Maior semente do mundo? Conheça o coco-do-mar, espécie que pode chegar a 42 quilos

Fruto de uma árvore do oceano Índico, o coco-do-mar é a maior semente do reino vegetal e um dos símbolos naturais mais emblemáticos do arquipélago de Seicheles. Produzido pela palmeira Lodoicea maldivica, o chamado “double coconut” pode pesar entre 15 e 30 quilos — o recorde conhecido chegou a 42 quilos — e medir até meio metro de comprimento. Galápagos: Dezenas de tartarugas-gigantes são reintroduzidas em ilha de onde desapareceram há um século Entenda: Em estudo de cientista brasileira, macaco demonstra capacidade de lidar com objetos imaginários A árvore, que ultrapassa 30 metros de altura e exibe folhas com até 4,5 metros de largura e 10 metros de comprimento, tem um ciclo de vida extremamente lento: leva cerca de 25 anos para atingir a maturidade e só produz frutos que poderão germinar sete anos depois. Um coco caído no chão pode demorar até três anos para brotar. Na prática, uma palmeira pode gerar um descendente apenas aos 35 anos de idade — ritmo que ajuda a explicar por que a espécie é classificada como “ameaçada de extinção” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Apesar do nome científico sugerir ligação com as Maldivas, a palmeira jamais existiu ali. As primeiras sementes foram encontradas boiando no mar próximo às ilhas, o que alimentou mitos sobre uma árvore submersa no fundo do oceano. A lenda só foi desfeita no século XVIII. Na realidade, a palmeira exige solo profundo, bem drenado e floresta tropical preservada ao redor. Hoje, restam cerca de 8 mil palmeiras maduras em estado selvagem, concentradas principalmente nas ilhas de Praslin e Curieuse. A espécie também foi introduzida na ilha de Silhouette. A coleta excessiva ao longo de séculos — impulsionada pelo formato exuberante da semente, frequentemente comparado às nádegas humanas — reduziu drasticamente sua população. Durante muito tempo, qualquer fruto caído na floresta era imediatamente recolhido para venda. Calendário lunar de março 2026: veja as fases da lua no mês Um dos principais refúgios da espécie é a Reserva Natural Valée de Mai, em Praslin. Dos 8.300 coqueiros maduros identificados pela UICN no país, cerca de 1.500 estão na área protegida, que possui 19,5 hectares. Antiga floresta intocada até os anos 1930, o local foi resguardado pelo governo colonial britânico em 1966 e, em 1983, declarado Patrimônio Mundial pela Unesco. Desde 1991, o coco-do-mar é protegido por lei no arquipélago. Além de abrigar uma população saudável da palmeira, a reserva concentra outras cinco espécies de palmeiras endêmicas e rica avifauna. Entre os destaques está o papagaio-negro-de-seicheles (Coracopsis barklyi), considerado vulnerável pela Lista Vermelha da UICN, restrito a Praslin e à vizinha Curieuse. Outra espécie emblemática é o pombo-azul-de-seicheles (Alectroenas pulcherrimus), cuja população se recuperou após a interrupção da caça na década de 1970. A fama do coco-do-mar atravessa séculos e culturas. Há três décadas, produtos da medicina tradicional chinesa chegaram a vendê-lo como ingrediente ativo contra tosse, identificado como “coco-do-mar africano”. Mais tarde, constatou-se que se tratava de propaganda enganosa: a comercialização da semente não é permitida, e os xaropes continham apenas extratos emolientes de bálsamo-de-tolu e olmeiro-vermelho. A lenda também envolve supostos poderes afrodisíacos atribuídos à carne gelatinosa do fruto. Em 1881, ao visitar Praslin, o general britânico Charles Gordon afirmou ter encontrado ali o verdadeiro Jardim do Éden. Segundo ele, o coco-do-mar seria o Fruto Proibido, e não a maçã bíblica. Hoje, porém, provar a polpa é quase impossível: a venda é proibida, e exemplares legalizados podem custar entre 500 e 2 mil libras no mercado internacional. Pesquisas científicas recentes buscam entender como a evolução levou ao gigantismo da semente. Estudos combinando análises de DNA, tamanho das sementes e características ecológicas sugerem que a ausência de grandes animais dispersores nas ilhas favoreceu a produção de menos sementes — porém muito maiores —, reduzindo a competição sob a “árvore-mãe”. O caso da Lodoicea é frequentemente citado como exemplo de como tempo, isolamento geográfico e acaso moldam características únicas na natureza. Especialistas alertam que, embora protegida, a espécie permanece vulnerável à coleta ilegal e às mudanças ambientais. E lembram que os serviços ecológicos oferecidos por plantas raras como essa são fruto de uma longa evolução — e podem ser impossíveis de recriar se desaparecerem.