Por que a menopausa pode causar insônia? Entenda após relato de Flávia Alessandra

Aos 50 anos, Flávia Alessandra decidiu falar sobre um tema que ainda costuma ser tratado em voz baixa. Em um vídeo publicado nas redes sociais da filha, a atriz compartilhou as mudanças que começou a perceber no próprio corpo e revelou que a dificuldade para dormir foi um dos primeiros sinais de que algo estava diferente. "Passei a ter insônia, além de um cansaço muito grande, de não conseguir administrar, que não associei à menopausa. Não sabia que era um sintoma, porque só ouvimos sobre calorões e ressecamento vaginal", contou a artista. Libido na menopausa: tratamentos seguros e o que realmente funciona, segundo especialistas A menopausa transforma a pele? Entenda as mudanças e os cuidados indicados para essa fase da vida O relato ecoa a experiência de muitas mulheres que entram no climatério acreditando que os únicos sinais dessa fase são as ondas de calor. A alteração no descanso noturno, no entanto, está entre as queixas mais frequentes. "O declínio flutuante (no começo do climatério) e, em seguida, permanente dos níveis hormonais do ovário pode levar a mudanças no metabolismo dessas mulheres. Na menopausa, a diminuição do estrogênio pode causar a piora da qualidade do sono e a ocorrência de ondas de calor, que, quando acontecem à noite (suores noturnos), podem interferir no sono, o que frequentemente resulta em fadiga e pode levar à irritabilidade e instabilidade emocional", explica Nélio Veiga Junior, ginecologista e obstetra, mestre e doutor em Tocoginecologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). Outros fatores também podem agravar o quadro. "Além disso, uso de psicotrópicos, obesidade, outras comorbidades e a não realização de terapia hormonal também têm relação com o problema", diz a ginecologista Ana Paula Fabricio. De acordo com Igor Padovesi, autor do livro "Menopausa Sem Medo" e especialista certificado pela North American Menopause Society (NAMS), a alteração no padrão de descanso pode surgir antes mesmo de outros sintomas se manifestarem. "Ele pode aparecer já numa fase inicial da transição menopausal, em uma mulher que ainda tem ciclos normais, que ainda não tem outros sintomas significativos. Essa pode ser uma das primeiras manifestações. Ela começa a dormir mal, ter dificuldade de adormecer, ter despertares noturnos, dificuldade de voltar a dormir, o sono mais leve, menos reparador", acrescenta. A privação de sono não impacta apenas o humor ou a produtividade. "Estamos falando de um problema que impacta não só na qualidade de vida, na medida em que deixa a paciente menos produtiva, mais sonolenta e cansada durante o dia, mas que também é associado a um risco aumentado de problemas cardiovasculares e mortalidade", completa a Dra. Ana Paula. Muitas vezes, porém, a exaustão é atribuída automaticamente à rotina intensa, especialmente em um período da vida em que é comum conciliar responsabilidades profissionais, filhos adolescentes e cuidados com os pais. Para a endocrinologista Deborah Beranger, essa interpretação pode atrasar a busca por ajuda. "Precisamos desmitificar isso para que elas entendam a importância de buscar ajuda médica. As mulheres não deveriam deixar ninguém lhes dizer que é apenas fadiga ou que faz parte por estar nesta faixa etária. É um sinal de que pode haver algo que vale a pena consertar", destaca. Ela reforça que mudanças persistentes no padrão de descanso merecem atenção. "As mulheres que estão passando pela menopausa definitivamente deveriam ficar de olho em seus hábitos de sono e levar isso a sério, procurando ajuda ao notar mudanças de padrão. Numerosos estudos encontraram uma ligação entre sono deficiente ou insuficiente e um risco aumentado de doenças cardíacas e derrames. Em 2022, a American Heart Association adicionou a duração do sono como uma das oito principais medidas de saúde cardiovascular, recomendando que os adultos durmam de sete a nove horas por noite", alerta. Flávia Alessandra fala sobre insônia na menopausa e especialistas orientam quando buscar ajuda Reprodução Instagram Antes de relacionar o esgotamento exclusivamente às alterações hormonais, é essencial investigar outras possíveis causas. "O cansaço, no dia a dia, pode ter várias causas. Anemia, diabetes, glicose alta, hipotireoidismo (que é a diminuição da produção de hormônio de tireoide), alteração cardíaca (quando a bomba cardíaca não está funcionando de maneira adequada), hipertensão ou arritmias gerando problemas cardíacos, doenças mentais (depressão, síndrome do burnout que hoje em dia é tão comum encontrar pacientes com esgotamento físico e ansiedade) podem ser causas do cansaço. E algumas medicações que também podem causar fadiga", esclarece a Dra. Deborah. Ainda assim, o componente hormonal tem peso significativo. "É um sintoma que chega a ser exagerado às vezes, da mulher se sentir realmente esgotada, muito sem energia e ter essa percepção de que continua fazendo as mesmas coisas que ela fazia antes, as mesmas atividades, mas passa a se sentir muito mais cansada. E o cansaço tende a piorar se não for tratado adequadamente. A mulher vai tendo mais efeitos da falta progressiva do estrogênio, o corpo vai perdendo massa muscular e óssea, a sensação de vitalidade e disposição vai progressivamente piorando", detalha o Dr. Igor. A boa notícia é que existem caminhos possíveis. Ajustes na rotina podem fazer diferença. "É importante permitir-se tempo suficiente para relaxar durante a noite, criar um ambiente escuro e favorável ao sono, aumentar a exposição à luz somente durante o dia e definir horários regulares para dormir e acordar", aconselha a Dra. Deborah. Mudanças no estilo de vida também são recomendadas. "Prática regular de atividade física, evitar tabagismo, álcool e cafeína, introduzir técnicas para reduzir o estresse (ioga, meditação e técnicas de relaxamento) são fundamentais", pontua o Dr. Nélio. Em casos mais persistentes, a terapia cognitivo-comportamental ou medicação podem ser consideradas. E, quando há indicação médica, a reposição hormonal pode aliviar os sintomas. "Nessas mulheres analisadas com cuidado, a reposição hormonal adequada vai melhorar os sintomas em geral, inclusive reduzindo ondas de calor e suores noturnos e melhorando o sono, o humor e as queixas de cansaço", finaliza o Dr. Igor.