Antes bola de segurança, Copa do Mundo de 2026 vira pesadelo interminável fora das quatro linhas

No papel, a estratégia era imbatível. Após duas edições sediadas em autocracias, Rússia em 2018 e Catar em 2022, a Copa do Mundo volta em junho para as Américas, em sua edição mais gorda, com partidas nas três pujantes democracias do Norte. Mais: no dia 4 de julho, os Estados Unidos e suas 11 cidades-sede celebram os 250 anos de sua independência da monarquia britânica, símbolo da afirmação e da difusão global dos valores republicanos. Só faltou combinar com o presidente Donald Trump. A 100 dias do começo do torneio, o suíço Gianni Infantino, presidente da Fifa, anda com a cabeça pelas tabelas. Criticada por tapar o nariz para a repressão política a opositores dos respectivos regimes e para a criminalização de grupos minorizados, entre eles mulheres e pessoas LGBTQUIA+, ao embolsar cifras milionárias de Rússia e Qatar, a organização máxima do futebol se vê agora emparedada pelos atos e sequelas da segunda temporada de Trump na Casa Branca. A apreensão global, e dos organizadores do Mundial, com os riscos da impetuosidade do presidente americano foi ilustrada no último fim de semana, no início do ataque ao Irã. Trump prefere a ação à habilidade diplomática, para a qual assumidamente não tem paciência, e cultua a desestabilização como força natural para mudanças. Quando detecta fraqueza, como no caso do regime dos aiatolás, dá o sinal verde muitas vezes às custas da prudência e de vidas alheias. Imagens compartilhadas pelo Comando Central dos EUA mostram um navio da Marinha dos EUA lançando mísseis Tomahawk em direção ao Irã Comando Central dos EUA Ausência do Irã O resultado final, que pode, especialmente no caso persa, ter consequências históricas, não se dá por planejamento exaustivo, mas por ímpeto e visão típicas do negociador cru. É essa lógica do imprevisível que pode se reverter na ausência da seleção iraniana no torneio ou, ainda que menos provável, na presença de uma equipe que já não mais cultue a República Islâmica. Por ser a Copa de Trump, esta já é, inescapavelmente, a da indefinição, dentro e fora do campo. A cruzada anti-imigração do presidente americano, que, segundo números oficiais, disputados por especialistas no tema, deportou 600 mil pessoas em 2025, deverá deixar milhares de fãs do futebol, em especial os de origem latino-americana, ausentes de estádios, bares e festas em cidades como Los Angeles, Miami e Dallas. Permanecerão escondidos em suas casas. Trump criticou, de forma inédita para um governante, a capacidade de diversas cidades-sede de seu próprio país, todas administradas por prefeitos do Partido Democrata, de garantir a segurança de moradores e visitantes durante o evento. Homem é perseguido por agentes do ICE nos EUA Reprodução/X De acordo com o governo Trump, o atraso na liberação dos cerca de US$ 625 milhões (R$ 3,2 bilhões) aprovados ano passado e previstos no orçamento federal para auxiliar as cidades-sede com segurança e planejamento local para a Copa é culpa do Partido Democrata. A oposição não aprovou o financiamento do Departamento de Segurança Nacional tal como proposto por Washington por demandar restrições à Agência de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), central para a execução da deportação em massa de imigrantes sem a documentação devida, uma das bandeiras do republicano. Os agentes federais são acusados de abusos diversos e da morte de três cidadãos americanos. Relações deterioradas Ao mesmo tempo, a postura imperialista e unilateral de Washington no tabuleiro geopolítico global afastou o país de aliados históricos, punidos pelos tarifaços, e deteriorou inclusive a relação com seus vizinhos, México e Canadá, com quem sedia o Mundial e que sairão perdendo na reestruturação em curso pelos EUA das regras de livre-comércio na região. Pouco menos de um ano após o republicano dizer que o Canadá deveria se tornar um estado norte-americano e de os eleitores levarem o liberal Mark Carney ao comando do governo, com discurso nacionalista e anti-Trump, pesquisa do instituto britânico Public First para o site Politico acaba de dimensionar o divórcio entre os dois países. Dos entrevistados, 58% afirmam que os EUA não são mais um parceiro confiável. E impressionantes 42% dos canadenses dizem que os vizinhos sequer podem ser considerados aliados. Na fronteira sul, a situação é ainda pior. A presidente Claudia Scheinbaum, de esquerda, joga na retranca enquanto enfrenta o ataque duplo da guerra contra o narcotráfico e da cada vez maior interferência americana, com Trump decidido a conduzir ações militares dentro do país. A reação dos bandidos, nos últimos dias, à morte de Nemesio “El Mencho” Oseguera, chefe de um dos mais temidos cartéis de drogas do México, com atos de violência em 20 estados e ao menos 60 mortos, assustaram moradores e turistas. Ônibus é queimado no México após morte de narcotraficante Ulises Ruiz / AFP Busca por popularidade A capacidade do combalido estado mexicano de restabelecer a ordem no país nas próximas semanas será crucial para que a presidente consiga manter o discurso de que Washington ajuda o México no combate ao crime com inteligência, mas sem presença militar e ameaça à soberania nacional. É justamente no México que a Copa de 2026 terá seu pontapé inicial, na capital, no Estádio Azteca, no dia 11 de junho. Na ocasião, os anfitriões enfrentarão a África do Sul, também às turras com os EUA, entre outros motivos pela decisão de Trump de priorizar brancos sul-africanos em sua absurda política de refugiados. O republicano vê o Mundial como alavanca para ajudá-lo a recuperar a popularidade, hoje em recorde negativo, abaixo dos 40%, a menos de nove meses de eleições que decidirão o comando do Congresso. Pesquisas mostram que, se o pleito fosse hoje, a desaprovação a suas medidas na economia e na imigração levariam os democratas à maioria na Câmara, e ao início de investigações capazes de paralisar a revolução de extrema direita iniciada em janeiro de 2025. Os trumpistas temem especialmente o pente fino em vantagens oferecidas a amigos e financiadores de campanha eleitoral, leia-se corrupção, e ao seguido dar de ombros de Washington a decisões do Poder Judiciário. As infrações do Trump 2.0 foram tantas que nem é preciso chamar o VAR para revisar o erro de Infantino ao inflar o ego do americano carente de Nobel com o mal-ajambrado “Prêmio da Paz da Fifa”, concedido a ele no sorteio da Copa, em dezembro. Gol contra que escancarou as contradições daquela que foi programada para ser a Copa das Democracias.