Quando a fraude gera uma cadeia de lucros

Imagine a seguinte situação: o distribuidor de um produto falsificado decide processar seus fornecedores, que sabe serem falsificadores, alegando que o produto é prejudicial aos consumidores. Embora analogias nunca sejam perfeitas, elas servem para dar contorno ao absurdo. E a responsável por esse absurdo atende pelo nome de Meta, dona de Instagram, Facebook e WhatsApp. Malu Gaspar: informações sigilosas da PF hackeadas por Vorcaro foram usadas pela defesa Recentemente, a gigante da tecnologia ocupou as manchetes brasileiras ao anunciar ações judiciais contra “empresas” e indivíduos que usam deepfakes de celebridades em anúncios distribuídos nas suas plataformas. À primeira vista, parece uma prestação de contas à sociedade. Na prática, é um deboche contra a inteligência do público e do Poder Judiciário. Lauro Jardim: Nova prisão de Vorcaro inflama expectativa de delação do ex-banqueiro Quando a Meta, que deveria ser corresponsável pelos anúncios que aceitou veicular, sem adotar qualquer cuidado em relação à idoneidade do anunciante ou ao conteúdo do anúncio, processa seus próprios anunciantes, afirma a todos não ter sido capaz de coibir os conteúdos ilegais que aceitou publicar. A pergunta que se impõe é: o que fez a Meta para impedir a publicação desses anúncios? A resposta, pelo que se sabe, é: quase nada. Initial plugin text Um olhar mais atento revela que a Meta usa processos judiciais como peça publicitária para parecer que combate fraudes, quando, na verdade, é a principal beneficiária financeira delas. Para coibir esse tipo de crime, bastaria (i) não publicar anúncios sem checar a idoneidade dos anunciantes e, minimamente, o conteúdo das mensagens (a maioria é flagrantemente fraudulenta); (ii) suspender os anúncios quando alertada sobre as fraudes; e (iii), de forma transparente, denunciar os fraudadores às autoridades. Não há evidência de que nada disso seja feito. Segundo reportagem do Wall Street Journal de maio de 2025, funcionários da própria Meta admitem haver relutância interna em barrar criminosos para não prejudicar a “máquina de lucro publicitária”. Os dados divulgados são estarrecedores: 70% dos novos anunciantes na Meta promovem golpes, produtos ilícitos ou piratas. A reportagem confirma que a empresa os identifica, recebe dinheiro pelos tais anúncios e os distribui mesmo assim. Documentos obtidos pela Reuters revelam que a Meta lucrou US$ 16 bilhões (R$ 82 bilhões) em 2024 apenas com anúncios de golpes, fraudes e produtos ilícitos e que seus usuários são expostos a cerca de 15 bilhões de anúncios fraudulentos diariamente. O mais grave: em vez de banir contas, os documentos mostram que a plataforma chega a cobrar taxas mais altas de anunciantes suspeitos. A Meta não apenas permite a fraude, ela precifica o risco de sua perpetuação. No Brasil, o cenário é alarmante. Mais da metade dos brasileiros foi vítima de golpes digitais em 2024. Além de serem um dos maiores problemas de segurança pública, os golpes on-line são também um problema de saúde coletiva. Um estudo recente do Netlab UFRJ, financiado pelo CNPq, analisou 6 mil anúncios de saúde veiculados nas plataformas da Meta, e 76% da publicidade era fraudulenta. Nesse último caso, trata-se de um tipo de publicidade desinformativa que induz pessoas a abandonar tratamentos de eficácia atestada cientificamente e trocá-los por promessas falsas, que podem agravar o estado de saúde delas ou até matar, além de gerar danos psicológicos e financeiros irreversíveis. Ao ingressar com ações pontuais contra meia dúzia de estelionatários, a Meta tenta lavar sua imagem usando os tribunais como plataforma de marketing. Como cidadãos e consumidores, não podemos aceitar que uma big tech monetize fraudes de um lado e use o Judiciário para fingir combatê-las do outro. Essas companhias precisam se responsabilizar pelas atividades com que obtêm lucros, como ocorre com toda e qualquer empresa que atua nos diferentes setores do mercado. A Justiça não pode ser palco para o cinismo corporativo. *Marie Santini é professora da Escola de Comunicação da UFRJ e diretora do Netlab UFRJ, Marcio Borges é publicitário e pesquisador do NetLab UFRJ