De pressão alta a disfunção: como predadores do Brasil podem salvar vidas

O segredo da cura: como a biodiversidade brasileira revoluciona a saúde global iNaturalist O que para uma presa é o fim, para a ciência é o recomeço. No coração das matas e cerrados brasileiros, animais que historicamente despertam medo e cautela — como a jararaca, a cascavel e a aranha-armadeira — estão se revelando como verdadeiros "farmacêuticos da natureza". A bioprospecção, ciência que estuda componentes da fauna e flora para fins comerciais e medicinais, encontrou no Brasil um laboratório a céu aberto. Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp O caso mais emblemático, que colocou o Brasil no mapa da fisiologia mundial, é o do Captopril. Desenvolvido a partir do veneno da Jararaca (Bothrops jararaca), o remédio revolucionou o tratamento da pressão alta. Mas a ciência não parou por aí. Hoje, novas fronteiras estão sendo desbravadas em Minas Gerais e no interior de São Paulo. Veja mais notícias do Terra da Gente: ASSISTA: Vídeo mostra bem-te-vi 'pescando' filhotes de pirarucu no Tocantins DE BANCÁRIA A FOTÓGRAFA: Aposentada roda o país atrás de aves raras e ganha exposição EXCLUSIVIDADE: 'Parente' de uma das plantas mais caras do mundo é descoberta no ES e já corre risco A "arma" da aranha brasileira contra a disfunção Aranha-armadeira (Phoneutria nigriventer) biologogiba / iNaturalist Uma das pesquisas mais promissoras do país nasce nos laboratórios da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O alvo é a Aranha-armadeira (Phoneutria nigriventer), conhecida por sua agressividade e veneno potente. A pesquisa identificou que uma das toxinas da aranha causava priapismo (ereções prolongadas e dolorosas). A partir daí, cientistas desenvolveram o peptídeo sintético BZ371A. "A pesquisa é um exemplo de como a biodiversidade brasileira pode ser fonte de moléculas com potencial terapêutico. O composto demonstrou ser eficaz em baixas concentrações e com baixa toxicidade", destaca o estudo publicado na revista científica Journal of Sexual Medicine. Status atual: o fármaco já superou a Fase 1 (segurança) e a Fase 2 (eficácia em humanos) de testes clínicos, com foco em pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais ou que tiveram câncer de próstata. Referência Oficial: Pesquisa FAPESP. O selante mágico da cascavel Cascavel-Sul-Americana (Crotalus durissus) iberemachado / iNaturalist Na UNESP de Botucatu, no Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (CEVAP), a Cascavel (Crotalus durissus terrificus) "emprestou" seu veneno para a criação de um "adesivo biológico" ou selante de fibrina. Diferente dos selantes tradicionais que utilizam sangue humano (com risco de contaminação), este utiliza uma enzima do veneno da serpente combinada com fibrinogênio de grandes animais (como búfalos). O que está em alta no g1? Confira: Veja os vídeos que estão em alta no g1 "O selante de fibrina derivado de veneno de serpente é um bioproduto promissor, com propriedades hemostáticas, selantes e adesivas, além de atuar como um excelente andaime para o crescimento celular", afirma a nota técnica do CEVAP. Aplicação: cirurgias de nervos, enxertos de pele e tratamento de úlceras crônicas em idosos e diabéticos. Referência Oficial: CEVAP UNESP. O legado da Jararaca Jararaca-da-Mata (Bothrops jararaca) ajdeberdt / iNaturalist Não se pode falar de medicina e fauna brasileira sem citar o Dr. Sérgio Henrique Ferreira. Nos anos 60, ele isolou o Fator Potencializador da Bradicinina (BPF) no veneno da jararaca. Esse achado permitiu que a indústria criasse os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA). Impacto: O Captopril não apenas salva vidas diariamente, mas provou que o veneno de serpentes brasileiras possui moléculas que "enganam" o sistema circulatório humano de forma precisa. A linguagem da natureza é química. Quando um animal é extinto ou um bioma é degradado, "páginas de livros de medicina" são queimadas antes mesmo de serem lidas. Segundo o Instituto Butantan, apenas uma fração mínima das toxinas conhecidas foi estudada para fins farmacêuticos. A conservação da biodiversidade, portanto, não é apenas uma questão ética ou ambiental, mas de soberania científica e sobrevivência humana. "O veneno é um coquetel complexo de proteínas. Algumas matam, outras, na dose e no isolamento correto, são a chave para doenças que ainda não têm cura", afirma nota do Butantan em divulgação aberta. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente