O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a escalada de tensão no Oriente Médio — após ataques entre Estados Unidos, Israel e Irã — ainda não altera, no curto prazo, o cenário esperado de cortes na taxa básica de juros. Segundo ele, o impacto sobre a economia brasileira ainda depende da evolução do conflito. Em entrevista ao programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, o ministro destacou que episódios dessa dimensão costumam afetar variáveis como câmbio e expectativas de inflação, mas ponderou que seria precipitado decretar uma mudança brusca na política monetária. — Tudo é uma questão de momento, nós estamos falando de hoje. A gente não sabe como é que esse conflito vai acontecer, como é que as coisas vão suceder, mas é muito cedo para falar de uma reversão do que está mais ou menos contratado, que é um ciclo de cortes — disse. Haddad voltou a comparar a taxa de juros a uma “dose de remédio”, dizendo que tanto excesso quanto falta prejudicam a economia. Ele reforçou que o Banco Central deve analisar a trajetória de preços, endividamento das famílias e crédito às empresas antes de decidir a intensidade dos cortes. — Acertar a dose é a arte da política monetária. Você conduz as expectativas, você não pode se colocar como espectador de arquibancada. Você é um player e você tem que saber fazer conduzir as expectativas e a política econômica na direção correta para aplicar a dose correta — afirmou. A próxima reunião do Copom está marcada para 17 e 18 de março, quando o mercado espera que o ciclo de afrouxamento finalmente comece. Brasil é menos vulnerável ao choque do petróleo Apesar da deterioração geopolítica — que inclui ataques a pontos estratégicos da região e relatos de restrições ao trânsito no Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo mundial — Haddad afirmou que o Brasil tem condições de resistir ao choque. Ele citou fatores estruturais, como as reservas cambiais, o pré-sal e o fato de o país ser exportador líquido de petróleo. — O Brasil é grande o suficiente para se preparar e é autônomo o suficiente. O Brasil não depende de petróleo. O Brasil é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, sobretudo graças ao pré-sal, fruto de investimentos na Petrobras no segundo governo Lula — afirmou. Conflito é “movimento estratégico” e envolve disputa com a China O ministro também avaliou que o avanço militar na região tem relação direta com a disputa entre Estados Unidos e China, que depende de mais de 10 milhões de barris de petróleo importado por dia. — Todas essas movimentações têm muito a ver com a China, mesmo na Venezuela quanto no Irã. A questão é o petróleo e a dependência da China da importação de 11 a 12 milhões de barris por dia de petróleo. Então são movimentos geopolíticos estratégicos que estão por trás disso, e um certo inconformismo com este advento, com essa novidade no cenário geopolítico internacional que é a força econômica e militar da China, que se tornou um desafio para o Ocidente.