Após 27 anos de negociações, o Congresso brasileiro entra na etapa final de aprovação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), considerado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva um marco na política comercial do país. O Senado deve concluir, nesta quarta-feira, a votação do texto, que será analisado pela manhã na Comissão de Relações Exteriores e, no mesmo dia, encaminhado ao plenário da Casa. Se aprovado, seguirá para sanção presidencial. Mega-Sena: aposta do Ceará acerta seis dezenas e leva prêmio de R$ 158 milhões Tensão: Trump afirma que os EUA vão escoltar e oferecer seguro a petroleiros para garantir passagem pelo Estreito de Ormuz A expectativa do governo é concluir a ratificação no Congresso e notificar formalmente os europeus ainda em março. Como o acordo prevê que a entrada em vigor ocorra dois meses após as notificações formais, o cenário trabalhado é o de que os efeitos comecem a valer em maio para Brasil, Argentina e Uruguai, caso os procedimentos sejam sincronizados. O acordo é descrito por integrantes do governo como “o mais importante da história do Brasil” e também “o mais relevante do Sul global” no campo comercial. A avaliação é que a internalização do texto avançou em ritmo incomum: foram 16 dias entre a assinatura, em janeiro, no Paraguai, e o envio ao Congresso Nacional, em um processo que envolveu diferentes ministérios, pareceres técnicos e jurídicos e a chancela da Casa Civil. BRB: Câmara do DF aprova projeto de lei de socorro ao banco após prejuízos com Master No âmbito regional, a Argentina já formalizou à União Europeia a conclusão de seus procedimentos internos. O Uruguai deve fazer o mesmo nos próximos dias. O Paraguai retomou o ano legislativo nesta semana e, segundo as sinalizações políticas, também deve avançar rapidamente. Do lado europeu, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, indicou disposição de acionar o mecanismo de vigência provisória do acordo — possibilidade prevista no texto e autorizada pelo Conselho Europeu. A medida permitiria que a parte comercial entre em vigor antes da manifestação final do Parlamento Europeu, que ainda deverá avaliar o mérito do tratado após posicionamento do Tribunal de Justiça da União Europeia sobre sua compatibilidade com as regras comunitárias. Impacto de R$ 200 milhões: Câmara aprova reajuste salarial para servidores do Ministério Público Não há, segundo interlocutores, prazo previamente definido para a vigência provisória. Trata-se de um mecanismo pouco utilizado em acordos comerciais europeus e que, neste caso, é visto como sinal político de prioridade estratégica por parte de Bruxelas. Pelo cronograma negociado, 55,3% das importações brasileiras provenientes da União Europeia terão o Imposto de Importação reduzido a zero apenas em dez anos ou mais após a entrada em vigor. A chamada desgravação imediata — de zero a quatro anos — alcança 14,5% das importações brasileiras da UE. Desse percentual, 96% já possuem tarifa base zero, como petróleo, componentes aeronáuticos e fertilizantes. Além disso, cerca de 10% das importações brasileiras foram excluídas do acordo, permanecendo fora do cronograma de liberalização. Escala 6x1: setor produtivo procura Alcolumbre e quer mais tempo para debater mudanças O debate sobre salvaguardas ganhou força após manifestações de segmentos específicos, como leite e vinho, que expressaram preocupação com a abertura comercial. Apesar das ressalvas de parte do agronegócio, o setor industrial apoia o acordo. Conforme anunciado pelo vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, o governo deve publicar nos próximos dias um decreto para disciplinar a investigação e a aplicação de salvaguardas previstas em acordos comerciais. A medida terá caráter horizontal e valerá para toda a rede de tratados firmados pelo Mercosul, não apenas para o acordo com a União Europeia. A iniciativa ocorre após demanda de setores e do Congresso por regras claras sobre como acionar mecanismos de proteção diante de eventuais surtos de importação. O acordo preserva o direito de cada parte de regular. Caso nova legislação — inclusive ambiental — esvazie concessões negociadas, a parte afetada poderá recorrer a um mecanismo de reequilíbrio. Uma arbitragem independente avaliará se houve comprometimento de acesso ao mercado; confirmado o prejuízo, o país poderá exigir compensações ou restringir concessões na mesma proporção. O tratado também mantém instrumentos clássicos de defesa comercial, como antidumping, medidas compensatórias e salvaguardas, utilizadas em casos de surto de importações. Com a ampliação da rede de acordos considerados relevantes, o governo decidiu estabelecer disciplina específica, com definição de procedimentos, prazos, critérios de análise e autoridade decisória. Simulações realizadas pelo governo indicam impacto positivo de 0,34% sobre o PIB brasileiro (R$ 37 bilhões) até 2044, aumento de 0,76% nos investimentos (R$ 13,6 bilhões), redução de 0,56% nos preços ao consumidor e alta de 0,42% nos salários reais. As exportações totais cresceriam 2,65% (R$ 52,1 bilhões) e as importações, 2,46% (R$ 42,1 bilhões). A União Europeia, formada por 27 países, tem população de 450 milhões de habitantes e PIB de US$ 19,4 trilhões (2024). O bloco é o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, a corrente de comércio bilateral alcançou US$ 100 bilhões, o equivalente a 16% do comércio exterior brasileiro. O Brasil exportou US$ 49,8 bilhões ao bloco, com destaque para combustíveis minerais (22%), café e especiarias (14,7%) e minérios (8,8%). As importações somaram US$ 50,3 bilhões, concentradas principalmente em máquinas e equipamentos (25,4%) e produtos farmacêuticos (15,1%).