Um novo estudo indica que a maioria das pesquisas feitas para prever o impacto do aumento do nível do mar em locais costeiros específicos está subestimando o perigo desse fenômeno, causado pela mudança climática. Em um artigo nesta quarta-feira (4) na revista Nature, uma dupla de cientistas da Universidade de Wageningen (Holanda), avaliou 385 pesquisas feitas sobre diversas locações do mundo, e apontam que 90% delas possuem um problema técnico que distorce suas previsões. Crise do clima: Antártida perde área de gelo equivalente a oito cidades de São Paulo em 30 anos, aponta estudo Segundo os pesquisadores, o erro não está na estimativa de quanto os oceanos vão se elevar no futuro, mas em adotar valores corretos da linha d'água no presente. Essas distorções acontecem porque a maioria dos estudos que buscam prever quanta área costeira a subida do nível do mar vai cobrir não usam medições reais sobre os oceanos. Os estudos onde se verificou problema se baseiam em modelos de "geoide": aproximações matemáticas do nível do mar que incluem variáveis como a gravidade e a rotação da Terra. Oceanos: Cientistas criam IA para prever risco de extinção de mais de 10 mil espécies de peixes Essas simulações, porém, não consideram fatores circunstanciais importantes, como ventos, correntes oceânicas e temperatura da água, que alteram a linha d'água em escala regional e local. Ao avaliar os estudos, quando compararam os trabalhos com medições de satélite atualizadas sobre o nível do mar em diversos pontos, surgiu a revelação de que a maioria deles tinha essa distorção. "Nossos resultados realçam a necessidade de reavaliação de estimativas existentes de impacto costeiro e de aprimoramento de padrões da comunidade de pesquisa, com potenciais implicações para formuladores de política, financiamento climático e adaptação costeira", afirmam no artigo da Nature os pesquisadores Katharina Seeger e Philip Minderhoud. Uma outra maneira de entender a raiz do problema dizem os pesquisadores, é que os tipos de satélite que medem a altitude da superfície do mar e de locais em terra firme são diferentes. O modo com que as simulações de computador integram os dados nos geoides é que dá origem ao problema apontado. 'Ponto cego' Uma das preocupações apontadas no trabalho da Nature é que o problema das pesquisas se distribui de forma desigual no mundo. Em média, as pesquisas sobre elevação do nível do mar feitas no hemisfério sul estão mais distorcidas, porque há menos dados concretos de medição local da gravidade para alimentar modelos de geoides ali. Seeger e Minderhoud não apontam trabalhos específicos que tenham distorcido pesquisas brasileiras, por exemplo, mas afirmam que 13 dos estudos avaliados tratam da América do Sul, e que na linha costeira do continente o problema é maior do que no resto do planeta, em média. As maiores distorções, porém, foram encontradas na Ásia, onde alguns estudos subestimavam elevação presente do nível do mar em mais de um metro. Apesar de apontar necessidades de correção em muitos trabalhos, Minderhoud evitou adotar na entrevista coletiva sobre o trabalho um tom de "caça as bruxas" para condenar os estudos que apresentam distorções. — O que nosso estudo revela é, de certa forma, um ponto cego metodológico situado entre duas disciplinas científicas tradicionalmente desconectadas. De um lado, temos a oceanografi— O que nosso estudo revela é, de certa forma, um ponto cego metodológico situado entre duas disciplinas científicas tradicionalmente desconectadas. De um lado, temos a oceanografia, que lida com o nível do mar, e, do outro, áreas como geomorfologia e riscos costeiros, que tratam da elevação costeira e dos impactos desses riscos — explicou o cientista — Nossa pesquisa demonstra que o conhecimento e as práticas comuns em uma disciplina, na verdade, foram disseminados de modo muito esparso na outra.