Guerra no Oriente Médio já impacta preços do frete do petróleo, diz presidente da Shell

A atual crise no Oriente Médio, com o fechamento do Estreito de Ormuz, deve levar a uma diversificação de investimentos para fora da região do conflito, na avaliação do presidente da Shell Brasil, Cristiano Pinto da Costa. Em entrevista a jornalistas, o executivo disse ainda que a guerra entre Estados Unidos e Irã vai afetar os preços do frete e gerar impactos no fluxo de óleo e gás. Tensão no Oriente Médio: alta do petróleo pressiona Petrobras por reajuste, mas analistas avaliam que empresa vai preferir aguardar Comércio exterior: Petrobras descarta risco imediato às importações e exportações de petróleo após tensão no Oriente Médio — O Estreito responde por 20% do tráfego global de óleo e gás. É natural esperar um impacto no fluxo. Mas hoje a China é o principal mercado, assim como a Europa. Neste momento, estamos fora da rota do conflito. Segundo o presidente da Shell, o preço do frete já vem subindo e deve continuar em alta. — O frete já subiu muito nos últimos dias e deve continuar subindo. É cedo e prematuro ter uma expectativa do impacto de algo tão relevante no preço do petróleo e no frete. O que podemos dizer é que já subiu e deve ficar nesse patamar nas próximas semanas. Os próximos passos vão depender de como o conflito vai se desenrolar nas próximas semanas. O desdobramento da guerra ainda é muito incerto. Como consequência do atual cenário, o executivo lembra que a demanda por petróleo deve continuar em alta, colocando em segundo plano o investimento em energias renováveis. — Depois da Covid e da invasão da Rússia na Ucrânia, o mundo deu uma calibrada na transição energética. E a demanda por hidrocarbonetos vai continuar firme até meados da próxima década. Por isso, novos investimentos em exploração e produção são necessários. E já vínhamos vendo uma maior demanda por energia de óleo e gás. Para ele, o atual conflito pode elevar o investimento em óleo e gás em diversas regiões do mundo. — Há oportunidade para regiões que estão fora da área do conflito, que podem se tornar foco de investimento. Mas, para isso, é preciso um ambiente de licenciamento ambiental competitivo, marco regulatório adequado e competitividade fiscal para que isso se torne realidade. É plausível esperar que a alocação global redirecione os fluxos de uma região para outra. A escalada do preço do petróleo, que chegou a bater US$ 83, ainda não se reflete em novas decisões de investimento no setor, disse o presidente da Shell. Uma fonte da Petrobras confirmou também a mesma perspectiva: é cedo para mudar o cronograma de investimentos. — A indústria não toma decisão de investimento com base na flutuação do preço do petróleo. Temos que olhar os fundamentos de médio e longo prazo. Esses últimos dias não devem interferir em decisões estratégicas de longo prazo para nenhuma companhia, a não ser que o preço se mantenha nesse patamar. E, nesse sentido, é preciso olhar o preço por meses, e não por semanas. Temos que ver por quanto tempo o conflito vai permanecer, qual será o impacto no fluxo do petróleo do Golfo e como o preço maior vai permanecer e impactar a inflação. São muitas variáveis em um período curto de tempo. Investimentos no Brasil O presidente da Shell destacou ainda que a crise no Oriente Médio ocorre em um momento de investimentos recordes da empresa no Brasil. Segundo ele, foram R$ 12,5 bilhões aplicados no ano passado. Ele destacou o desenvolvimento de campos como Tupi e Lapa, além da decisão final de investimento em Gato do Mato no ano passado. Historicamente, a empresa investe no Brasil de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão. — Com Gato do Mato e Atapu, vamos ter grandes patamares de investimento nos próximos anos — disse ele, lembrando que a empresa passou de 10 blocos para 50 blocos desde 2021. Para ele, a Shell tem aumentado a exposição em campos exploratórios no Brasil, como em Pelotas, no Rio Grande do Sul. — Hoje estamos atentos a todos os leilões e queremos continuar crescendo. Chegamos ao recorde de 495,9 mil barris de óleo equivalente por dia em 24 de fevereiro de 2026. Reestruturação da Raízen Em relação ao atual processo de reestruturação da dívida da Raízen, a Shell informou que não há ainda um prazo para que as negociações sejam concluídas. A petroleira, que controla a companhia ao lado da Cosan, ofereceu um aporte de R$ 3,5 bilhões em um processo de capitalização. Segundo o presidente da Shell, a expectativa é que a Cosan faça o mesmo volume de aporte. — As negociações seguem em curso, de acordo com as restrições de cada parte. A Shell se comprometeu a colocar R$ 3,5 bilhões na capitalização da Raízen para manter a empresa como uma companhia integrada de etanol e distribuição de combustível. A expectativa é que o outro acionista entre de maneira proporcional. O princípio da Shell é o da proporcionalidade e da não consolidação da dívida da Raízen no balanço da Shell. Para o executivo, a preferência da Shell é que as duas unidades da Raízen, a de etanol e a de distribuição de combustíveis, sigam juntas como uma só empresa. O outro plano em discussão é dividir a Raízen em duas operações independentes. — A Shell não se opõe a uma separação dos negócios, mas, dada a complexidade da dívida da Raízen e a interdependência entre as duas unidades, a sequência mais plausível é tentar recapitalizar a empresa e depois considerar uma separação. Entendemos que essa também é a preferência dos credores. Ele lembrou que a Shell tentou buscar novos investidores para a Raízen, mas sem sucesso. A empresa vem vendendo ativos nos últimos anos para reduzir sua dívida, superior a R$ 55 bilhões. — Fizemos um data room. A Shell colocou todos os esforços junto a potenciais investidores, mas esse processo não conseguiu trazer um novo sócio. Por isso, a conversa está entre os atuais sócios e os bancos privados.