O episódio da demissão de Filipe Luís é mais uma derrota para o Flamengo

Mesmo no ambiente de irracionalidade do futebol brasileiro, é difícil se convencer de que o primeiro mês e meio de temporada do Flamengo foi suficiente para se sobrepor a 15 meses de um trabalho em alto nível, seja na qualidade do jogo ou nos resultados. A viagem neste 2026 ainda era curta demais para Bap se convencer de que embarcara no trem errado. Ao menos, numa avaliação que respeitasse processos e as etapas por que passa qualquer time. Então, torna-se impossível não colocar na análise as relações humanas: um dirigente personalista, atingido em seu amor próprio — que por sinal não é pequeno —, em seu orgulho. Ainda corria o vitorioso 2025, e o presidente já não distribuía a seus interlocutores palavras tão carinhosas em relação a Filipe Luís. Escolhido por Rodolfo Landim, antecessor e rival político de Bap, o treinador mais adiante viveu uma renovação de contrato difícil, em que cada parte trabalhou por seus interesses. É natural que fiquem feridas abertas, que uma das partes discorde de posturas adotadas do outro lado da mesa. Mas o dirigente se sentiu afrontado, e o cristal se quebrou. Nada impede que o fortíssimo elenco do Flamengo ainda conquiste títulos no ano, mas o episódio já é uma derrota. Primeiro, por uma questão básica de respeito. Fosse Filipe Luís um forasteiro, que rapidamente se revelasse um incapaz para a função, e ainda assim os 30 segundos de conversa já seriam inadequados. Mas o que o Flamengo fez foi submeter um de seus ídolos recentes, alguém com sete anos de uma grande trajetória no clube, ao constrangimento de ouvir xingamentos da arquibancada, conceder uma delicada entrevista coletiva e, em seguida, ser dispensado por um diretor esportivo transformado em intermediário. Um desgaste evitável, já que o curso dos acontecimentos mostra que Leonardo Jardim não é uma conversa surgida na madrugada pós Flamengo 8 x 0 Madureira. A demissão vinha sendo cozida em fogo brando. E depois, por mergulhar a equipe numa instabilidade e incerteza das quais o clube parecia, enfim, se afastar. A transição para Jardim não apresenta armadilhas apenas nas diferenças de concepção de jogo entre o português e Filipe Luís. As semelhanças também são um desafio. No Cruzeiro, Jardim abriu mão de alguns dos nomes de mais status no time, casos de Gabigol e Dudu, para não se divorciar do compromisso inegociável com pressão e intensidade. Filipe Luís vinha tentando adaptar seus jogadores mais decisivos e equilibrar o time com eles, ou ao menos com alguns deles. Ainda que o preço fosse o risco de perder a capacidade de pressionar com Arrascaeta, Pedro ou Carrascal. Como Jardim irá adaptar o elenco às suas visões de futebol é o primeiro enigma. Outro é sua permanente disposição para ataques rápidos após a retomada de bola. Não que Filipe Luís dispensasse transições rápidas quando elas se apresentavam, mas era mais adepto do controle, de uma equipe que por vezes pausasse o jogo para se organizar e, assim, atacasse já preparado para uma eventual perda da bola. No Cruzeiro, Jardim tinha em Kaio Jorge um atacante sob medida para os ataques em profundidade, algo que o Flamengo não tem entre seus camisas 9. Por último, restará saber que elenco ele encontrará, após a perda de um técnico que foi, também, companheiro de time para muitos jogadores. O futebol não oferece atalhos, mas parece claro que era mais fácil o Flamengo retomar seu melhor nível com alguém que já levou este elenco ao topo do que com um recomeço em pleno mês de março. O certo, por ora, é que Bap, antes um presidente discreto quando o assunto era o futebol rubro-negro, acaba de se colocar como personagem central da temporada. Pode colher frutos ou carregar o ônus de uma guinada tão radical.