A goleada que não salvou Filipe Luíz e o velho vício do Flamengo de demitir quem vence

A demissão de Filipe Luíz do comando do Flamengo, horas depois da goleada por 8 a 0 sobre o Madureira e da classificação para a final do Campeonato Carioca, não é apenas surpreendente. É simbólica. Resume, talvez como nenhum outro episódio recente, a dificuldade histórica do clube em sustentar projetos técnicos - mesmo quando eles entregam resultados. No início da temporada, após a derrota para o Corinthians na Supercopa do Brasil, já havíamos alertado nesta coluna: aquele revés poderia representar algo maior do que um tropeço isolado. Poderia marcar o retorno das chamadas “viúvas de Jorge Jesus”, uma sombra permanente que paira sobre qualquer treinador que sente no banco rubro-negro desde 2019. O tempo mostrou que o alerta não era exagerado. Apesar de um 2025 amplamente positivo, com conquistas e recuperação de identidade competitiva, Filipe Luíz jamais foi unanimidade dentro da nova gestão. Herdado da administração anterior, o treinador nunca pareceu ser, de fato, o escolhido do presidente Luiz Eduardo Baptista. O desgaste político começou cedo e foi se acumulando silenciosamente. Houve ruídos internos, divergências sobre gestão de elenco, incômodos da diretoria com posicionamentos públicos e conflitos sobre limites de atuação no futebol. Episódios envolvendo Gerson, Pedro e até interferências em setores fora do campo técnico ampliaram a distância entre treinador e dirigentes. O vazamento de uma reunião de cobrança interna apenas tornou público um rompimento que já estava em curso. Estranheza Ainda assim, causa estranheza que o desfecho tenha ocorrido exatamente após a maior vitória do Flamengo na temporada. Porque, objetivamente, a demissão só faria sentido esportivo se representasse um salto inequívoco de qualidade. A troca por um nome do tamanho de Jorge Jesus - capaz de redefinir ambiente, hierarquia e expectativa - poderia justificar uma ruptura tão brusca. Não parece ser o caso. O nome mais citado nos bastidores é o do português Leonardo Jardim, ex-Cruzeiro. Profissional experiente, mas que não apresenta, hoje, credenciais superiores ao trabalho que Filipe Luís vinha realizando. A troca, nesse cenário, soa menos como evolução e mais como reinício — algo que o Flamengo se acostumou perigosamente a fazer. O histórico recente confirma o padrão. Rogério Ceni foi demitido mesmo após conquistar o Campeonato Brasileiro, a Supercopa e o Carioca. Dorival Júnior deixou o clube poucos meses depois de vencer Copa do Brasil e Libertadores, numa das decisões mais incompreensíveis da história recente do futebol brasileiro. Em ambos os casos, a ruptura veio antes da continuidade. O Flamengo parece viver preso a uma lógica imediatista: vence, mas não convence; conquista, mas não encanta; trabalha, mas nunca tem tempo suficiente. Filipe Luíz sai com algo raro no futebol brasileiro contemporâneo: saldo positivo e respaldo do elenco. Cai não exatamente pelos resultados, mas por não ser o treinador ideal de uma direção que nunca o enxergou como projeto próprio. A goleada sobre o Madureira acabou virando apenas um detalhe irônico. No Flamengo, às vezes, nem vencer de oito é garantia de permanência.