Guerra no Irã marca novo estágio de desenvolvimento de armas de guerra, com sistemas de inteligência artificial

O conflito no Oriente Médio marca um novo estágio no desenvolvimento de armas de guerra. Agora, elas usam cada vez mais sistemas de inteligência artificial. O que os Estados Unidos estrearam, em larga escala, no sábado (28), foi seu mais avançado modelo de guerra comandado por inteligência artificial: a força-tarefa Scorpion Strike, que enviou um enxame de centenas de novos drones produzidos pelos americanos - os drones Lucas. São obra de engenharia reversa a partir de um drone de baixo custo produzido pelos próprios iranianos. No sábado (28), os drones Lucas invadiram o céu do Irã como iscas, para que os radares antimísseis iranianos revelassem suas posições e pudessem ser atacados tanto pelos próprios drones, que carregam 18 kg de explosivos cada, quanto por Tomahawks e caças de última geração. É uma nova estratégia de guerra: sobrecarregar o campo de batalha com drones kamikazes. A ideia não é americana, é chinesa. Vem sendo desenvolvida há pelo menos uma década. Em um ataque tão massivo, é praticamente impossível de serem controlados e orquestrados sem o uso da inteligência artificial. O Departamento de Defesa americano primeiro tentou desenvolver sua própria inteligência artificial militar, assinando contratos de longo prazo com empresas conhecidas, como a Lockheed Martin. Mas, depois, percebeu que, para competir com a China, teria que agir menos como um órgão do governo e mais como uma empresa de tecnologia, e passou a assinar contratos com grandes big techs e também com pequenas startups. Entre elas, a Anthropic, fundada pelos irmãos Dario e Daniela Amodei. Eles trabalhavam na OpenAI, do ChatGPT, mas se revoltaram com a velocidade e a falta de preocupação ética no desenvolvimento da tecnologia. Resolveram criar o que chamaram de “inteligência artificial responsável”, com a missão oficial de usar IA para o benefício da humanidade a longo prazo. Mesmo assim, assinaram contrato de US$ 200 milhões no verão passado com o Departamento de Guerra de Donald Trump. E o sistema de inteligência artificial da empresa - chamado Claude - foi usado na ofensiva de sábado (28). De acordo com o professor de geopolítica Craig Jones, da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, a inteligência artificial é usada de três formas principais: análise de material de inteligência - documentos secretos, imagens de satélite, comunicações interceptadas; identificação de alvos a partir dessa análise; simulação do campo de batalha - projetar, como em um videogame, as possibilidades de ataque. A cláusula de contrato da Anthropic pedia que sua tecnologia não fosse usada em armas que podem mirar e atacar um alvo de forma autônoma, sem controle dos humanos. Guerra no Irã marca novo estágio de desenvolvimento de armas de guerra, com sistemas de inteligência artificial Jornal Nacional/ Reprodução Na sexta-feira (27), um dia antes do ataque, o secretário de Guerra americano, Pete Hegseth, publicou um longo texto acusando o fundador da Anthropic de colocar a ideologia do Vale do Silício acima das vidas americanas. Ele afirmou: “O Departamento de Guerra deve ter acesso pleno e irrestrito aos modelos da Anthropic para todo e qualquer propósito legal na defesa da República”. Hegseth colocou a Anthropic como risco à cadeia de suprimentos para a segurança nacional - uma classificação que tradicionalmente só é aplicada a empresas estrangeiras, como rivais de tecnologia da China. Uma hora e meia antes, o presidente Donald Trump tinha ordenado que a Anthropic fosse banida do sistema de defesa americano. De acordo com o professor Jones, o Departamento de Guerra usou a tecnologia apesar da queda de braço entre o governo e a empresa. Ele diz que esses sistemas de inteligência artificial fazem parte da infraestrutura de guerra: são grandes redes interconectadas a um sistema. Ele firma que não dá para desligar o sistema sem reações em cadeia. Por isso que, no sábado (28), o enxame de drones Lucas entrou em formação no céu do Irã. Com ajuda dos satélites Starlink, empresa do bilionário Elon Musk, eram capazes de trocar entre si suas posições. Se um deles fosse abatido, poderiam se reorganizar sem prejudicar a operação. Foram responsáveis por começar a abrir um corredor seguro no céu para os caças que invadiram Teerã e mataram o aiatolá Ali Khamenei. Nessa nova corrida armamentista, em 2026, Pequim mostrou ser capaz de comandar um enxame de 200 drones usando apenas um soldado. O plano dos Estados Unidos é ser capaz de fazer frente a essa tecnologia, principalmente por causa de Taiwan. Washington precisa mostrar que uma invasão chinesa à ilha poderia ser contida, abatendo navios caríssimos com uma multidão de drones de US$ 35 mil cada um. O plano da China é ter, até o final de 2026, um milhão de drones que custam US$ 10 mil cada - menos de um terço do preço dos rivais americanos. Além disso, investiu pesado em sistemas eletrônicos que embaralham, fritam a comunicação dos drones adversários no ar. Enquanto a China mira na capacidade de produzir e escalar, os Estados Unidos querem ter um software de mais precisão. A briga com a Anthropic pode ser uma pedra no caminho do desenvolvimento rápido de armas de guerra. Mas, para o professor Jones, com tanto dinheiro envolvido, outras empresas estarão dispostas a continuar a tradição americana de desenvolver-se tecnologicamente através da guerra. LEIA TAMBÉM O que está por trás do confronto entre Israel, Irã e Estados Unidos e o que podemos esperar? O que revelam as imagens da sala de guerra de onde Trump supervisionou ataque ao Irã Como era o prédio e como funciona a reunião que escolhe o novo líder supremo do Irã, atacados por Israel Escalada nuclear pode ser fatal para a humanidade: 'Vida na Terra seria inviabilizada', diz especialista