Caso Master: BRB prepara fundo de investimento com imóveis entregues pelo governo do DF para reforçar capital

Com a aprovação do projeto de lei que autoriza o governo do Distrito Federal a vender imóveis e fazer aporte no Banco de Brasília (BRB), o presidente da instituição, Nelson de Souza, afirma que a prioridade agora é estruturar o Fundo de Investimento Imobiliário (FII) para que as cotas possam ser vendidas e, com os recursos aportados, o banco equacione seu problema de capital. Souza disse que a corrida é para deixar tudo pronto para o dia 18, quando será realizada a Assembleia Geral do banco para a operação de aumento de capital, necessária para reenquadrar a instituição nas regras bancárias. A data é considerada por Souza como o “Dia D” da instituição. — Nós vamos aprovar nessa assembleia o modelo de capital para levarmos ao Banco Central. Nosso dia D é 18 — disse Souza ao GLOBO. O FII será estruturado com nove imóveis que o governo o DF está entregando para o BRB após a aprovação dos deputados distritais. Ao colocá-los em um fundo e vender suas cotas, o banco transforma os imóveis em dinheiro, que servirá para comprar as ações novas a serem emitidas e, assim, efetivar o reenquadramento de capital banco. Segundo Souza, há três investidores qualificados dispostos a adquirir essas cotas. Para viabilizar a operação, o próprio banco aportará uma parcela do total de R$ 6,6 bilhões que se pretende captar, mas nas chamadas cotas subordinadas, que têm maior risco caso haja algum problema nos ativos colocados no fundo. —Se nós captarmos os R$ 6,6 bilhões com o fundo de investimento, já resolve. Mas mesmo assim, nós vamos agregar outras alternativas — destacou o presidente do BRB. Ele não revelou quanto será colocado pelo banco, mas disse que, com a venda de cerca de R$ 5 bilhões em carteiras de crédito nos últimos dois meses, os problemas de liquidez foram equacionados e a entrada do BRB nas cotas subordinadas do fundo é plenamente possível. — Nós vendemos algumas carteiras próprias e estamos com liquidez bem melhor do que nós estávamos no início dessa Operação Compliance Zero da Polícia Federal (que investiga irregularidades nos negócios de Daniel Vorcaro, dono do Master e fraudes na compra de carteiras do Master pelo BRB). Se tudo der certo, o banco estima que passará a operar até com folga nos principais indicadores de solidez. O chamado índice de Basileia, que mede a saúde financeira de um banco, nas estimativas internas do BRB, passará de um patamar negativo nos últimos dois meses para uma faixa acima de 15% (o mínimo exigido nas regras prudenciais é de 10,5%, que, grosso modo, significa que para cada 100 emprestados o banco tem 10 de capital próprio). A deterioração da situação do BRB ocorreu por conta da compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito com indícios de fraudes. Elas foram substituídas por R$ 10 bilhões em outros ativos que, segundo Souza, valeriam efetivamente R$ 21,9 bilhões. O banco, porém, está com dificuldade de vender esses bens. Nas apurações, ficou constatado que mais de R$ 6 bilhões nesses ativos são problemáticos e, por isso, demandam um provisionamento que deverá ser incorporado ao balanço do fechamento do ano passado, que evidenciará um prejuízo de cerca de R$ 4 bilhões. O balanço de 2025 está previsto para ser divulgado no fim do mês. Se o plano correr bem, também está prevista a publicação de demonstrativo financeiro preliminar do primeiro trimestre de 2026 no qual já constarão a operação de aumento de capital e o aporte necessário, com os indicadores de solidez reenquadrados. Segundo Souza, a opção pelo aumento de capital agora se deu pela percepção de que, embora os ativos adquiridos do Master, mesmo considerando as perdas de R$ 6 bilhões, tivessem potencial para gerar os recursos necessários, o mercado estava pedindo um deságio muito alto. — Por que nós não vendemos a carteira do Master? Porque queriam pagar barato, com um deságio muito alto — explicou Souza. Dessa forma, passou-se para a estratégia de venda de carteiras próprias para sustentar a liquidez no curto prazo e acelerou-se o esforço para um aporte de capital do governo do DF priorizando a formatação do Fundo Imobiliário. Mesmo assim, dada a necessidade de que investidores adquiriram essas cotas, Souza diz que o banco tem alternativas na mesa, e que estão sendo negociadas, para reforçar sua estrutura de capital e dar robustez ao banco. A formatação de um Fundo de Investimento em Direito Creditório (FDIC) com os ativos do Master é uma delas. Outra é a venda de parte da BRB Financeira, uma subsidiária da instituição — conforme O GLOBO havia antecipado. O presidente do BRB lista ainda a possibilidade de recompra de letras financeiras subordinadas vendidas pelo banco no passado e que estão em mercado. Haveria, segundo ele, interesse de plataformas de investimentos em emprestar para o banco fazer essa recompra. O ganho em termos de estrutura de capital se daria pela expectativa que a aquisição seja feita com deságio para os investidores, que teriam interesse em se desfazer desse ativo de risco. — Nós temos R$ 3,8 bilhões de letras financeiras subordinadas, que nós podemos recomprar com um pequeno deságio e isso também nos dá liquidez e nos dá capital — observou. Curiosamente, aquela que era a primeira hipótese de reforço de capital foi para o fim da fila, segundo Souza: o empréstimo do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para que o governo do DF pudesse fazer o aporte de capital. — Nós temos opções antes do empréstimo. Tem um fundo de investimento imobiliário, tem um fundo de investimento de direitos creditórios, tem a uma venda da subsidiária se necessário e tem a letra financeira subordinada. Então, o empréstimo é quito — listou Souza. Dentro do esforço para colocar o banco de novo nos trilhos, o BRB aguarda uma decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF) para que o liquidante do banco passe a transferir ao BRB o fluxo de pagamento das carteiras de crédito adquiridas no passado, considerada uma apropriação indevida e que teria impactos tanto de liquidez como de capital. O fluxo retido estaria entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões. A operação de aumento de capital que está sendo preparada deve reduzir a parcela dos acionistas minoritários, que dificilmente vão acompanhar um aporte da ordem de R$ 6,6 bilhões. Isso, em tese, impacta o volume de dividendos que os acionistas terão a receber no futuro, mas Souza salienta que o plano e aprovação pela Câmara Legislativa do DF fizeram as ações se valorizarem 18%, mesmo com o noticiário negativo da nova fase da Operação Compliance Zero.