementação gradual e por setor pode minimizar os riscos colaterais para a economia, diz estudo — Em 2025, o impacto da política monetária contracionista ficou mais claro, isso desacelerou uma série de setores, especialmente a indústria de transformação, o comércio varejista, uma parte de serviços, o que explica em grande medida o crescimento mais perto de 2% no ano passado — explicou Rodolfo Margato, economista da XP. Agro puxa oferta Embora outros componentes também tenham tido crescimento, segundo as projeções dos economistas, a produção agropecuária foi a única pelo lado da oferta que teve um crescimento maior do que no ano anterior. A expectativa da XP é de uma alta de 11%, enquanto o Monitor do PIB, divulgado pelo FGV Ibre, registrou alta de 11,6%. Esse crescimento foi puxado, sobretudo, pela safra recorde de grãos, com a grande produção de soja, de milho e de outras culturas, concentradas principalmente no primeiro trimestre. — Chamamos a atenção há algum tempo para a dinâmica forte da agropecuária e da indústria extrativa, dois setores ligados a commodities, e que são menos sensíveis à política econômica doméstica. Calculamos que juntos esses dois setores contribuíram com 0,9 ponto percentual do crescimento do PIB total em 2025. Ou seja, não fossem eles, o PIB total teria crescido 1,4% e não 2,3%, que é a nossa estimativa — considerou Margato. Initial plugin text Já Juliana Trece estimou que só o crescimento da agropecuária foi responsável por 0,7 ponto percentual. — É uma contribuição muito forte, principalmente porque a gente está falando de um componente que pesa relativamente pouco no PIB, em torno de 6%. Se não tivesse esse desempenho tão expressivo na agropecuária, o PIB ainda teria mostrado crescimento, só que realmente bem mais baixo. A agropecuária ajudou a aumentá-lo para cima de 2%. Exportações impulsionam demanda Já pelo lado da demanda, o componente que se destacou, com crescimento acima do observado em 2024, foram as exportações, impulsionadas pelo escoamento da produção agropecuária, mas também pela indústria extrativa, com petróleo. — Soja, por exemplo, é um produto que a gente exporta muito. Então, normalmente, quando a soja tem uma safra boa, ela acaba tendo esse reflexo positivo na exportação. E na extrativa, a gente tem o petróleo, que é a grande exportação dos produtos extrativos. Mas o minério de ferro também não veio ruim — explicou Juliana. Prévia da inflação: Mensalidade escolar sobe mais de 8% e puxa IPCA-15 em fevereiro Se em meados de 2025 as tensões no comércio global, com a imposição de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos do Brasil, abalaram as expectativas sobre exportações, economistas explicam que os efeitos foram menores do que o esperado, já que o país conseguiu direcionar sua produção para outros mercados. Um exemplo é a produção de carnes, cujas vendas para a Ásia, Oriente Médio e Europa subiram, compensando em grande medida a retração das exportações para os Estados Unidos. — Tivemos esse movimento de realocação das vendas externas, isso foi um fator de mitigação bem importante, além da lista de exceções que a gente observou ao longo do segundo semestre. Então, houve sim o impacto negativo sobre a balança comercial, mas consideramos como relativamente moderado, porque já havia um processo de aumento de demanda externa mesmo antes do tarifaço — explicou Margato. Ele mencionou ainda maiores vendas de veículos, partes e peças para a Argentina, mercado importante para a indústria automobilística brasileira, cuja recuperação tem puxado essas exportações. Para 2026, a expectativa é de uma indústria extrativa ainda forte, por conta do petróleo, o que também deve favorecer a exportação dessa commodity. O agro, por outro lado, não teve ter um crescimento tão forte.