Ao dizer que quer 'participar' da escolha do novo líder do Irã, Trump sinaliza intenção dos EUA na transição de governo em Teerã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quinta-feira que deveria ter um papel na escolha do novo líder do Irã e que Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei e apontado como o principal candidato a suceder o pai, seria uma escolha “inaceitável”. Os comentários do republicano foram os mais explícitos, até o momento, sobre sua visão do papel americano na formação de um novo governo em Teerã. Guerra no Oriente Médio: Acompanhe a cobertura completa Criticado por Trump: premier britânico anuncia envio de mais caças ao Catar para 'defender nossos aliados' durante a guerra — O filho de Khamenei (morto no primeiro dia da guerra em um ataque coordenado entre EUA e Israel) é um peso leve. Tenho que participar da nomeação, como com Delcy — disse Trump, em entrevista à agência Reuters e ao site de notícias Axios, fazendo uma comparação com a Venezuela, onde a presidente interina Delcy Rodríguez, sob pressão, tem cooperado com ele depois que os EUA depuseram o líder chavista Nicolás Maduro, em janeiro. O presidente americano também afirmou que os EUA provavelmente voltariam à guerra dentro de cinco anos, caso não haja um líder favorável a Washington no Irã. — O filho de Khamenei é inaceitável para mim. Queremos alguém que traga harmonia e paz para o Irã — acrescentou. Initial plugin text As declarações de Trump deixam claro que o modelo do presidente para o Irã, como ele mesmo disse ao New York Times (NYT) no último domingo, seria replicar a instalação de um novo presidente na Venezuela — cenário que o republicano classificou como "perfeito" — após a operação americana derrubar Maduro e enviá-lo para uma prisão federal em Nova York, onde aguarda julgamento junto com sua esposa, Cilia Flores. Em menos de dois meses, de fato, Trump deu aval para duas ações militares contra regimes considerados algozes históricos de Washington. A primeira, em 3 de janeiro, capturou o então líder da Venezuela, Nicolás Maduro. A outra, em 28 de fevereiro, matou o então líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. No entanto, assim como afirmou o próprio Trump durante uma coletiva de imprensa na última terça-feira, no Salão Oval, a situação no Irã é totalmente diferente. Sexto dia de guerra: Israel lança ofensiva com 90 caças contra alvos da repressão interna do Irã e mata comandante do Hamas no Líbano Muitos analistas apontam que existem enormes diferenças entre o Irã — um país de 92 milhões de habitantes governado por uma complexa combinação de clérigos e pela Guarda Revolucionária Islâmica — e a Venezuela. Ainda assim, Trump continua citando esse exemplo, inclusive em conversas com líderes mundiais e membros do Congresso. No Salão Oval, ao lado do chanceler alemão, Friedrich Merz, Trump disse que o pior cenário no Irã seria a chegada de um novo governo "tão ruim quanto o anterior", e que "a maioria das pessoas que tínhamos em mente [para comandar o país] já morreu". Presidente dos EUA, Donald Trump, antes de reunião com o chanceler alemão, Fredrich Merz, na Casa Branca ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP A declaração de Trump também é a mais recente de uma série de afirmações contraditórias sobre os objetivos de guerra de Washington contra o Irã. Logo após os primeiro ataques americano-israelenses, no último sábado, ele pediu que o povo iraniano se levantasse e derrubasse o regime. No dia seguinte, disse ao NYT que tinha três nomes em mente para assumir o posto de líder supremo no Irã, embora depois tenha declarado à emissora ABC que acreditava que eles haviam sido mortos nos dias de bombardeios. Os comentários de Trump sobre mudança de regime na República Islâmica certamente lembrarão os iranianos de um período marcante da história do país: o golpe de 1953, conduzido pela CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos), que derrubou o então primeiro-ministro democraticamente eleito Mohammad Mossadegh, para garantir o acesso britânico ao petróleo da região. À época, esse golpe acabou levando à instalação do xá do Irã, Mohammad Reza PahlEvi, que foi deposto na Revolução Iraniana de 1979. Initial plugin text Em 2009, o então presidente americano, Barack Obama, reconheceu o papel da CIA no golpe iraniano em um discurso no Cairo, admitindo que "os Estados Unidos desempenharam um papel significativo na derrubada de um governo iraniano democraticamente eleito". Na ocasião, ele foi criticado por republicanos por parecer pedir desculpas pelas intervenções passadas dos EUA na política iraniana. Por ora, não está claro de que forma Trump poderia desempenhar um papel na escolha de um novo líder supremo do Irã, uma decisão tomada por uma assembleia de altos clérigos muçulmanos xiitas, em sua maioria fortemente contrários aos Estados Unidos — Trump foi criado como presbiteriano. Mas, seus comentários indicam uma disposição de trabalhar com alguém de dentro da República Islâmica em vez de tentar depor o regime, inimigo declarado de Washington desde que a revolução islâmica de 1979 depôs o xá pró-ocidental. O filho do xá falecido, Reza Pahlevi, propôs voltar como figura de transição antes de o país redigir uma nova Constituição como uma democracia laica. Nesta quinta-feira, inclusive, Pahlevi disse que qualquer novo líder supremo do Irã seria ilegítimo.