António Lobo Antunes: Portugal decreta luto nacional após morte de escritor

O governo de Portugal decretou um dia de luto nacional pela morte do escritor António Lobo Antunes, um dos mais importantes nomes da literatura em língua portuguesa. A homenagem será observada no sábado, 7 de março de 2026, após decisão aprovada nesta quinta-feira. Entenda o caso: António Lobo Antunes, um dos autores portugueses mais lidos do mundo e cotado para o Nobel de Literatura, morre aos 83 anos Líder do Museu do Amanhã, Ricardo Piquet recebe distinção do Science Museum Group “O Governo também propôs ao Presidente da República, que prontamente aceitou, a atribuição do Grande-Colar da Ordem de Camões a António Lobo Antunes”, informou uma nota divulgada pelo gabinete do primeiro-ministro, Luís Montenegro. Segundo o comunicado, o Conselho de Ministros — presidido nesta quinta-feira pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa — “aprovou o decreto que determina um dia de luto nacional em homenagem a António Lobo Antunes, que será observado no dia 7 de março de 2026”. De acordo com a legislação portuguesa, cabe ao governo decretar o luto nacional, definindo sua duração e abrangência. A medida costuma ser adotada em casos como a morte de chefes de Estado e de governo ou “pelo falecimento de personalidade, ou ocorrência de evento, de excecional relevância”. Blombô: Leilão movimenta R$ 15 milhões em arte contemporânea brasileira António Lobo Antunes morreu nesta quinta-feira, aos 83 anos. A informação foi inicialmente divulgada pelo jornal Expresso e confirmada à imprensa pela editora Grupo Leya, responsável pela publicação de seu último romance, lançado em 2022. — A morte está confirmada. Divulgaremos uma nota de condolências — afirmou à AFP uma porta-voz da editora. Homenagens das autoridades Em nota publicada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa lamentou a morte do escritor e declarou-se “leitor, admirador e amigo há décadas” de António Lobo Antunes. O presidente destacou ainda que “poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país” e informou que depositará junto ao escritor o Grande-Colar da Ordem de Camões, honraria que será concedida postumamente. O primeiro-ministro também prestou homenagem ao autor, classificando-o como um dos maiores nomes da cultura portuguesa. “Presto muito sentida homenagem a Antonio Lobo Antunes - figura maior da cultura portuguesa. O seu legado é uma crónica da humanidade e da originalidade do olhar português e por isso continuará a inquietar-nos e a inspirar-nos”, escreveu Luís Montenegro em publicação na rede social X. O chefe de governo expressou ainda, em nome do Executivo, “as mais sentidas condolências à família e aos amigos”. Carreira literária Considerado um dos romancistas portugueses mais influentes das últimas décadas e frequentemente apontado como possível vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Lobo Antunes construiu uma obra de grande repercussão internacional. Ao longo da carreira, publicou 29 romances e cinco volumes de crônicas originalmente escritas para a revista Visão. Entre seus livros mais conhecidos estão Os Cus de Judas e Memória de Elefante (1979), Conhecimento do Inferno (1980), Auto dos Danados (1985), Fado Alexandrino (1987), As Naus (1988) e Manual dos Inquisidores (1996). Em 1999, recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Exortação aos Crocodilos. Já em 2007, foi laureado com o Prêmio Camões, considerado o mais importante reconhecimento literário da língua portuguesa. Origem e formação António Lobo Antunes nasceu em 1º de setembro de 1942, na freguesia de Benfica, em Lisboa. Formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969 e especializou-se posteriormente em psiquiatria, profissão que exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Filho do neurologista João Alfredo Lobo Antunes — assistente de Egas Moniz e professor de medicina — cresceu em uma família de forte presença intelectual. Entre os irmãos estavam o neurocirurgião João Lobo Antunes, membro do Conselho de Estado português, além de Nuno Lobo Antunes, neuropediatra; Miguel Lobo Antunes, programador cultural; Manuel Lobo Antunes, jurista e diplomata; e Pedro Lobo Antunes, arquiteto e ex-vereador da Câmara Municipal de Torres Novas, morto em dezembro de 2023. Após concluir o curso de Medicina, foi mobilizado como médico militar durante a guerra colonial portuguesa entre 1971 e 1973, servindo no leste de Angola, nas regiões de Lumbala Guimbo, Chiume e posteriormente Malanje. A experiência no conflito marcou profundamente sua obra e se tornou tema central de vários de seus livros. Durante esse período, escreveu cartas à primeira mulher, Maria José Lobo Antunes, que mais tarde foram reunidas pelas filhas do casal e publicadas no livro D’este viver aqui neste papel descripto. A correspondência inspirou também o filme Cartas da Guerra, dirigido por Ivo Ferreira. Da psiquiatria à escrita Depois de regressar da guerra, Lobo Antunes trabalhou como psiquiatra em Lisboa. Em 1985, decidiu abandonar definitivamente a medicina para se dedicar à literatura em tempo integral. Seu primeiro romance, Memória de Elefante, publicado em 1979, alcançou grande repercussão e marcou o início de uma trajetória literária que se consolidaria dentro e fora de Portugal. Reconhecimento e legado Além do Prêmio Camões, o escritor recebeu diversos reconhecimentos ao longo da carreira. Desde 2016, era sócio correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa. Em 2018, a prestigiosa coleção literária da Bibliothèque de la Pléiade anunciou a publicação de sua obra, tornando-o o segundo escritor português — depois de Fernando Pessoa — e um dos raros autores ainda vivos a integrar o catálogo. Na cidade de Nelas, onde a família mantinha uma casa desde a década de 1940, uma biblioteca pública leva seu nome — homenagem a um autor cuja obra marcou profundamente a literatura contemporânea em língua portuguesa.