De tensões raciais e tiroteios em escolas a aborto e o sistema prisional, os documentários indicados ao Oscar neste ano estão lançando um olhar crítico sobre a sociedade americana. Vários dos cineastas indicados disseram à AFP que esperavam que seus trabalhos provocassem debates. Eles também se mostraram satisfeitos com a visibilidade que uma indicação ao Oscar traz, já que documentários são frequentemente produzidos de forma independente e raramente recebem a mesma exposição que filmes de grande orçamento. Oscar 2026: Saiba qual o trunfo de Wagner Moura para levar o prêmio de melhor ator, segundo o New York Times Qual é a data do Oscar 2026? Veja quando acontece a premiação "Acredito que toda arte é política, e a arte é a vanguarda da revolução", disse à AFP Geeta Gandbhir, cujo filme "A vizinha perfeita" concorre ao prêmio de melhor documentário. O filme, disponível na Netflix, explora o complexo conflito entre raça, armas de fogo e as chamadas leis de "legítima defesa", à medida que uma disputa em um bairro da Flórida se torna fatal. "Quando você olha para todos os meus colegas indicados nessas categorias, percebe que os filmes são profundamente políticos", afirmou Gandbhir. "Todos têm algo a dizer sobre uma questão urgente de alguma forma", acrescentou a cineasta, também indicada ao prêmio melhor documentário em curta-metragem com "The devil is busy". Oscar 2026: O que as celebridades comem nas cerimônias de premiação (e por que isso importa) Esse filme, produzido em Atlanta, retrata uma clínica de aborto assolada por protestos após a Suprema Corte dos EUA ter eliminado, em 2022, o direito constitucional federal ao aborto. A codiretora de Gandbhir, Christalyn Hampton, disse que esperavam "humanizar o tema polêmico" ao focar em uma mulher religiosa que trabalha na segurança da clínica. A mulher se vê tentando equilibrar a proteção das pacientes com o confronto com manifestantes que, em alguns casos, são motivados por crenças semelhantes às suas. "Sentimos que era uma abordagem muito interessante e irônica", disse Hampton. Ela acrescentou que as cineastas esperavam que seu trabalho pudesse ajudar as mulheres a "começar a defender a si mesmas e seus direitos à saúde, e não se deixarem paralisar pelas políticas e pelo que os políticos dizem que elas deveriam fazer". 'Questão Humana' O diretor Joshua Seftel e o jornalista Steve Hartman buscaram humanizar os tiroteios em escolas para o público em geral ao produzirem o curta documentário "All the empty rooms". Para ilustrar a epidemia, a dupla visitou os quartos vazios de crianças e jovens mortos por agressores. "Não é uma questão política, é uma questão humana", disse Seftel à AFP. "Trata-se de algo em que todos concordamos: queremos que nossos filhos estejam seguros quando vão para a escola." Cena do filme 'All the empty rooms' Divulgação Hartman espera que ver esses espaços vazios ajude o público a entender o vazio deixado quando uma criança é morta e a "sentir essa perda", para que o progresso possa ser feito. Usando uma abordagem semelhante, Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman revelaram a realidade das prisões americanas com o documentário "The Alabama solution". "Temos dois milhões de pessoas encarceradas, então não dá para ignorar o problema", disse Jarecki à AFP em um almoço para indicados ao Oscar. "Mas as prisões fazem tudo o que podem para manter a imprensa e os cineastas afastados." Jarecki afirmou que os cineastas poderiam ajudar a promover mudanças ao abordar temas difíceis. "Compreender e ser capaz de enxergar a verdadeira natureza de um problema é o primeiro passo para resolvê-lo", disse ele. Ataques à imprensa O papel dos jornalistas na sociedade e as crescentes ameaças que enfrentam em alguns lugares são o tema de "Armado com uma câmera: A vida e a morte de Brent Renaud", o primeiro repórter americano morto após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. "Infelizmente, chegamos a um ponto em que – segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas – este é o período mais perigoso da história para ser jornalista", disse à AFP seu irmão e diretor do filme, Craig Renaud. Brent Renaud em 'Armado com uma câmera: vida e morte de Brent Renaud' (2025) Divulgação O produtor Juan Arredondo afirmou que a equipe espera que o filme aumente a conscientização sobre os perigos enfrentados por jornalistas em todo o mundo, e não apenas por aqueles que cobrem conflitos armados no exterior. "Acho que chegamos a um momento em que aquilo que temos coberto no exterior há muitos anos está chegando aos Estados Unidos", disse ele, referindo-se ao aumento de ataques e prisões de profissionais da mídia. Arredondo disse esperar que o público "perceba a importância do jornalismo".