Os tribunais argentinos iniciaram nesta terça-feira as audiências para determinar se a implosão de um submarino da Marinha, que matou seus 44 tripulantes em 2017, foi uma tragédia previsível e evitável, como argumentado pela acusação e pelos autores da ação no início do julgamento oral em Río Gallegos, a 2.500 km ao sul de Buenos Aires. O caso foi uma tragédia "previsível", sustentou o Ministério Público na abertura do julgamento. Até hoje, não foi possível esclarecer de forma conclusiva como ocorreu a tragédia. 'Santo graal' do combate aéreo: F-35 dos EUA mobilizados no Irã têm IA avançada durante conflito; entenda Irã sob ataque: EUA têm maior poder de fogo no Oriente Médio desde a invasão no Iraque; veja infográficos O afundamento "não se deveu a um fato fortuito, mas foi um desfecho previsível pelo estado da embarcação, que tornou o naufrágio possível", afirmou o Ministério Público no julgamento contra quatro ex-oficiais da Marinha. Relatórios indicaram que o prazo recomendado de 26 meses para o reparo havia sido excedido e que a deterioração representava "um risco maior à integridade física da tripulação". — Vamos provar que essas mortes eram evitáveis; eles foram enviados para a morte — disse a advogada Valeria Carreras, representando 34 famílias, ao entrar na audiência. Os destroços do submarino foram localizados um ano após o desaparecimento, e permanecem a mais de 900 metros de profundidade, a cerca de 500 quilômetros da costa da província de Santa Cruz. O julgamento ocorre na capital, Río Gallegos. A embarcação havia partido sete dias antes de seu desaparecimento do porto de Ushuaia e retornava à base em Mar del Plata. Em 15 de novembro de 2017, comunicou uma falha elétrica e um princípio de incêndio. Foi o último contato. As operações de busca mobilizaram dezenas de países e mantiveram sob pressão a sociedade argentina e o governo do então presidente Mauricio Macri. Na entrada do tribunal, uma bandeira argentina, colocada anonimamente, exibe os rostos das 44 vítimas com a legenda "honra e glória aos nossos heróis em patrulha eterna", a única alusão ao caso em uma cidade desolada e indiferente ao julgamento que ali ocorre. 'Os ninguém' Nenhum dos familiares das vítimas, 43 homens e uma mulher, compareceu à abertura do julgamento, que foi transmitida pelo YouTube. — Eles não conseguem nem pagar as fotocópias, quanto mais uma passagem aérea e hospedagem. O mais importante é ter chegado ao julgamento — afirmou à AFP a advogada Valeria Carreras. Justiça argentina inicia julgamento sobre implosão de submarino que matou 44 marinheiros em 2017 Reprodução — São pessoas sem poder, dinheiro nem sobrenome influente; sentiram-se os ‘ninguém’ nestes oito anos, por isso há muita expectativa. A visibilidade é importante para que o esquecimento e o tempo não sejam cúmplices da impunidade — acrescentou. As penas previstas — de um a cinco anos de prisão — contrastam com a dimensão da tragédia. As acusações envolvem suspeitas de falhas administrativas, de manutenção e de segurança. — Foi uma tragédia evitável, mas é malvisto na Marinha dizer ‘tenho medo’, ‘há riscos’; existe uma cultura de silêncio — afirmou Carreras. Segundo ela, a instituição “foi a força de maior hermetismo durante a ditadura” (1976-1983). Os réus respondem por descumprimento e omissão de deveres e por desastre culposo agravado. Eles aguardam o julgamento em liberdade. São eles: o ex-chefe do Comando de Adestramento, Luis López Mazzeo; o ex-comandante da Força de Submarinos, Claudio Villamide; o ex-chefe do Estado-Maior do Comando de Submarinos, Héctor Alonso; e o ex-chefe de Operações, Hugo Correa. Em 2021, um Conselho de Guerra destituiu Villamide por negligência e aplicou prisão disciplinar de até 45 dias a outros oficiais por ocultação de informações. 'Invisibilizar' A Justiça rejeitou pedido do advogado Luis Tagliapietra — pai de Alejandro, morto no submarino aos 27 anos — para que o julgamento fosse realizado em Mar del Plata, onde viviam os tripulantes. Na cidade, familiares realizaram protestos em frente a prédios da Marinha durante as buscas e após a confirmação da localização dos destroços. Os parentes também denunciaram terem sido alvo de espionagem. Em investigação paralela, Mauricio Macri chegou a ser indiciado, mas o caso foi arquivado pela Suprema Corte argentina em 2025. — Levando o debate para Río Gallegos, tão distante de Buenos Aires, buscam invisibilizar a tragédia — afirmou Tagliapietra, que representa cerca de vinte familiares. Galerias Relacionadas A realização do julgamento em Río Gallegos foi determinada pela Câmara Federal de Cassação Penal. — Este é o primeiro processo; ainda não terminou a investigação sobre os demais responsáveis na linha de comando que chega até Macri — declarou o advogado, ao mencionar que ainda precisam ser analisadas “67 mil fotografias e horas de vídeo”. Carreras, por sua vez, afirmou confiar que mais de 90 testemunhas apresentem provas nesta fase. Na etapa de instrução, disse, “a muitos falhou a memória; agora isso pode mudar”. O julgamento As audiências ocorrerão em blocos de quatro dias consecutivos, com intervalo de uma semana entre cada etapa. A principal hipótese é que uma falha em válvula tenha permitido a entrada de água no compartimento de baterias, provocando um incêndio seguido de explosão. Para confirmar essa tese, seria necessária a reflutuação dos destroços — uma operação considerada milionária. “É muito difícil condenar alguém por um crime quando não se sabe realmente o que aconteceu. O julgamento pode terminar em absolvição”, afirmou Tagliapietra. “Houve muitas falhas antes do afundamento; os comandos em terra não tomaram decisões adequadas, mas ainda não sabemos por que afundou”, disse. “Há resignação entre os familiares. Eu continuo lutando; é a promessa que fiz ao meu filho.”