Horas depois de EUA e Israel lançarem um ataque de grande porte contra o Irã, a “Operação Fúria Épica”, moradores de cidades como Dubai, Doha e Manama se viram diante de um cenário até pouco tempo inimaginável: mísseis vindos do território iraniano cruzaram os céus, sendo interceptados no ar ou atingindo alvos em solo. Um golpe contra as “ilhas de paz e prosperidade” em uma região em estado permanente de crise, que impõe custos elevados às monarquias da região, além de escolhas mais difíceis do que elas gostariam de fazer. — Para as pessoas e os líderes políticos daqui, ver Manama, Doha e Dubai bombardeadas é tão estranho e inimaginável quanto seria para os americanos ver Charlotte, Seattle ou Miami bombardeadas — disse Monica Marks, professora da Universidade de Nova York em Abu Dhabi, à rede al-Jazeera. Conflito de grande porte: Guerra entre Irã, EUA e Israel já atinge 12 países no Oriente Médio; veja número de vítimas Análise: Regime do Irã pode sobreviver, mas o Oriente Médio será transformado Nos anos que antecederam a guerra, o Irã vinha intensificando os contatos com os governos da região, quebrando impasses — como com a Arábia Saudita —, estreitando laços estratégicos — como com o Catar — e reforçando parcerias diplomáticas, no caso de Omã, que serviu de mediador para as conversas com os EUA até semana passada. Mas ao quebrar o apaziguamento e ameaçar a imagem de prosperidade ostentada pelos reinos, Teerã quer elevar o preço da guerra e pressioná-los para que atuem em busca de um cessar-fogo a curto prazo, apesar da possibilidade de trazê-los para um conflito que não queriam lutar. — Eles têm plena consciência de que acabam pagando grande parte da conta das retaliações — explicou Andreas Krieg, professor do King's College, à rede alemã DW. — Os aliados do Golfo não compartilham da tolerância ao risco de Washington e temem ser arrastados para campanhas que não escolheram. Desde sábado, o governo dos Emirados Árabes Unidos relatou que 174 mísseis, 700 drones e oito mísseis de cruzeiro foram lançados pelo Irã contra seu território desde sábado. A maior parte dos projéteis foi interceptada, mas destroços causaram estragos em áreas como Palm Jumeirah, um arquipélago artificial que abriga residências e hoteis de luxo em Dubai. No Bahrein, a base que abriga a Quinta Frota da Marinha dos EUA foi atacada com drones, e no Catar, o alvo era a base aérea de al-Udeid, usada pelos EUA desde 2001. No Kuwait, seis militares americanos morreram. Nem o sultanato de Omã, até semana passada mediador das conversas entre Teerã e Washington, escapou: o porto de Duqm foi atingido por drones, e um navio foi atacado na costa do país. 'Surpresa tática': Infográficos mostram passo a passo da missão que matou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em plena luz do dia O fechamento de um dos corredores aéreos mais movimentados do planeta, na região do Golfo Pérsico, levou ao cancelamento de milhares de voos. Embarcações que circulam pelo Estreito de Ormuz, na entrada do Golfo, receberam mensagens de rádio alertando para o fechamento da passagem, por onde trafegam 20% das exportações globais de petróleo. O preço do barril de petróleo disparou, assim como a cotação do gás natural liquefeito (GNL). Na Arábia Saudita, a petrolífera Aramco fechou sua maior refinaria, de Ras Tanura, após danos causados por drones iranianos. Incêndio em Dubai Ao justificar as retaliações, Ali Larijani, secretário do Conselho de Segurança Nacional do Irã, disse que não tinha a intenção de atacar os países do Golfo, mas que “quando as bases do seu país são usadas contra nós e os Estados Unidos operam na região com suas próprias forças, nós os alvejamos”. — Esta é uma guerra entre Israel e os EUA, e não tem nada a ver conosco. Estamos apenas presos nesta situação geopolítica — afirmou o editor-chefe do jornal Gulf Times, baseado em Doha, à al-Jazeera. De acordo com a agência Bloomberg, os Emirados Árabes Unidos e o Catar conversam com aliados próximos a Trump para convencer o republicano a interromper os ataques aéreos e seus planos imediatos de mudança de regime. Desafios do conflito: EUA e Irã dizem estar prontos para guerra prolongada em meio a preocupações com estoques de munições Os dois, ao lado de Omã, queriam que os americanos escolhessem a diplomacia e as perspectivas de negócios vantajosos depois de um acordo e do fim das sanções. Mas as divergências históricas com Teerã, além dos argumentos a favor de uma ofensiva definitiva contra a República Islâmica após 47 anos de hostilidades, falaram mais alto. “Negociações ativas e sérias foram mais uma vez minadas. Nem os interesses dos Estados Unidos nem a causa da paz mundial são bem servidos por isso. E oro pelos inocentes que sofrerão. Exorto os Estados Unidos a não se deixarem envolver ainda mais. Esta não é a sua guerra”, escreveu Badr al-Busaidi, chanceler de Omã, na rede social X, horas depois dos ataques começarem no sábado. Dezenas de pessoas morreram em ataque a uma escola no sul do Irã Ao mesmo tempo, os países se veem forçados a agir. No domingo, o Conselho de Cooperação do Golfo, que reúne Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Omã e Kuwait, condenou os ataques e disse que “tomará todas as medidas necessárias para defender sua segurança e estabilidade e para proteger seus territórios, cidadãos e residentes, incluindo a opção de responder à agressão”. — Isso não pode ficar sem resposta; um preço precisa ser pago por esse ataque contra o nosso povo — disse Majed al-Ansari, porta-voz da Chancelaria do Catar. Analistas não descartam a possibilidade dos árabes se juntarem ao conflito, mas veem como mais provável o reforço de medidas de defesa interna, além de uma resposta armada pontual e sem relação formal com a guerra dos EUA e de Israel. A ausência de uma reação, caso os ataques continuem, poderá passar a indesejável imagem de fragilidade. Seja qual for o desfecho, a principal baixa política deve ser a quebra definitiva de confiança. As monarquias tendem a ver o regime, caso ele sobreviva, como a maior ameaça à estabilidade regional. Os anos de diálogo podem dar lugar à desconfiança,frustração e instabilidade futura, e a uma coordenação militar mais próxima entre as monarquias. “Neste momento, é difícil imaginar que o Golfo volte ao caminho anterior de distensão com o Irã. Com seus ataques imprudentes, Teerã parece ter galvanizado o Golfo, talvez até proporcionando um alívio (possivelmente temporário) às crescentes tensões entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos”, afirmou Mona Yacoubian, diretora do Programa para o Oriente Médio do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em série de perguntas e respostas publicada pela instituição.