Dólar sobe mais de 1% e atinge R$ 5,28 com aversão global ao risco

São Paulo, 05 - O dólar subiu mais de 1% frente ao real nesta quinta-feira, 5, e se aproximou do nível de R$ 5,30 nas máximas da sessão, acompanhando a escalada da moeda americana no exterior. Após o alívio da aversão ao risco na quarta, investidores voltaram a embutir nos preços dos ativos as chances de um conflito mais prolongado no Oriente Médio. As cotações do petróleo dispararam, com o contrato do Brent para maio encerrando em alta de quase 5%, diante da escalada de ataques na região. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que Teerã não solicitou um cessar-fogo aos Estados Unidos ou a Israel. Araghchi disse que o Irã não pretende fechar o Estreito de Ormuz - por onde é escoada cerca de 20% da produção global de petróleo -, mas ponderou que essa possibilidade não está descartada. Pela manhã, circularam informações, negadas pelos iranianos, de que o estreito estava fechado para embarcações de EUA, Israel e Europa O dólar atingiu máximas por aqui à tarde nos momentos de avanço mais agudo do petróleo. Com pico a R$ 5,2945, terminou a sessão em alta de 1,32%, a R$ 5,2870 - maior valor de fechamento desde 21 de janeiro (R$ 5,3208). A divisa acumula valorização de 2,98% nos quatro primeiros pregões de março, após queda de 2,16% em fevereiro. As perdas no ano, que chegaram a superar 6%, agora são de 3,68%. "A moeda americana sobe com investidores em busca de refúgio, mas também por conta do temor de que um conflito duradouro no Oriente Médio possa provocar uma mudança na postura do Federal Reserve em relação à política monetária", afirma o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo. Uma guerra mais extensa pode fazer com que os preços do petróleo permaneçam "persistentemente elevados", o que tem reflexos na inflação nos Estados Unidos. Não por acaso, observa Galhardo, as taxas dos Treasuries avançaram nos últimos dias, como retorno do papel de 10 anos superando 4,1%, o que acaba reduzindo o apetite por divisas emergentes. Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que a aposta majoritária para a retomada de cortes de juros pelo Fed migrou de julho para setembro. Apesar de as atenções estarem voltadas para os desdobramentos inflacionários da guerra, investidores podem calibrar as apostas em relação aos próximos passos do Fed com a divulgação do relatório de emprego (payroll) dos EUA em janeiro, marcada para sexta. "O receio da transmissão de um 'choque geopolítico' para um 'macroeconômico', com maiores implicações na inflação e crescimento mundial, vem sendo incorporado nas expectativas do mercado, refletindo diretamente no comportamento dos ativos de risco", afirma o especialista em investimentos da Nomad Bruno Shainni, ressaltando que o VIX - conhecido como o "índice do medo" - chegou a subir mais de 20% hoje. Por aqui, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou, em evento em São Paulo, que mantém a convicção de que será possível reduzir a taxa Selic neste mês, como sinalizado no comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) em janeiro. Ele alertou que não se trata do início de um ciclo de afrouxamento monetário, mas de um "processo de calibração" do juro básico. O diretor também disse que o BC fez alterações no ritmo de leilões de rolagem de swaps cambais em razão do diagnóstico, realizado ao longo do ano passado, de que havia um "excesso de oferta" de leilões que poderia distorcer os preços de mercado. Apesar da escalada recente do dólar, operadores ouvidos pela Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, afirmam que o mercado permanece bem irrigado, com internalização de recursos por exportadores. Sem pressões expressivas no chamado cupom cambial (juro em dólar), é pouco provável que o BC realize intervenções para injetar recursos novos no sistema. Bolsas Em mais um dia marcado por correção decorrente da incerteza geopolítica no Oriente Médio, o Ibovespa conseguiu defender ao menos a linha dos 180 mil pontos, tendo operado abaixo deste nível, durante a sessão, pela primeira vez desde 27 de janeiro. Ao fim, o índice da B3 marcava 180.463,84 pontos, em baixa de 2,64%, acumulando até aqui perda de 4,41% na semana e no mês. Se tal porcentual se mantiver nesta sexta, será o pior desempenho semanal do Ibovespa desde ao menos novembro de 2022 quando, entre os dias 7 e 11, cedeu 5,00%. E também a segunda semana de baixa para o índice, após série de sete avanços semanais. No piso desta quinta-feira,5, em baixa então de cerca de 3%, o Ibovespa foi aos 179.895,37 pontos, saindo de abertura a 185 365,26 pontos em nível correspondente praticamente à máxima do dia, de 185.366,35 pontos. No ano, o índice limita os ganhos a 12,00%. O giro financeiro da sessão foi a R$ 32,6 bilhões. Na ponta ganhadora do Ibovespa, Braskem (+16,94%), PetroReconcavo (+2,80%) e Prio (+2,59%). No lado oposto, Localiza (ON -6,87%, PN -7,26%), Minerva (-6,42%) e CSN (-6,13%) "Na ponta positiva, as ações da Braskem se destacaram bastante, impulsionadas tanto pela valorização do petróleo quanto pelo otimismo com o avanço, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que amplia os benefícios do Regime Especial da Indústria Química (REIQ)", diz Luise Coutinho, head de produtos e alocação na HCI Advisors. Principal ação do Ibovespa, Vale ON foi destaque de baixa, em queda de 3,33%. Entre os maiores bancos, a correção superou 3%, com Itaú PN também em baixa de 3,33%, Santander Unit, de 3,26%, Banco do Brasil ON, de 3,62%, e Bradesco, de 3,16% (ON) e de 3,22% (PN). Petrobras ON e PN reagiram do meio para o fim da tarde, encerrando a sessão sem direção única, em baixa de 0,20% e alta de 0,47%, pela ordem, em desempenho muito distante do observado nos preços do petróleo na sessão. Após o fechamento, a estatal divulga o balanço do quarto trimestre de 2025 e o resultado do ano passado. Em Nova York, os principais índices de ações fecharam o dia com perdas de 1,61% (Dow Jones), 0,56% (S&P 500) e 0,26% (Nasdaq). Mo exterior, os contratos futuros de petróleo voltaram a disparar nesta quinta. O WTI subiu mais de 8% e atingiu o maior nível desde julho de 2024, acima de US$ 80, e o barril do Brent retomou nível acima de US$ 85. As disputas de versões sobre o tráfego pelo Estreito de Ormuz seguem dominando o noticiário, enquanto negociações diplomáticas para o conflito em curso não aparecem em horizonte próximo, assim como a chance de cessar-fogo. "O petróleo em alta eleva a perspectiva de inflação no mundo e afeta também, por consequência, a perspectiva sobre o corte de juros no Brasil", resume Rubens Cittadin, especialista em renda variável da Manchester Investimentos. "A Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter atingido um petroleiro com bandeira americana no Golfo Pérsico, embora o episódio ainda não tenha sido confirmado por fontes independentes", diz Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil. Nesta escalada de preços, crescem também rumores e especulações quanto a eventuais ações terrestres no Irã. Em ligações nesta semana a líderes da minoria curda no Irã e no vizinho Iraque, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ofereceu "ampla cobertura aérea" e outros apoios para que os curdos iranianos, contrários ao regime, assumam partes do oeste do país, conforme fontes com conhecimento do assunto disseram ao jornal The Washington Post. Em outro desdobramento, segundo o Axios, Trump afirmou que precisa estar pessoalmente envolvido na escolha do próximo líder do Irã - assim como, segundo ele, ocorreu na Venezuela, recentemente. Também em consequência da aversão ao risco geopolítico na região, o dólar à vista fechou o dia em alta de 1,32%, a R$ 5,2870. "Vai se aproximando o final do dia e o final da semana, e os players não querem ficar posicionados", o que resulta em reforço das vendas de ativos brasileiros, aponta Felipe Sant' Anna, especialista em mercado financeiro do grupo Axia. Juros Os juros futuros intermediários e longos registraram firme alta no pregão desta quinta-feira, 5, seguindo o aumento da aversão ao risco que deteriorou ainda mais o comportamento dos mercados externos. O sentimento menos pessimista sobre o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã que ainda imperava na quarta deu lugar a temores de uma guerra prolongada com impacto mais expressivo sobre a economia e a oferta mundiais de petróleo, diante da ausência de sinais de que Washington e Teerã estão dispostos a negociar, da extensão dos ataques a outros países da região e do discurso belicoso de ambos os lados. Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,382% no ajuste anterior a 13,505%. O DI para janeiro de 2029 aumentou de 12,84% no ajuste de quarta a 13,07%. O DI para janeiro de 2031 saltou de 13,211% a 13,47% - maior taxa desde 19 de janeiro deste ano. Uma nova leva de ataques iranianos voltou a atingir mais territórios do Golfo nesta quinta, tais como Catar e Emirados Árabes Unidos, no sexto dia da ofensiva. Teerã tem lançado mísseis contra Israel e bases americanas, enquanto as forças israelenses conduzem ataques contra alvos ligados ao Hezbollah no Líbano. Também nesta tarde, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, disse em entrevista à NBC News que Teerã não solicitou um cessar-fogo aos EUA ou a Israel e indicou que, no momento, não vê motivo para retomar negociações com Washington. Segundo o ministro, o país não tem intenção de fechar o estreito de Ormuz agora, mas o cenário pode mudar. Mais cedo, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) afirmou que a rota estratégica estava fechada a navios dos EUA, de Israel e da Europa, informação negada posteriormente pela missão iraniana na ONU. A elevada volatilidade e narrativas opostas sobre o fluxo no estreito, que responde por cerca de 20% do escoamento de todo o petróleo no mundo, levaram os contratos futuros da commodity a aumentarem na sessão desta quinta, com o Brent para maio atingindo US$ 85,41 o barril, em alta de quase 5%. Apostadores que usam a plataforma Polymarket estimam 25% de chances do fim dos conflitos até 31 de março. Na sequência dos ataques, iniciados no último sábado, a probabilidade superava a casa dos 60%, de acordo com dados mencionados pelo The Wall Street Journal. Estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz afirma que um cenário extremo para o conflito ainda não está precificado, o que provoca deterioração relevante dos ativos do risco a cada sinal de que pode haver um colapso maior na região, conforme observado nesta quinta. "Há risco de grandes choques de oferta. A 'vantagem' do BC é que a Selic está extremamente alta e por isso ele pode começar o ciclo. Mas o corte total deve ser mais 'hawk'", disse. Com todas as atenções concentradas nos desdobramentos da guerra, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada nesta quinta pelo IBGE, foi totalmente ofuscada. A taxa de desemprego ficou em 5,4% nos três meses encerrados em janeiro, em linha com a mediana do Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. Segundo Cruz, na abertura dos negócios, a tendência de elevação dos juros futuros parecia estar respondendo ao quadro doméstico, mas o acirramento da guerra se sobrepôs ao longo da sessão. "E devemos fechar esta semana inteira com foco no Oriente Médio". Mais cedo, falas de Nilton David em evento do Goldman Sachs chegaram a moderar o avanço dos trechos mais curtos da curva. Segundo o diretor, o conflito no Oriente Médio não pode ser ignorado mas, mesmo assim, o Comitê de Política Monetária (Copom) vê espaço para iniciar o afrouxamento do juro básico este mês. Estadão Conteúdo