Ucrânia vai oferecer plano contra drones do Irã às monarquias do Golfo Pérsico: 'temos o conhecimento necessário'

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, determinou que seu Gabinete desenhe um plano de defesa contra drones iranianos destinado aos países do Golfo Pérsico, alvos de retaliações do Irã desde o início da ofensiva militar de Israel e EUA no sábado passado, citando a experiência de suas Forças Armadas. Grande parte dos drones lançados pela Rússia contra cidades ucranianas são fabricados ou projetados no Irã, e Zelensky enxerga uma chance de ampliar seus laços com as monarquias árabes e obter vantagens para suas tropas. “A Ucrânia pode ajudar a proteger vidas e estabilizar a situação”, afirmou Zelensky, em publicação no Telegram nesta quarta-feira, após conversas com representantes dos Emirados Árabes Unidos, Catar, Jordânia e Bahrein. “Nossas forças armadas possuem as capacidades necessárias. Especialistas ucranianos trabalharão no local, e as equipes já estão em acordo sobre isso.” Quatro anos de guerra: Frio extremo compromete uso de drones e impõe novo desafio à defesa da Ucrânia Efeito colateral: Ataques retaliatórios do Irã levam países europeus e asiáticos a mobilizar defesas para aliados no Oriente Médio De acordo com o ucraniano, o Ministro das Relações Exteriores, os serviços de inteligência, o Ministério da Defesa, o comando militar e o Secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional irão “apresentar opções de apoio aos países relevantes e a fornecer assistência de forma que não enfraqueça nossa própria defesa aqui na Ucrânia”. “Todos eles enfrentam um sério desafio e falam abertamente sobre isso: os drones de ataque iranianos são os mesmos Shahed que vêm atacando nossas cidades e vilarejos, nossa infraestrutura ucraniana durante os anos desta guerra”, escreveu o presidente, se referindo à mais conhecida família de drones iranianos, os Shahed, “Testemunha” em persa. Os Shahed se tornaram uma arma preferencial das tropas russas na guerra imposta pelo presidente Vladimir Putin. De fácil operação, baixo custo e com alto potencial destrutivo, eles passaram a ser replicados em instalações industriais russas, e especialistas dizem que Moscou hoje pode construir centenas de aeronaves todos os dias. Segundo Zelensky, foram lançados 57 mil deles contra seu país nos últimos quatro anos Drone iraniano Shahed-136 da Rússia interceptado pelo exército ucraniano Reprodução: Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia Como estratégia de sobrevivência, os ucranianos desenvolveram novas tecnologias de defesa, que incluem o uso de drones de interceptação— nesta terça-feira, o comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrsky, afirmou que esse sistema é responsável por derrubar 70% de todos os Shahed lançados contra Kiev. Hoje, a Ucrânia é um centro global de inovação e desenvolvimento de drones, um mercado que o país já explora e que pretende ampliar depois do fim do conflito. Revolução dos drones: Indústria militar ucraniana se reinventa com a guerra e já põe o futuro na mira Desde o anúncio da guerra contra Teerã, Zelensky anunciou seu apoio aos EUA e Israel, afirmando que “embora os ucranianos nunca tenham ameaçado o Irã, o regime optou por se tornar cúmplice de Putin e lhe forneceu drones ‘Shahed’” e a tecnologia para fabricá-los. “Outras nações também sofreram com o terrorismo apoiado pelo Irã. Portanto, é justo dar ao povo iraniano a oportunidade de se livrar de um regime terrorista e garantir a segurança de todas as nações que sofreram com o terrorismo originário do Irã”, escreveu no sabado, na rede social X. Entenda: Por que o sistema de mísseis Patriot é tão essencial à Ucrânia? Além de prestar apoio e potencialmente abrir mercados para seus drones, Zelensky enxerga na guerra no Oriente Médio uma oportunidade para incrementar suas posições militares na Ucrânia. — A questão principal é como proteger o espaço aéreo deles (países do Golfo). Nós mesmos convivemos com essa questão. Então vamos falar sobre as armas que nos faltam: mísseis do sistema PAC-3, se eles nos fornecerem, nós forneceremos interceptores — disse o presidente ucraniano a jornalistas em Kiev, na terça. — Essa é uma troca justa. Certamente faremos isso. E se as equipes começarem a trabalhar agora, veremos qual será o resultado. Sistema de defesa aérea Patriot durante um treinamento nos arredores de Constanta, na Romênia Daniel MIHAILESCU / AFP) Zelensky se referia aos mísseis do sistema antiaéreo Patriot, considerado por Kiev essencial para proteger instalações como centrais elétricas e linhas de transmissão dos bombardeios russos. Na conversa com os jornalistas, ele afirmou que o Patriot não é eficaz contra os lançamentos simultâneos de dezenas de drones, os “enxames”,. Contudo, o sistema é capaz de interceptar outros armamentos iranianos em suas retaliações — segundo o governo americano, Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Jordânia têm baterias operacionais no Oriente Médio. Mas a oferta de Zelensky reflete uma preocupação. Caso a guerra no Golfo se estenda, drenando mais recursos de defesa dos EUA, Israel e países da região, as demandas ucranianas por armamentos podem ficar em segundo plano. A maioria dos Patriots cedidos a Kiev vem de seus parceiros europeus, e em meados de fevereiro eles se comprometeram a enviar 37 mísseis PAC-3, um cronograma que pode ser afetado por uma guerra mais longa no Golfo. Um cenário de risco, diante do aumento da capacidade russa de produção de armamentos mais poderosos, como mísseis balísticos. — Estou profundamente preocupado com a Ucrânia — disse o senador democrata Richard Blumenthal, em entrevista à revista Time. — Por uma questão de bom senso, nossos recursos e suprimentos são limitados, e acho que, em algum momento, nós seremos muito pressionados a contar para a Ucrânia o que está pela frente.