Jatobá se transforma em farinha, licor e até pomada cicatrizante

Jatobá em tupi significa fruto de casca dura. Pois esse fruto, que à primeira vista nem se parece com um, está ganhando uma cadeia produtiva no país. Nativo do Brasil, o jatobá está presente em cinco biomas: Amazônia, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga. A árvore tem normalmente entre 15 e 30 metros, e sua madeira é valorizada. Mas o jatobá também é uma planta alimentícia não convencional (Panc), e um projeto quer estimular seu uso em alimentos e bioquímicos. Expansão: Produção de Pitaya cresce no Brasil e vira opção na Amazônia Entenda a diferença: Campeão da soja transgênica, Brasil avança também na convencional, usada no shoyu O Projeto Jatobá é conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), liderados pela geógrafa Izabel Castanha Gil, do campus de Tupã, que tem como foco a organização da cadeia produtiva da fruta, ainda pouco explorada. — Mapeamos os possíveis pontos de coleta em cerca de 30 municípios do estado de São Paulo e já trabalhamos em parceria com grupos indígenas do Mato Grosso, que tradicionalmente coletam o jatobá. Paralelamente, trabalhamos para articular projetos de reflorestamento que incluam a fruta — conta Izabel. Altitude, clima ameno e mercado ‘premium’: por que as frutas vermelhas ganham espaço na Chapada Diamantina A iniciativa tem parcerias com universidades, para desenvolvimento de produtos, e com o Sebrae, para capacitação de empreendedores. A Unesp de Tupã e a Faculdade de Tecnologia de Marília estão na rede de pesquisas, além da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). A Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) do estado de São Paulo também colabora. Contra o mosquito Entre os produtos desenvolvidos pela rede estão farinha de jatobá (já usada na merenda escolar) e derivados de vinagre da casca, creme de jatobá com cacau e amendoim, mistura para bolo instantâneo, licor e xarope. A geógrafa Izabel Castanha Gil, que coordena o Projeto Jatobá Arquivo pessoal — O desafio agora é encontrar parceiros capazes de dar escala à produção — afirma Izabel. Na área de panificação, a Fatec Marília desenvolve um fermento natural a partir da seiva do jatobá. O produto não contém glúten e é rico em cálcio, ferro, magnésio e fibras. Já consumiu carne e leite de búfala? Veja por que rebanho cresce no país e produtores estão otimistas Em outubro de 2025, a região de Adamantina, no Oeste paulista, foi reconhecida como cadeia produtiva local (CPL) pelo estado de São Paulo. Esse status permite apoio e fomento à estruturação da cadeia, via parcerias e capacitação de produtores, coletores e empreendedores. Na cidade de Adamantina, uma queijaria desenvolveu um queijo trufado com creme de jatobá, cacau e amendoim, além de um queijo curado em licor de jatobá. Há ainda uma parceria com pesquisadores de Porto Alegre para desenvolver um larvicida natural contra o Aedes aegypti a partir da resina do jatobá. O produto já está em fase de testes de campo. Paralelamente, estudos em bioquímica avançam na formulação de uma pomada cicatrizante, também à base da resina. Açaí promove o ‘renascimento’ da juçara: conheça o fruto da palmeira ameaçada de extinção que é similar ao da Amazônia — Atualmente, a produção de matéria-prima atende à fase experimental, mas a perspectiva de ampliação da demanda já mobiliza articulações com comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul — diz a pesquisadora. O jatobá também está sendo usado no reflorestamento por empresas voltadas à compensação ambiental, com a possibilidade futura de inserção no mercado de créditos de carbono. Até o momento, mais de 20 mil mudas de jatobá foram plantadas em propriedades privadas e áreas de reflorestamento de prefeituras da região, segundo o projeto. O jatobá leva de 10 a 12 anos para dar frutos, que têm sabor adocicado e odor marcante. Uma vez produtiva, pode dar cerca de 200 quilos de frutos a cada dois anos, mantendo-se ativa por mais de um século.