Quem chega a Morro de São Paulo pela primeira vez pode até estranhar: cardápios em hebraico, festas de música eletrônica com sotaque estrangeiro e grupos de jovens israelenses espalhados entre as praias. Em um dos destinos mais famosos do litoral baiano, a presença deles deixou de ser exceção há anos. Um vídeo que viralizou nas redes sociais nos últimos dias, porém, trouxe uma nova pergunta para quem acompanha a rotina da ilha: por que há tantos israelenses ali, e por que alguns estavam indo embora de repente? Vídeo: Empresário grava momento em que israelenses deixam Morro de São Paulo às pressas em meio à convocação para a guerra Em Dubai, repórter do GLOBO fala sobre o clima de tensão nos Emirados Árabes Unidos durante ataques iranianos As imagens mostram turistas com malas e mochilas deixando o local e já ultrapassaram 1,4 milhão de visualizações. A gravação foi feita por Alaim Miller, dono da empresa de passeios de barco Morro SP Tur, enquanto ele aguardava clientes no deck. Confira: Initial plugin text — A gente fica ali na ponte esperando para sair com os passeios. Já é comum encontrar eles em todo lugar: restaurantes, ruas, festas. O dia deles é diferente, dormem durante o dia e passam a madrugada curtindo — contou ao GLOBO. Segundo o empresário, a cena chamou atenção porque destoava da rotina. — Por volta de meio-dia comecei a ver uma movimentação grande, muita gente com mala. Parei para conversar para entender o que estava acontecendo. Com ajuda do Google Tradutor, ele conseguiu falar com alguns dos jovens. — Pelo que entendi, muitos estavam dizendo que precisavam voltar para Israel por causa da guerra. Não sei se já tinham passagem ou se viria algum voo especial, mas estavam falando em retorno. Até o momento, não há confirmação oficial de que eles tenham sido convocados formalmente. Ainda assim, o vídeo despertou curiosidade nas redes e trouxe novamente à tona a relação incomum entre a pequena ilha baiana e jovens vindos do outro lado do mundo. Nos comentários da publicação, alguns internautas relataram experiências semelhantes. “Eu morei em Morro há alguns anos e fiz amizade com israelenses. Eles diziam que ninguém quer participar da guerra, mas cresceram sabendo que isso faz parte da vida”, escreveu um usuário. Outro destacou o impacto econômico do turismo. “São jovens que vêm para curtir, movimentam o comércio e a economia da ilha.” Também houve mensagens de apoio. “Encontraram nesse lugar um sonho de paz, mesmo que por um tempo.” A série que mudou o turismo da ilha A ligação entre israelenses e Morro de São Paulo começou a se fortalecer em 2012, quando a ilha serviu de cenário para a série israelense Malabi Express. A produção acompanhava amigos que viajavam ao Brasil após cumprir o serviço militar obrigatório e decidiam começar uma nova vida no local. O sucesso da série acabou transformando o destino em uma espécie de referência entre jovens israelenses que fazem mochilão após deixar o Exército. — Depois dessa produção, muita gente começou a querer conhecer Morro. Hoje existem até agências em Israel que vendem pacotes para vir para cá — disse Alaim. Com o aumento da procura, o comércio local passou a se adaptar. Restaurantes criaram cardápios em hebraico e ajustaram pratos às tradições alimentares judaicas. A ilha também ganhou uma sinagoga e eventos voltados para esse público. O impacto aparece nos números. Em março de 2024, durante o período pós-Carnaval, 54% dos turistas estrangeiros que visitaram Morro de São Paulo eram israelenses, segundo dados da prefeitura de Cairu. Festas, mochilão e memórias de guerra O perfil de quem chega costuma ser parecido com o retratado na série: jovens que terminaram o serviço militar obrigatório ou ainda fazem parte da reserva e aproveitam para viajar antes de iniciar a vida profissional. Na ilha, encontram festas de música eletrônica, praias e uma comunidade que já se acostumou com a presença deles. — Eles gostam muito das festas de trance e techno. Vêm para descansar e curtir um pouco a vida — contou o empresário. Mas o conflito que marca a realidade do país de origem também aparece de outras formas. Em alguns pontos da ilha, visitantes colam adesivos com fotos de amigos que morreram em combates. — Às vezes eles planejam vir juntos, mas algum amigo morre antes. Aí fazem essas homenagens aqui. É uma forma de lembrar. O vídeo e o momento do conflito A repercussão do vídeo ocorre em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio. O governo de Israel anunciou a convocação de cerca de 100 mil reservistas, que devem se juntar aos aproximadamente 50 mil militares já mobilizados desde o início da guerra na Faixa de Gaza. Segundo as autoridades, os reforços poderão ser enviados para diferentes frentes, incluindo Gaza, a Cisjordânia e as fronteiras com Síria e Líbano. Mesmo sem confirmação oficial sobre o motivo da saída dos turistas, a cena registrada por Alaim acabou simbolizando um contraste marcante. — Morro para eles é quase um refúgio, um lugar para esquecer um pouco da realidade — disse. — Por isso chamou atenção ver tanta gente indo embora ao mesmo tempo.