'Parece que as pessoas me olham e veem lixo': O estupro coletivo que abalou o Rio

Uma jovem de 17 anos levada por um colega de escola a um apartamento na Rua Viveiros de Castro, em Copacabana, contou que foi estuprada por cinco rapazes (quatro maiores de idade e um menor) em um quarto no imóvel. Enquanto era forçada a se submeter a vontades sexuais dos abusadores, a vítima foi agredida diversas vezes e ficou com marcas e ferimentos, identificados durante o exame de corpo de delito. O caso, ocorrido no dia 31 de janeiro, vem gerando consternação na população de uma cidade que, de tempos em tempos, é abalada por um estupro coletivo. Não aprendemos? 60 minutos de violência: Relatório detalha estupro coletivo em Copacabana 'É uma vivência de morte': Psiquiatra fala sobre o trauma de vítima de estupro A vítima do crime de gênero em Copacabana era uma criança quando, em maio de 2016, há quase dez anos, do outro lado da cidade, uma adolescente foi violentada por vários homens no Morro da Barão, na Praça Seca, Zona Oeste do Rio. Ela estava num baile funk quando encontrou um rapaz com quem estava ficando e foi para a casa dele. Segundo seu depoimento à polícia, a menina só se lembrava de ter acordado no dia seguinte, nua, deitada sobre uma cama em outro imóvel, cercada por "mais de 30" homens, muitos deles armados com pistolas e fuzis. Seriam traficantes da área. "Quero que eles paguem": O que diz a mãe da menina vítima de estupro A sobrevivente contou que havia sido dopada. Sobre as horas de terror, ela disse que, enquanto estava sob o controle do bando, chegou a ser contida por dois agressores para que outros a estuprassem. Para piorar o trauma, alguns dos criminosos envolvidos espalharam pelas redes sociais fotos e vídeos deles com a vítima na cama, sem roupas e inconsciente. "Estava totalmente indefesa. Eu pensava em sair dali. Achava que ia morrer. Achei que eles iam me enforcar. Até arma eles usaram. Quero a justiça de Deus para essas pessoas", contou a vítima em entrevista publicada pelo GLOBO na época. Protesto contra cultura do estupro no Centro do Rio em 2016 Domingos Peixoto O caso dominou o noticiário. Na época, pouco se falava sobre estupro coletivo. Para se ter uma ideia, antes do episódio, a maioria das reportagens do GLOBO que faziam referência a essa expressão relatavam crimes em outros países, como a Índia. A maioria dos casos de violência sexual sequer era registrada na delegacia. A sobrevivente do crime na Favela do Barão rompeu uma espécie de silêncio e recebeu uma onda de apoio, principalmente de grupos feministas, mas também foi impactada por comentários terríveis nas redes sociais, muitos deles culpando a própria vítima pelo crime. "Suposto estupro": Advogado de suspeito diz que acusação é precipitada Crime sexual no Brasil: País tem uma vítima de estupro a cada seis minutos ""Me sinto um lixo. Parece que as pessoas me olham e veem um lixo na frente, mesmo com todo o apoio que estou recebendo. O estigma é o que está me doendo mais. É como se dissessem 'a culpa é dela. Foi ela que estava usando roupa curta. Foi ela que quis ir para lá’. Eu vi isso no Facebook. Eu queria que as pessoas soubessem que não é culpa da mulher. Não tem como alguém culpar uma vítima de roubo, por exemplo", afirmou a jovem, séria. "Enquanto estou aqui falando, deve ter uma mulher sendo estuprada ou morta em algum lugar". José Dumont: Ator de 75 anos condenado por estupro é preso na Zona Sul do Rio Centenas de mulheres se reuniram no Centro do Rio durante um ato contra a violência de gênero, e o mesmo ocorreu em cidades como Porto Alegre, Brasília e São Paulo. No dia 27 de maio daquele ano, O GLOBO dedicou quatro páginas de uma mesma edição ao caso na Praça Seca. O crime também teve amplo destaque nos telejornais. Reagindo ao episódio, o então presidente da República, Michel Temer, que tinha como ministro da Justiça o hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre Moraes, anunciou a criação de um departamento para combater a violência contra a mulher. Delegada Cristina Bento, que assumiu caso após afastamento de colega Marcelo Theobald No curso das investigações, o delegado Alessandro Thiers, da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), foi afastado do caso depois de a sobrevivente afirmar que sofreu constrangimento na unidade policial. Em entrevistas, a jovem contou que se sentiu desrespeitada quando Thiers perguntou se ela “gostava de fazer sexo com vários homens”. Ela relatou ainda que se sentiu mal ao detalhar o estupro na presença de outros três homens numa sala envidraçada, de onde se via quem passava do lado de fora, inclusive, um dos acusados do crime. A adolescente disse a autoridades que a noiva de Thiers estava na sala no dia do seu depoimento na sede da DRCI. Segundo a jovem, a mulher acariciava o delegado durante o registro da ocorrência. Quando assumiu o caso, a delegada Cristiana Bento, da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (Dcav), provocou uma reviravolta e pediu a prisão de seis suspeitos. A investigação concluiu que a sobrevivente teria sido estuprada em dois momentos por um grupo de 10 a 15 homens. Porém, somente dois envolvidos foram condenados a penas de 15 anos de prisão. Em maio de 2018, o bandido Sérgio Luiz da Silva Júnior, conhecido como Da Russa, chefe do tráfico na Praça Seca e um dos suspeitos do estupro coletivo, foi morto numa troca de tiros com policiais. Sentindo-se ameaçada, a sobrevivente do estupro chegou a entrar para o Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte, do governo federal, e deixou o Estado do Rio. Ela chegou a mudar de identidade, mas em agosto de 2016, pediu o seu desligamento do programa.