O país conhecido no Ocidente durante séculos como Pérsia nunca deixou de se chamar Irã para seus próprios habitantes. O nome “Irã” deriva da palavra “ariano” e significa “terra dos arianos”, em referência à etnia ancestral de parte de sua população. A mudança oficial da nomenclatura internacional ocorreu apenas em 1935, por decisão do então xá Reza Pahlevi. Infográfico: Veja passo a passo da missão que matou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em plena luz do dia Veja também: Embaixador do Irã agradece apoio do Brasil e afirma que reação contra EUA e Israel irá continuar Até o início do século 20, eram sobretudo os europeus que utilizavam o termo Pérsia para designar o território. Internamente, porém, o nome Irã sempre foi adotado. Para os iranianos, existe, sim, uma região chamada Pérsia — correspondente à atual província de Fars, considerada o berço histórico do povo persa —, mas ela não abrange todo o país. A origem do termo “ariano” também foi alvo de distorções históricas. “Mas arianos não eram os nórdicos e germânicos que Hitler considerava puros?” Não. Essa foi uma das interpretações equivocadas difundidas pelo regime nazista. Durante muito tempo, pensou-se que “ariano” fosse sinônimo de “indo-europeu”, tronco étnico e linguístico que deu origem às línguas europeias modernas e ao sânscrito, na Índia. Hoje se sabe que os povos indo-europeus originais não utilizavam a palavra “ariano” para se autodenominar; o termo esteve restrito às regiões que hoje correspondem ao Irã e à Índia. Das origens nômades ao maior império da Antiguidade A história do povo persa remonta a cerca de 1000 a.C., quando grupos nômades chamados parse migraram da Ásia Central para o sul do atual território iraniano. No século 6 a.C., sob o comando de Ciro II, o reino persa se unificou e iniciou uma fase de expansão que alcançou a Ásia Menor, a Ásia Central e partes da África. Guerra no Oriente Médio: quem são os comandantes mortos em ofensiva de EUA e Israel O Império Persa atingiu seu auge territorial durante o reinado de Dario I (c. 549 a.C. – c. 485 a.C.), avançando em direção ao atual Paquistão e tentando penetrar na Europa, onde enfrentou resistência dos gregos. As guerras entre persas e gregos foram narradas por Heródoto na obra Histórias e inspiraram, séculos depois, a HQ e o filme 300. No século 4 a.C., o império caiu diante das forças de Alexandre, o Grande, que derrotou o rei Dario III e assumiu o controle da região. Após a morte do conquistador, em 323 a.C., o território foi dividido entre seus generais. A reunificação só ocorreria em 224 d.C., sob a dinastia sassânida, considerada a última do “grande império persa”. Invasões, perdas territoriais e influência islâmica A partir do século 7, o território começou a encolher. Derrotas para o Império Bizantino e, posteriormente, a invasão islâmica árabe entre 643 e 650 marcaram o fim da dinastia sassânida e alteraram profundamente a cultura, a religião e a organização social da região. 'Não me acovardo': Trump e secretário de Defesa dos EUA não descartam envio de tropas em solo iraniano Nos séculos seguintes, o território foi alvo de sucessivas invasões, incluindo dinastias turcas e grupos vindos da Mongólia e do Azerbaijão. O controle e a integridade territorial começaram a ser parcialmente restaurados apenas em 1736, sob o comando de Nadir Shah. Entre os séculos 18 e 19, a Pérsia perdeu terras para a Rússia e, no início do século 20, passou à esfera de influência britânica. Em 1925, Reza Pahlevi assumiu o poder após um golpe de Estado. Dez anos depois, oficializou o nome Irã no cenário internacional. Em 1941, no entanto, foi forçado a abdicar por Estados Unidos e Grã-Bretanha, que temiam sua aproximação com a Alemanha nazista. Da modernização à República Islâmica Seu filho, Mohammad Reza Pahlevi, deu continuidade a um projeto de modernização e aproximação com o Ocidente, apoiado na economia de mercado. O processo enfrentou forte oposição de setores religiosos. Em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderou a Revolução Islâmica, depôs o xá e instaurou uma república islâmica com leis baseadas no islamismo. Desde então, o antagonismo com os Estados Unidos e com o modelo capitalista ocidental tornou-se elemento central do discurso político iraniano. A última grande disputa territorial ocorreu em 1980, quando o Iraque de Saddam Hussein invadiu o país. A guerra, que durou nove anos, deixou cerca de 1,5 milhão de mortos e terminou sem alterações nas fronteiras. Ao longo de três milênios, o antigo Império Persa — que chegou a abranger cerca de 5 milhões de km² — foi reduzido a aproximadamente um terço de sua extensão máxima. Ainda assim, o Irã contemporâneo carrega o legado de uma das civilizações mais influentes da Antiguidade, cuja identidade vai muito além do nome pelo qual ficou conhecido no Ocidente.