Está iniciada a era Leonardo Jardim no Flamengo. Dois dias após demitir Filipe Luís na calada da noite, o rubro-negro já tem o novo treinador trabalhando com o elenco e comandando a preparação para a final do Campeonato Carioca, contra o Fluminense, neste domingo. Hoje, após comandar um parte de treinos, o português foi anunciado oficialmente no Ninho do Urubu, falando à imprensa de peito aberto sobre uma transição forçada e ainda cercada de polêmica, mas que ele apontou ser parte do processo do futebol, e não ter tido interferência. Na coletiva de aproximadamente 40 minutos, Jardim tirou alguns "elefantes da sala" ao tratar assuntos como a saída controversa do Cruzeiro, onde afirmou ter sido "ingênuo" por dizer que seria seu único clube no Brasil, ou o papel de substituto de Filipe, para quem ele disse ter ligado e tratado o assunto de "forma madura". A impressão deixada foi de página virada e consciência do desafio em assumir um grupo muito vitorioso na última temporada. DNA e estilo de jogo mantidos Principalmente, o português tentou acalmar os torcedores receosos de uma ruptura muito radical entre o modelo de jogo colocado em prática por Filipe Luís — e compatível com o gosto da torcida — e o seu: — Algumas das ideias do Filipe vão continuar. O jogo tem muitas nuances. Há momentos que temos que jogar em transição, em outros temos que ter a posse. Temos que jogar mais baixo, em outros momentos marcar mais alto... As melhores equipes do mundo têm que ter variabilidade. Se formos só de posse e o adversário nos pressionar nós vamos ter dificuldade. Não queremos fugir do DNA desse grupo. Temos que jogar um futebol de acordo com nossos jogadores — garantiu o técnico de 51 anos. — O treinador tem suas ideias, mas a principal virtude é rentabilizar seus ativos. Tive trabalhos com jogadores de transição, mas preciso aproveitar as características dos jogadores. Aqui, tenho jogadores de posse, mas também jogadores agressivos. O jogo de futebol não é só uma característica. Conheço o Flamengo bem porque jogamos o mesmo campeonato ano passado. Sei das qualidades e virtudes que o time tem. Com certeza, o treinador não vai trocar o DNA da equipe. Vai tentar colocar seu cunho pessoal em algumas situações, mas, com certeza, vamos aproveitar muito do trabalho do Luís. Meu objetivo é dar continuidade e dar meu cunho pessoal, o que é normal. Confiança em Pedro, mas sem garantias E, quando se fala na forma como o rubro-negro deve jogar, é inevitável abordar o fator Pedro, que em muitos momentos foi preterido por Filipe Luís por conta de sua capacidade de entrega física. Jardim valorizou o camisa 9, mas não prometeu que o terá como titular absoluto. — Toda a gente conhece as qualidades do Pedro, um jogador de área, de capacidade de finalização muito grande. Algumas vezes, ele jogou menos, porque talvez não dava aquilo que se pretendia em outros aspectos. Estamos começando do zero, eu acredito nele. Não digo que vai jogar todos os jogos e vai jogar sempre 90 minutos. Mas acredito nas qualidades que ele tem e acredito que as outras pequenas deficiências a gente pode, com motivação, com empenho, superar — ponderou o português. Naturalidade com o elenco Construir uma relação forte e alinhar o discurso com um elenco afastado da cúpula do futebol, em especial o presidente Luiz Eduardo Baptista e o diretor José Boto, vai ser chave para o sucesso de Jardim nesta nova empreitada. Tanto que o treinador começou os trabalhos sem sequer contar com sua comissão técnica. O recado deixado é que há senso de urgência para arrefecer o clima e que as emoções estão sendo postas de lado. — Dei importância a vir para cá trabalhar assim que resolvemos a situação. Sabemos que temos confrontos muito importantes agora no fim de semana. Primeira impressão que tive dos jogadores foi muito boa, muito abertos ao trabalho, com boa atitude. As condições são boas, com um bom centro de treinamento no Ninho. Por isso temos reunido condições para dar continuidade ao que fizemos no passado e sermos uma equipe dominante — avaliou. — Eu não os conhecia antes, por isso é difícil dizer se estão mais ou menos alegres. No futebol, não há tempo, todos já tiveram mudanças, não há tempo para lamentar. Todos são responsáveis, não só os treinadores. Os jogadores de alto nível estão preparados para passar por isso e manter-se no auge. Essa parte mais emocional fica mais para os torcedores. Não há tempo para tristeza, já temos uma decisão e temos que estar preparados para conquistar o troféu (Carioca). "Boa vizinhança" A chegada de Jardim ao rubro-negro se deu de maneira controversa, com a demissão do ídolo Filipe Luís, após uma goleada por 8 a 0, repercutindo de maneira negativa entre os torcedores. O português, que chegou a negociar com o clube em dezembro, justamente em meio ao impasse da renovação contratual com Filipe, contou que ligou para seu antecessor e justificou que não teve "interferência nenhuma" na ruptura do trabalho. — Na minha vida, tenho tido experiências. Tive uma experiência parecida com essa no Mônaco, onde eu saí, vínhamos de uma vitória de 4 a 1 contra o Lille, em dezembro de 2019. Sei que não era uma situação fácil, mas logo que recebi o convite do Flamengo... Vocês sabem que tenho uma proximidade com o Filipe e liguei. Na mensagem, dizia: "Se não fosse o Jardim, ia vir outra pessoa. Na decisão da sua saída, eu não tive interferência nenhuma. Nossa relação pelo meu lado é a mesma." E ele respondeu: "Jardim, nossa relação é igual. A disponibilidade no Rio é a mesma coisa" — contou Jardim, que disse que também passou a informação ao elenco: — A informação do Filipe eu também passei para os jogadores. Porque sei o que é a vida do treinador. Já recebi treinadores da equipe. Fui despedido e recebi treinador que vinha. Não tenho culpa. Ele está entrando em um processo e tem que fazer o trabalho dele. Falei com o Filipe de forma madura e acho que isso não inviabiliza a relação que criamos — ressaltou. Vai ter "linha dura"? Na terça, o blog do Diogo Dantas apontou que a escolha de Bap por Leonardo Jardim tem a ver com o perfil "linha dura". Na visão do Flamengo, o técnico consegue aliar controle de vestiário com desempenho em campo. Diante de um diagnóstico de relaxamento do elenco após títulos em 2025, ele foi visto como um nome que cai como uma luva para retomar o rumo. O português, porém, não quis abraçar o rótulo por completo. — Não sei se sou linha dura. Tenho uma relação de respeito muito grande pelos jogadores, de proximidade. Mas sempre na linha: o pai tem uma relação de respeito pelo filho, mas uma linha que não pode passar. Sempre defendendo os interesses do clube. Na carreira, não tive grandes problemas com os jogadores. Sempre defendo o bem-estar do grupo, as relações, a dinâmica. Acredito num grupo forte, que vão correr por mim e dar o máximo se tiver uma boa relação. Se não conseguir incutir a ideia, não tem trabalho que vá à frente.