Por que José Boto balança mais uma vez mas não cai no Flamengo?

Desde que foi contratado para liderar o departamento de futebol, José Boto talvez nunca tenha vivido um clima tão ruim junto ao elenco do Flamengo como depois da demissão de Filipe Luís. Entusiasta da manutenção do treinador com a troca de gestão do clube e posteriormente com a renovação do profissional, Boto soltou a mão de Filipe e trouxe Leonardo Jardim. Mas por que essa atitude, somada a outros episódios desde o ano passado, não o fazem sair? O blog explica como funciona a dinâmica junto ao presidente Bap e ao elenco e que torna isso possível. O homem do presidente, e do dinheiro José Boto foi alçado por Bap ao cargo e é o homem do presidente no dia a dia do futebol. Com salário de jogador, deixou a Europa para operar o clube mais risco do Brasil e usa esse status no mercado. Bap, homem de negócios, sabe da importância de ter esse conhecimento para a manutenção de um Flamengo forte. E também para não ceder aos anseios de empresários e atletas no Brasil. Só que ao mesmo tempo que Boto atende aos interesses do Flamengo e de seu presidente nas negociações, também consegue satisfazer os anseios dos atletas. Há alguns deles no atual elenco emburrados por não terem a valorização pretendida, ou o espaço que gostariam na equipe. Boto é quem administra essa expectativa por renovação e aumento salarial. Com Filipe Luís, pesou a valor de bom termo financeiro para que o técnico ficasse, depois de Bap quase desistir da renovação. Fez o mesmo por Arrascaeta, até por Gerson, que acabou vendido. E já prometeu que pode convencer o presidente a abrir o cofre em relação a demanda de outros jogadores, como Pedro, Léo Ortiz e Léo Pereira, na fila por uma valorização. O que pesa contra Mesmo como "01" do futebol do Flamengo, Boto não tem diálogo com jogadores. Vez ou outra está em rodas de conversa, mas o ambiente é ruim, pois se trata de um perfil distante do mundo "boleiro". Vira e mexe, em entrevistas, faz comparações citando a superioridade europeia, de clubes, dirigentes, atletas e de como consegue entrada nesse mundo. Foi assim na contratação de Lucas Paquetá, pela boa relação com dirigentes ingleses, e nas negociações de Samuel Lino, Saúl, Jorginho e Danilo, que vieram da Europa ano passado. Por outro lado, há uma impressão de que Boto cisma com os atletas brasileiros, que se destacam no Brasil. Ano passado, foi pivô de uma crise por um vazamento sobre uma possível venda de Pedro. Os vazamentos, aliás, são um dos temas do desgaste. Chamou atenção do ano passado para cá como Boto ganhou destaque na mídia europeia, justamente quando ficou "queimado" pós-Mundial. Na contratação de Paquetá, o presidente Bap chegou a receber o agradecimento do jogador em vídeo que confirmava sua chegada ao Flamengo, e a narrativa não alçou Boto a "herói". Vestiário frágil O português não só não dialoga muito com os atletas como não tem voz no vestiário do Flamengo. O que poderia ser algo ruim é visto pela cúpula do futebol como um combinado. Na visão de Bap e de Boto, é do técnico a responsabilidade por gerir o elenco dentro e fora das quatro linhas. O diretor só entra em cena para chamar atenção do treinador, caso necessário. Boto tinha restrições a Filipe Luís justamente em relação a essa condução. Sobre a parte tática, entendia o técnico como uma mistura. Com elementos de periodização tática. Mas mesmo vendo o Flamengo se planejar de forma equivocada para 2026, e com ressalvas a forma como os jogadores eram tratados por Filipe Luís, não interferia no dia a dia, focado no mercado. Na última segunda-feira, depois da goleada sobre o Madureira, Boto chamou Filipe no vestiário, e comunicou sua demissão. Disse que havia sido contrariado. Mas no fim concordou com Bap. A postura mais uma vez foi mal vista. Os jogadores acabaram surpreendidos e entendem que não se construiu um ambiente de confiança. Sem Filipe Luís, agora Boto ficou mais exposto, mas não caiu. Entretanto, sai de cena após a troca de comando para dar a Leonardo Jardim a voz única do vestiário. Caberá ao técnico gerir os atletas, o dia a dia, até que resultados demandem nova intervenção de cima.