Com jogos suspensos e rotina de explosões, futebol do Oriente Médio convive com tensão: 'Situação preocupa', diz Artur Jorge

Treinar ao som de explosões e ver traçados de mísseis no céu definitivamente não estava nos planos de quem se transferiu para países do Golfo Pérsico. Turbinadas pelo dinheiro do petróleo, algumas ligas locais se tornaram destino comum de atletas e profissionais do futebol. Só que a região virou palco do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. E, agora, quem estava acostumado apenas com gritos de gol ou protestos de torcidas está tendo que lidar com esta nova situação. Copa do Mundo 2026: O que pode acontecer com o Irã a 100 dias do início do Mundial dos EUA, Canadá e México Leia também: Ataques dos EUA ao Irã adiam competições no Oriente Médio, atletas ficam presos na região e F1 pode ser afetada O país mais atingido é o Irã, alvo da dupla EUA-Israel. A federação nacional de futebol já anunciou a paralisação de todas as suas competições. Embora não sejam o palco principal do conflito, Catar e Emirados Árabes são alvos da contra-ofensiva iraniana. Os ataques são direcionados a bases militares americanas nos dois territórios. Mas podem ser percebidos por toda a população. - Vivemos momentos de alguma tensão com o início do conflito. Ainda que seguindo o protocolo do Estado e resguardado em casa, tem sido possível durante todo o dia e noite ver bem de perto o rebentamento dos mísseis no céu de Doha. Temos alertas constantes no telefone quando o risco de ataque é maior. A situação preocupa, mas o momento é de manter a serenidade e garantir a segurança - relatou o técnico Artur Jorge, ex-Botafogo e atualmente no comando do Al-Rayyan, do Catar, que conta com os brasileiros Gregore, Róger Guedes, Wesley, Gabriel Pereira e Rodrigo Moreno. Fumaça é vista no céu de Doha, no Catar, após ataque iraniano ao país Mahmud Hams/AFP A federação catari já anunciou a suspensão de todos os jogos no país e adiamento para data ainda a ser anunciada. Não há previsão para retorno, o que põe em risco inclusive a realização da Finalíssima, entre Espanha e Argentina, marcada para ser realizada em Doha, no dia 27. - Todos os jogos da Liga foram cancelados e adiados. O mesmo aconteceu com o jogo que teríamos no dia 4, a semifinal da Gulf Cup Champions, a jogar no Kuwait. Aguardamos com paciência e esperança o fim do conflito para podermos voltar à nossa rotina diária aqui no Qatar - completou o treinador português. 'Às vezes dá para ver choques no ar' Nos Emirados Árabes, as consequências foram menores. Todas as categorias inferiores a 18 anos tiveram as atividades suspensas. Já no sub-20 e no futebol profissional, a próxima rodada da liga local segue marcada. Porém, os jogos de ida das oitavas de final da Champions League asiática envolvendo equipes dos Emirados Árabes e do Catar foram adiados. Eles seriam realizados na última segunda e nesta terça. E há a expectativa de que o mesmo ocorra com os confrontos de volta, marcados para a próxima semana. A eficiência do escudo anti-mísseis, que derruba diariamente centenas de tentativas de ataques israelenses, garante a segurança da população emiradense. Mas as explosões no ar viraram parte do dia a dia desde o início do conflito. - É o dia inteiro. Ouvimos explosões de manhã, à tarde e à noite. Algumas vezes dá para ver, porque os mísseis deixam um traçado no céu. Tanto os de ataque quanto os que fazem o escudo de defesa. Às vezes dá para ver o choque no ar. E as paredes chegam a chacoalhar - contou o brasileiro Marcelo Cardoso, preparador físico do Sharjah FC, dos atletas brasileiros Igor Coronado, Leandrinho, Luan Pereira, Caio Lucas e Matheus Saldanha: - Durante o treino às vezes a gente ouve um barulho. As pessoas olham para cima, tentam ver de onde foi, e vida que segue. Porque sabem que, se houve o barulho, é porque um míssel foi interceptado - continuou Cardoso. O brasileiro Marcelo Cardoso, preparador físico do Sharjah FC Reprodução Os alertas do Ministério da Defesa no celular viraram comuns. No caso dos brasileiros, há ainda os contatos da embaixada. Apesar da proteção, há recomendação para que a população evite sair de casa sem necessidade. Marcelo Cardoso soma, entre idas e vindas, 21 anos de carreira no futebol do Oriente Médio. Ele já visitou, a trabalho, países em conflitos. Mas admite que nunca vivenciou uma situação como esta. - A gente se sente protegido. O sistema de proteção do espaço aéreo é muito eficiente - pondera, para completar: - Mas o barulho é muito grande. À noite, além das interceptações, tem os caças que intensificam os voos. Todo mundo acaba ficando preocupado.