Quando decidiu tornar pública uma experiência da adolescência, Mel Lisboa trouxe à tona um tema que ainda costuma ser atravessado por silêncio e culpa. A atriz contou ter contraído uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) após um relacionamento marcado por traições e abuso emocional. O relato rapidamente ganhou repercussão e reacendeu discussões que vão além do episódio pessoal: violência nas relações afetivas, vulnerabilidade feminina e os impactos das ISTs na saúde reprodutiva ao longo dos anos. Entenda a acatisia, reação pouco conhecida enfrentada por Monica Iozzi Saiba: Como a experiência de Maiara com a queda de cabelo desperta reflexão sobre autoestima e empatia Ao compartilhar a própria história, Mel abriu espaço para que outras mulheres reconhecessem vivências semelhantes. No consultório, situações como essa não são raras. A ginecologista e especialista em reprodução humana Taciana Fontes Rolindo afirma que depoimentos públicos ajudam a ampliar a compreensão sobre as consequências físicas e emocionais desses contextos. "Como médica especialista em reprodução assistida, recebo essa história com profundo respeito e empatia. Quando uma mulher como Mel Lisboa decide tornar pública uma vivência tão delicada, um relacionamento abusivo na adolescência, com repercussões emocionais e físicas, incluindo o diagnóstico de HPV, ela não fala apenas de si. Ela dá voz a milhares de mulheres que carregam, em silêncio, marcas semelhantes", afirma. Segundo a Dra. Taciana, o término da relação não encerra necessariamente seus efeitos. "A violência emocional e sexual não termina quando o relacionamento acaba. Ela pode atravessar anos, impactar autoestima, saúde mental, escolhas afetivas e, muitas vezes, a própria saúde reprodutiva. As Infecções Sexualmente Transmissíveis, como o HPV, não são apenas eventos pontuais: podem deixar sequelas importantes quando não diagnosticadas e tratadas adequadamente", explica. O HPV está entre as ISTs mais prevalentes no mundo. Em grande parte dos casos, o organismo elimina o vírus espontaneamente. Quando isso não ocorre, podem surgir complicações que exigem acompanhamento. "Em alguns casos, ele pode provocar lesões no colo do útero, exigindo procedimentos como cauterizações ou cirurgias locais, como a conização, e até cirurgias radicais, como a retirada do útero e ovários. Dependendo da extensão dessas intervenções, pode haver repercussões futuras, como insuficiência istmocervical, maior risco de parto prematuro e, em situações específicas, impacto na fertilidade", destaca. A especialista lembra que o HPV não é o único agente com potencial de comprometer a capacidade reprodutiva. "Infecções como clamídia e gonorreia, muitas vezes silenciosas, podem evoluir para doença inflamatória pélvica, levando à obstrução das trompas, aderências e infertilidade. O que começou como uma relação abusiva na juventude pode, anos depois, se manifestar como dificuldade para engravidar, e a paciente nem sempre associa uma coisa à outra", acrescenta. Na prática clínica, investigar a história da paciente é parte essencial do diagnóstico. "Na reprodução assistida, frequentemente acolhemos mulheres que enfrentam infertilidade sem compreender completamente sua origem. E, ao investigarmos a história clínica com sensibilidade, percebemos que há narrativas de dor, negligência ou violência que também fazem parte daquele diagnóstico", relata. Para a médica, a repercussão do caso reforça três frentes indispensáveis: acesso à informação, enfrentamento da violência e rastreamento regular: "Educação sexual é proteção. Informação adequada sobre ISTs, prevenção e vacinação contra HPV salva fertilidade. Relacionamentos abusivos também são questão de saúde pública. Eles aumentam a vulnerabilidade a infecções, gravidez não planejada e traumas duradouros. E diagnóstico precoce muda destinos." O ginecologista e cirurgião geral Vinícius Araújo destaca que a prevenção deve ser contínua e combinada. "O HPV é um vírus passado de maneira sexualmente transmissível, a gente tem que ter muito cuidado na prevenção. Apesar disso, o uso da camisinha não previne totalmente contra a transmissão do HPV na atividade sexual, uma vez que a gente tem a transmissão também pela vulva e pelo períneo, mas obviamente é um adicional de proteção", observa. Ele reforça a importância do acompanhamento periódico: "O HPV é um vírus relacionado ao câncer de colo do útero e por isso que a gente faz o preventivo todos os anos. O preventivo é um exame para detectar a alteração do HPV. Então, além das proteções que a gente usa, além da gente ter o parceiro fixo e evitar múltiplos parceiros, que é um grande fator de risco, a gente ainda tem que fazer o preventivo todo ano." "O essencial mesmo na prevenção do HPV, uma vez que nem a camisinha protege totalmente, é fazer o preventivo todo ano para detectar as lesões de uma maneira precoce. Lesões mais graves muitas vezes culminam até na necessidade de retirada do útero", complementa. Embora o diagnóstico possa assustar, há caminhos possíveis. "Infertilidade não é sentença definitiva. Mesmo quando há sequelas tubárias, alterações cervicais ou outros danos estruturais, a medicina reprodutiva evoluiu enormemente. Técnicas como a fertilização in vitro permitem contornar muitas dessas barreiras, oferecendo novas possibilidades de maternidade", pontua a Dra. Taciana. E conclui: "Quando falamos de HPV, ISTs e infertilidade, não estamos falando apenas de vírus e órgãos. Estamos falando de dignidade, informação, prevenção e esperança."