China define menor meta de crescimento desde 1991. Qual é o novo alvo? Veja previsão

A China estabeleceu sua meta de crescimento mais modesta em mais de três décadas, em um reconhecimento tácito de que o modelo que impulsionou a rápida ascensão do país por quatro décadas está mostrando sinais de desgaste. A meta — entre 4,5% e 5% — consta em uma cópia do relatório anual de trabalho do governo vista pela Bloomberg News. Trata-se do primeiro rebaixamento formal desde 2023 e da meta de expansão menos ambiciosa desde 1991. Embora amplamente esperada por economistas, a decisão tem peso simbólico onde as metas oficiais funcionam não só como projeções econômicas, mas também sinalizações políticas. Em 2020, nenhuma meta foi definida por causa da pandemia. A mudança sinaliza que Pequim está confortável com um ritmo mais lento, enquanto busca motores de crescimento mais sustentáveis para substituir os investimentos em imóveis e infraestrutura financiados por dívida. Uma meta mais baixa também reduz a pressão sobre autoridades para lançar estímulos agressivos em meio a um ambiente global de comércio volátil. Espera-se que o primeiro-ministro Li Qiang anuncie oficialmente a meta na manhã de quinta-feira, em Pequim. O relatório ao Parlamento nacional também detalhará objetivos para emprego e inflação, que irão determinar a escala do apoio fiscal em 2026. A sessão legislativa começa em meio a incertezas externas que ameaçam a recuperação das exportações chinesas. A ampliação dos conflitos no Oriente Médio pode interromper rotas comerciais e complicar uma cúpula entre o presidente chinês Xi Jinping e o presidente dos EUA, Donald Trump, prevista para as próximas semanas. As exportações em alta responderam por um terço do crescimento de 5% da China no ano passado, a maior participação desde 1997. Essa dependência destaca um desequilíbrio crescente, já que os esforços para estimular o consumo doméstico ainda não compensaram o impacto do colapso do mercado imobiliário. Uma meta de crescimento conservadora reduz as chances de um estímulo robusto. O governo reluta em adotar um afrouxamento amplo como fez em crises anteriores, por receio de piorar a relação dívida/PIB — que já está em nível recorde — e pressionar as margens de lucro dos bancos estatais. Ainda assim, o intervalo proposto permanece acima da média anual de 4,17% que o governo considera necessária na próxima década para dobrar o PIB per capita entre 2020 e 2035. Xi vê o cumprimento dessa meta como um passo crucial para transformar a China em um “poderoso país socialista moderno” até meados do século. Essa visão de longo prazo depende da capacidade das fábricas chinesas de vender cada vez mais produtos ao mundo. No entanto, essa estratégia está sob ameaça diante do aumento de barreiras comerciais motivadas pelos superávits comerciais recordes da China. O Fundo Monetário Internacional está entre os que alertam que esse desequilíbrio é insustentável sem uma guinada significativa em direção ao consumo. O governo, porém, tem enfrentado dificuldades para redirecionar recursos às famílias enquanto prioriza a autossuficiência industrial por razões de segurança nacional. Uma rede de proteção social desigual e o aumento da jornada de trabalho também limitam a disposição das pessoas para gastar mais. Investidores aguardam um rascunho do programa econômico do governo para os próximos cinco anos. A definição de uma meta específica para a participação do consumo na economia seria um sinal do compromisso de Pequim com o reequilíbrio em relação ao modelo dependente de exportações. A China também anunciou que manterá o déficit orçamentário nominal em nível recorde de 4% do Produto Interno Bruto. Isso indica disposição de manter os estímulos fiscais para sustentar a demanda, usando endividamento público para evitar um esfriamento maior da economia. O governo central emitirá 1,3 trilhão de yuans em títulos especiais ultralongos — o mesmo valor planejado para 2025. Governos locais venderão 4,4 trilhões de yuans em novos títulos especiais, também em linha com o ano anterior. Esses títulos de propósito específico não entram no cálculo do déficit nominal e financiam projetos de infraestrutura, subsídios para bens de consumo e equipamentos empresariais, além do pagamento de dívidas fora do balanço. A China manteve a meta de inflação ao consumidor em 2%, após reduzi-la no ano passado para reconhecer pressões deflacionárias. O objetivo é visto como um teto. Os preços ao consumidor ficaram estáveis em 2025, registrando a inflação mais fraca desde 2009. O governo também manteve a meta de criar mais de 12 milhões de novos empregos.