A crise no Oriente Médio impõe ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva um duplo desafio: calibrar uma resposta diplomática e, ao mesmo tempo, evitar que a política externa se torne foco de vulnerabilidade interna a sete meses das eleições de 2026. Segundo interlocutores que acompanham o tema em Brasília, Lula não pretende deixar esfriar o relacionamento com o presidente americano, Donald Trump — com quem deve se reunir nos próximos dias em Washington. Ao mesmo tempo, uma exposição pública favorável a Trump neste momento poderia ser interpretada como endosso às ações conduzidas por Estados Unidos e Israel, que são questionadas pela diplomacia brasileira. O presidente planeja fazer uma viagem para os Estados Unidos neste mês, mas a visita a Washington ainda não foi confirmada. Para integrantes do governo Lula, o cenário é “complexo e delicado”, sobretudo porque qualquer gesto pode produzir efeitos tanto na política externa quanto no debate interno. Diante do impasse, a orientação é evitar movimentos bruscos. Por isso, a avaliação de que é necessário levar o tema a “banho-maria”. O novo foco de tensão surgiu no sábado, quando EUA e Israel atacaram o Irã em uma ofensiva que resultou na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. A operação marcou um ponto de inflexão na crise regional e desencadeou reações em cadeia no Golfo Pérsico. No mesmo dia, o Itamaraty divulgou duas notas oficiais. Na primeira, condenou a ofensiva; na segunda, solidarizou-se com países do Golfo após os ataques do Irã. No domingo, em entrevista ao GLOBO, o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, classificou como “condenável” e “inaceitável” o assassinato de Khamenei e alertou que a crise tende a se expandir para além das fronteiras iranianas. Integrantes do governo avaliam que, no campo comercial, o Brasil já obteve avanços relevantes após decisão da Suprema Corte dos EUA que afetou o tarifaço de Trump, reduzindo a pressão imediata por novos movimentos. Assim, não haveria razão para açodamento. A prioridade, segundo esses interlocutores, é impedir que a política externa se transforme em vulnerabilidade eleitoral. “A política externa não pode virar vidraça contra o governo ao longo da campanha”, disse um deles. Até o momento, Lula não se manifestou sobre a crise, como costuma fazer em discursos e nas redes sociais. Enquanto isso, a crise já se espalhou pela região. Retaliações e tensões atingem países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein, Iraque e Líbano, ampliando o risco de um conflito de alcance regional.