Os pontos de preocupação do PIB do quarto trimestre

Apesar da alta de 2,3% no ano, a fotografia do PIB no último trimestre do ano passado tem alguns pontos de preocupação que não podem ser desprezados. A queda do investimento, tecnicamente chamada de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), é um dos pontos principais de atenção. O indicador caiu 3,5% na comparação com o terceiro trimestre, no qual já tinha tido uma virtual estagnação, e recuou 3,1% quando olhado em relação ao mesmo período do ano anterior, o que reforça o sinal negativo. Ao longo de 2025, os investimentos mostraram muita volatilidade, mas uma tendência de deterioração. Depois de começarem o ano acelerado, desde o segundo trimestre os números foram muito ruins. Como o resultado, em relação ao tamanho da economia, a FBCF caiu para 16% do PIB no quarto trimestre de 2025 e na média do ano ficou em 16,8%, ligeiramente abaixo dos 16,9% de 2024. Fundamental para elevar a capacidade de crescimento do país a longo prazo, esse indicador é um dos que mais rapidamente responde à alta da taxa de juros. Não só a taxa de curto prazo definida pelo BC se manteve em 15%, mas também a chamada “parte longa da curva de juros”, que nada mais é do que as taxas dos títulos públicos com prazo que variam de 5 a 40 anos, tem se mantido muito elevada. Uma amostra disso é que a parte fixa da TLP, a taxa de referência do BNDES que considera os títulos atrelados à inflação de 5 anos, se mantém acima de 7% real há mais de um ano (encostando em 8% em parte do período), um nível proibitivo para um grande número de empresas, especialmente do setor industrial. Não à toa, a indústria teve um ano sofrível, com queda de 0,2%, e um último trimestre ainda pior, recuando 0,6% em comparação com o já estagnado terceiro trimestre. O efeito da política monetária restritiva também fica mais destacado no desempenho do consumo das famílias, que ficou parado no quarto trimestre, depois de ter tido discreta queda no anterior. É preciso ficar claro que era esse o objetivo mesmo da alta dos juros, colocar um freio na animação dos agentes econômicos, tanto empresários como consumidores. O que os números divulgados nessa manhã pelo IBGE revelam também é que o resultado só não foi pior porque o consumo do governo acelerou no segundo semestre, com altas superiores a 1%, após um controle maior na primeira metade do ano. Se está claro que a política de contenção do BC para derrubar a inflação deu certo, um problema para a atuação da autoridade monetária persiste: a dinâmica do setor de serviços. Fonte de maior preocupação para o esforço de levar o IPCA à meta, o segmento não só seguiu crescendo ao longo de todo ano como acelerou nos últimos três meses de 2025, com elevação de 0,8% sobre o trimestre imediatamente anterior. Se no agregado os dados do PIB corroboram a necessidade e até urgência de se iniciar o ciclo de corte dos juros, a combinação de consumo do governo e PIB de serviços em alta, ainda mais em um contexto de crescente incerteza internacional por conta do conflito no Oriente Médio, vai exigir muita sabedoria de Gabriel Galípolo e companhia.