A decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, lançar a maior intervenção militar dos Estados Unidos em mais de duas décadas, com desfechos incertos, já provoca movimentos igualmente imprevisíveis na política americana. A poucos meses de uma eleição crucial, a oposição democrata não encontra uma resposta coesa para o ataque ao Irã, enquanto a base trumpista se une ao redor da Casa Branca. Nesta terça-feira, quando membros do alto escalão do governo estarão no Congresso para defender a guerra, essas divisões devem se mostrar em tons ainda mais graves. Conflito regional: Guerra entre Irã, EUA e Israel já atinge 12 países no Oriente Médio; veja número de vítimas Análise: Regime do Irã pode sobreviver, mas o Oriente Médio será transformado Diante de todos os deputados e senadores estarão o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, além do diretor da CIA, John Ratcliffe, e do chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine. No fim de semana, enquanto as bombas caíam sobre o Oriente Médio, o Pentágono detalhou a “Operação Fúria Épica” a assessores legislativos, e um grupo de parlamentares dos dois partidos, conhecido como “Gangue dos Oito”, conversou com Rubio e Ratcliffe a portas fechadas na segunda-feira. Segundo o secretário de Estado, os EUA agiram porque Israel atacaria o Irã "com ou sem Washington", e os americanos resolveram se juntar à guerra para "minimizar" os impactos das retaliações de Teerã contra suas forças. A explicação agradou os governistas, mas não os democratas. O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, disse que saiu com mais dúvidas do que respostas. Mark Warner, integrante da Comissão de Inteligência do Senado, afirmou que foram apresentados "quatro ou cinco cenários" diferentes para o conflito. — Não tenho certeza de qual desses objetivos, se alcançado, significa que chegamos à reta final — disse o democrata à CNN. — Não havia nenhuma ameaça iminente aos Estados Unidos da América por parte dos iranianos. Havia uma ameaça a Israel. Se uma ameaça a Israel é equivalente a uma ameaça iminente aos Estados Unidos, então entramos em território desconhecido. Dezenas de pessoas morreram em ataque a uma escola no sul do Irã Há uma semana, no mesmo Congresso, Trump proferiu o discurso sobre o Estado da União e não deu pistas sobre o ataque que ordenaria dias depois. À ocasião, falava em uma saída negociada, ao mesmo tempo em que seus representantes estavam em Genebra em busca de um acordo envolvendo os programas nuclear e balístico de Teerã. Tal como nas outras ações militares lançadas em seu segundo mandato, ele não buscou o aval do Legislativo para acionar as tropas. — Eles entraram nessa [guerra] sem qualquer discussão prévia conosco e, aliás, por que na terça-feira, durante o discurso sobre o Estado da União, o presidente não explicou ao povo americano por que iria realizar um ataque ao Irã? — afirmou, em entrevista à NBC News, o senador democrata Mark Kelly. Ataques ao Irã: França, Alemanha e Reino Unido preparam 'ações defensivas' para proteger aliados, diz comunicado conjunto Mas as primeiras reações à guerra evidenciaram problemas íntimos da oposição a Trump: como em outros temas de interesse nacional, incluindo a imigração, os democratas deixaram expostas divisões internas e a falta de um discurso coeso. Desde sábado, houve questionamentos sobre a legalidade da guerra, sobre as mortes de militares americanos e sobre a falta de um casus belli. Em janeiro, quando esteve perto de um ataque, Trump citou a repressão do regime que deixou milhares de mortos nas ruas. Semanas depois, realçou o risco do Irã construir uma bomba nuclear, menos de um ano depois de dizer que o programa atômico de Teerã fora “obliterado” por bombardeios pontuais. Agora, parece interessado na queda do regime dos aiatolás e em destruir o programa de mísseis balísticos, alegando que os iranianos teriam armamentos capazes de atingir os EUA, embora especialistas digam que isso levaria anos para acontecer. "Pare de mentir para o povo americano. A violência gera violência. Aprendemos essa lição no Iraque. Aprendemos essa lição no Afeganistão. E estamos prestes a aprendê-la novamente no Irã. As bombas ainda não criaram democracias duradouras na região e desta vez não será diferente", afirmou, em comunicado, a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, expoente da ala progressista do partido. Novos alvos: Irã atinge instalações de energia na Arábia Saudita e no Catar em onda de retaliação contra países que abrigam bases dos EUA Ruben Gallego, senador e veterano da Guerra do Iraque, disse no domingo que “não há nada pior do que ver seus amigos morrerem por uma causa que não é do interesse nacional deste país”, pouco depois da confirmação das primeiras mortes de americanos no Kuwait. — Não há liderança por parte deste presidente neste momento, e estamos no meio de bombardeios, com homens e mulheres morrendo — afirmou, em entrevista à rede CNN. Para alguns democratas, a hostilidade de quase cinco décadas da República Islâmica em relação aos EUA e a Israel, as alegações de que o regime é o principal fator de instabilidade no Oriente Médio, e de que busca uma bomba atômica, se sobressaíram aos questionamentos jurídicos e políticos. “Operação Fúria Épica. O presidente Trump tem se mostrado disposto a fazer o que é certo e necessário para alcançar a paz verdadeira na região. Que Deus abençoe os Estados Unidos, nossas grandes forças armadas e Israel”, escreveu na rede social X o senador democrata Josh Fetterman, com frequência criticado por setores progressistas por seu apoio irrestrito a Israel. Initial plugin text Ele não foi uma voz solitária na oposição. O deputado Josh Gottheimer elogiou a “ação decisiva” de Trump, e seu colega de Câmara, Greg Landsman, afirmou que os EUA “estão destruindo os mísseis e bombas do Irã e impedindo que roubem mais vidas”. Tom Suozzi, também deputado, disse concordar “com os objetivos do presidente de que o Irã jamais poderá obter capacidade nuclear”. — Existem duas correntes de pensamento sobre isso. Há uma parcela que se opõe veementemente a qualquer ação militar relacionada ao Irã — afirmou ao jornal britânico Guardian Joel Rubin, subsecretário adjunto para assuntos internos do Departamento de Estado no governo de Barack Obama. — O segundo grupo basicamente não gosta do processo, acha que precisávamos de informações mais detalhadas, mas não necessariamente se opõe ao que está acontecendo. Ao vivo: Guerra no Oriente Médio cresce com múltiplos fronts e ataques entre Israel e Hezbollah; ações do Irã aumentam tensão com Europa Além de discursos, a liderança democrata pretende colocar em votação já esta semana uma resolução para restringir a operação militar dos EUA até que o presidente obtenha o aval do Congresso, citando uma lei de 1973. Apesar das chances de sucesso da iniciativa serem baixas — mesmo que seja aprovada pelas duas Casas, ela poderá ser vetada por Trump — será uma chance para a oposição pressionar publicamente a Casa Branca. — O presidente parece não ter um plano para o período pós-guerra e tudo indica que o Irã está prestes a escolher um novo líder do regime atual — afirmou o senador Tim Kaine, em entrevista coletiva, citado pelo portal The Hill. — Acredito que seja realmente importante que todos os membros do Congresso se posicionem publicamente sobre isso. Veja sequência de explosões no sul de Beirute após alerta israelense Enquanto a oposição tenta juntar forças, a poucos meses das eleições que renovarão a Câmara e parte do Senado, os republicanos parecem unidos ao redor de Trump. O senador Lindsey Graham, um dos mais conhecidos nomes anti-Irã em Washington, disse que o discurso em que Trump anunciou a guerra “ficará marcado na História como o catalisador da mudança mais histórica no Oriente Médio em mil anos”. O também senador Tom Cotton afirmou que “a conta do açougueiro finalmente chegou para os aiatolás”. Tom Emmer, vice-líder do governo na Câmara, chamou a guerra de “ato de força ousado e decisivo" do presidente Trump. Nova frente: Israel divulga vídeo de ataque contra Hezbollah no Líbano; veja outras imagens de ação israelense no território libanês Nem todos estão satisfeitos. Membros do movimento Maga (“Façam os EUA Grandes Novamentes”) se perguntam como a nova guerra se encaixa na promessa de Trump de evitar novos conflitos. Jack Posobiec, ativista de extrema direita, disse esperar que “seja rápido, rigoroso e implacável para que possamos terminar logo e trazer nossas tropas para casa”. Andrew Kolvet, representante da organização Turning Point USA, do ativista Charlie Kirk, morto no ano passado, reconheceu que o ataque “não foi propriamente apresentado aos americanos”. Marjorie Taylor-Greene, ex-deputada e ex-trumpista radical, disse que "votamos pela 'América Primeiro' e por ZERO guerras”. Nesta segunda-feira, pesquisas mostraram que a guerra segue impopular entre os americanos. Uma sondagem realizada pela agência Reuters e pelo Ipsos apontou que 27% dos entrevistados apoiam o conflito, enquanto 43% são contra — a maioria dos republicanos, 55%, é a favor, mas um percentual considerável, 31%, respondeu “não ter certeza”. Outro levantamento, realizado pela rede CNN e pela consultoria SSRS, afirmou que 59% dos entrevistados desaprovam a decisão de atacar o Irã, e 56% são contra uma ação para derrubar o governo iraniano.