Brasileira pode ter morrido de frio e fome na fronteira dos EUA, suspeitam autoridades canadenses

O corpo da brasileira Letícia Oliveira Alves, de 36 anos, foi encontrado em uma área de floresta na província de Quebec, no Canadá, próximo à fronteira com os Estados Unidos. Autoridades canadenses trabalham com a hipótese de que a goiana tenha morrido após exposição prolongada ao frio intenso, possivelmente associada à falta de alimento. Entenda: Brasileira desaparecida nos EUA há três anos é encontrada morta na fronteira com o Canadá Segundo a força policial provincial de Quebec (Sûreté du Québec), pescadores localizaram o corpo em uma região de mata na cidade de Coaticook. De acordo com o porta-voz da corporação, Louis-Philippe Ruel, não havia sinais aparentes de violência. A principal linha de investigação aponta para morte por hipotermia. A identidade da brasileira foi confirmada no fim de fevereiro, na quinta-feira (26), embora o corpo tenha sido localizado ainda em abril de 2024. Letícia estava desaparecida desde dezembro de 2023 nos Estados Unidos e havia sido incluída na Difusão Amarela da Interpol, mecanismo usado para localizar pessoas desaparecidas. Para a família, a confirmação da morte encerra um período de mais de dois anos de incerteza. Ao GLOBO, o irmão da vítima, Fabrício Oliveira Alves, relembrou a trajetória da goiana e descreveu a irmã como uma pessoa dedicada aos estudos e ao trabalho voluntário. — A Letícia era uma pessoa muito estudiosa e aplicada no que fazia, sempre se dedicando também a atividades esportivas e a trabalhos voluntários na juventude — afirmou. Natural de Goiânia, Letícia era formada em Química pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e possuía mestrado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), onde também iniciou um doutorado. Segundo o irmão, ela também atuava em atividades missionárias ligadas à Igreja Adventista do Sétimo Dia. — Era uma forma de exercer a fé e ajudar outras pessoas. Ela sempre teve essa ligação com o trabalho voluntário e religioso — disse. Letícia deixa uma filha de 12 anos, que permaneceu em Goiânia sob os cuidados da avó e não acompanhou as viagens feitas pela mãe ao exterior. — Minha sobrinha ficou em Goiânia com a avó. Ela não participou dessas viagens e hoje procura entender o que aconteceu com a mãe — contou Fabrício. Angústia da família O contato com Letícia foi mantido até o final de 2023. Depois disso, segundo o irmão, as mensagens e ligações deixaram de ser respondidas. — Mantivemos contato por telefone até o fim de 2023. Depois disso não tivemos mais retorno de ligações nem de mensagens — relatou. A família registrou o desaparecimento e passou a buscar informações junto às autoridades brasileiras e estrangeiras. Fabrício afirma que, ao longo da investigação, recebeu relatos contraditórios sobre o paradeiro da irmã. — Sempre nos diziam que ela estaria em algum lugar onde não queria contato com a família. Também informaram que ela teria ficado presa entre janeiro e abril de 2024. Depois disso nunca mais conseguimos falar com ela — disse. Para ele, a confirmação da morte trouxe tristeza, mas também novas dúvidas. — Permanecem a saudade e a inquietação sobre o que realmente aconteceu. Não teremos paz até entender essas circunstâncias — afirmou. A família agora tenta arrecadar recursos para trazer o corpo ao Brasil e realizar o funeral. — Estamos pedindo ajuda de autoridades, instituições onde ela estudou e de pessoas que tiveram contato com ela para que possamos trazê-la de volta e realizar um funeral digno — disse. Desaparecimento De acordo com informações reunidas por autoridades e repassadas pela família, Letícia deixou o Brasil em 2023 e teria passado por países da América do Sul antes de seguir para os Estados Unidos. Investigações posteriores apontaram que ela chegou ao país em janeiro de 2024 e chegou a permanecer sob custódia de autoridades migratórias por cerca de três meses. Após ser liberada, não houve mais contato com os familiares. Meses depois, o corpo foi localizado em uma área de mata próxima à fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá. As circunstâncias da morte seguem sob investigação pelas autoridades canadenses. Procurado pelo GLOBO, o Itamaraty afirmou, em nota: "O Ministério das Relações Exteriores, por meio do Consulado-Geral do Brasil em Montreal, acompanha a situação e presta a assistência consular cabível aos familiares da nacional."