Em 1968, a União Soviética enviou duas tartarugas à Lua... e elas voltaram vivas para contar a história; entenda

Entre brindes de vodca, tensão e silêncio absoluto, uma noite de setembro de 1968 entrou para a história da corrida espacial. No centro de controle soviético em Eupatoria, engenheiros observavam monitores enquanto a espaçonave Soyuz usada na missão Zond 5 seguia rumo à Lua após decolar do Cosmódromo de Baikonur, no atual Cazaquistão. Pouco depois da partida, um problema técnico colocou a operação em risco. Bicho solto no Rio: relembre outras vezes que animais pararam o trânsito Diários cruzados revelam a vida silenciada de judia alemã perseguida pelo nazismo Diante da sala em suspense, o projetista-chefe do programa, Vasili Mishin, analisava os sinais da nave. Considerado posteriormente um dos nomes derrotados na corrida lunar contra os Estados Unidos, naquela noite ele conseguiu orientar a equipe e estabilizar o sistema da espaçonave 7K-L1. O alívio percorreu o centro de controle e as comemorações foram retomadas. Confira: A missão, iniciada na noite de 14 para 15 de setembro de 1968, acabaria se tornando um marco: a Zond 5 foi a primeira sonda a contornar a Lua e retornar à Terra. O voo, no entanto, esteve longe de ser tranquilo. Uma tripulação incomum A nave chamou atenção não apenas pela trajetória, mas pelos passageiros. Para avaliar os efeitos de uma viagem circumlunar em organismos vivos, cientistas soviéticos enviaram uma pequena “arca” biológica: moscas-das-frutas, vermes, plantas, sementes, bactérias e duas tartarugas da espécie Testudo horsfieldii. No assento do piloto havia ainda um manequim equipado com sensores para medir radiação. Segundo o pesquisador Brian Harvey, no livro Exploração Lunar Soviética e Russa, o percurso incluiu uma série de contratempos técnicos. Um dos mecanismos foi contaminado durante o voo e, na volta à Terra, sensores estavam mal instalados e parcialmente bloqueados pelo material de isolamento da nave. A descida também foi turbulenta. A cápsula enfrentou temperaturas elevadas durante a reentrada na atmosfera antes de pousar no Oceano Índico em 21 de setembro. Paraquedas e sinalizadores permitiram a localização do módulo, recuperado por embarcações soviéticas no dia seguinte. Quando os técnicos abriram a cápsula, encontraram as duas tartarugas ainda vivas — embora debilitadas. Sem se alimentar desde antes da decolagem, haviam perdido cerca de 10% do peso corporal e apresentavam sinais de exaustão após a viagem de quase uma semana. Apesar da sobrevivência ao voo histórico, os animais acabaram sacrificados pouco depois para estudos científicos. Ainda assim, a missão cumpriu seu objetivo: a Zond 5 passou a cerca de 1.950 quilômetros da Lua e retornou com dados e imagens inéditas. Rastreamento internacional e rumores A trajetória da nave foi acompanhada inclusive fora da União Soviética. No Observatório Jodrell Bank, em Manchester, o radioastrônomo Bernard Lovell detectou transmissões que pareciam conter voz humana, o que levantou suspeitas de que Moscou teria enviado secretamente um cosmonauta ao redor da Lua. Posteriormente descobriu-se que se tratava de gravações usadas para testar comunicações espaciais. Entre as vozes transmitidas estava a do cosmonauta Valeri Bykovsky. A Zond 5 não foi a única missão com animais a bordo. Outras cápsulas soviéticas também transportaram cargas biológicas, e tartarugas voltariam ao espaço em missões posteriores. Experimentos semelhantes faziam parte de uma longa tradição da exploração espacial. Antes mesmo de Yuri Gagarin se tornar o primeiro humano no espaço, em 1961, insetos, macacos e cães já haviam participado de voos experimentais. Um dos casos mais conhecidos é o da cadela Laika, lançada pela União Soviética em 1957, que morreu em órbita após o superaquecimento da cápsula. Entre sucessos e perdas, esses experimentos ajudaram a abrir caminho para as missões tripuladas. As tartarugas da Zond 5, pouco lembradas hoje, tornaram-se parte desse capítulo decisivo da história da exploração espacial.