Jason Mraz, de volta ao Brasil após quase 10 anos, se define como um ‘pessimista otimista’

Dizem que, para um artista alcançar sucesso aqui no Brasil, ele deve fazer parte da trilha de alguma novela. Teoria comprovada pelo americano Jason Mraz, que esteve não em uma, mas em sete. A estreia foi em “A favorita”, de 2008, com “I’m yours”, música com o maior número de streams da década de 2000 no Spotify entre artistas solo e que, hoje, acumula mais de 2,3 bilhões de reproduções. Na época, ele conquistou uma legião de fãs brasileiros e, em razão disso, fez, no ano seguinte, sua primeira turnê por aqui — entre 2009 e 2017, foram cinco. Harry Styles: cantor dá primeira entrevista sobre morte de Liam Payne e diz que perda de amigo o fez repensar própria vida Oscar: 'O Brasil precisa de gente para brilhar aqui', brinca Tânia Maria ao anunciar que faltará a premiação por recomendação médica Nesta semana, o cantor, compositor, filantropo e professor de yoga de 48 anos quebrou o jejum de quase uma década sem vir ao Brasil. Na terça, ele se apresentou em Curitiba; na quinta, em São Paulo. Esta sexta (6), ele sobe ao palco do Vivo Rio, no Rio de Janeiro, e depois ainda tem datas em Belo Horizonte (8/3) e Porto Alegre (10/3). Em entrevista ao GLOBO concedida por vídeo, Jason não poupou elogios ao Brasil, falou sobre o momento de maturidade que vive na carreira e lembrou da parceria com Milton Nascimento — os dois cantaram juntos em 2011, no Festival de Verão de Salvador, e gravaram uma música inédita que nunca foi lançada. Conhecido pelas baladas românticas e pelas letras solares carregadas de mensagens positivas, o americano se define atualmente como um “pessimista otimista”. “Tenho uma sensação bem forte de que as coisas não vão dar certo”, brinca, falando sério. Apesar disso, o autor de “Lucky” e “I won’t give up” diz acreditar que a música pode mudar o mundo, mesmo com “figuras políticas e operações corporativas afetando nossas culturas de maneiras altamente destrutivas”. Confira, abaixo, os destaques da conversa: O GLOBO — Em 2011, você gravou uma música com Milton Nascimento e ele também participou de um show seu em Salvador, na Bahia. Como surgiu essa colaboração com o Milton e o que você mais admira nele? JASON MRAZ — Eu estava falando na televisão sobre músicas que eu gostava, mencionei o nome do Milton e o empresário dele me ligou e disse: “Você gostaria de conhecê-lo?”. Respondi que sim e nós nos tornamos amigos. Ficamos brincando no estúdio e inventando música e som. Nós percebemos que, certamente, o meu entendimento da língua (portuguesa) era muito limitado, mas, quando eu descrevi os sentimentos que eu estava sentindo ao ouvir a música dele, ele disse que eu estava totalmente certo. Eram músicas de amor, compaixão e união. Nos demos bem como amigos musicais. E, além disso, há algo na música brasileira que é diferente de qualquer outra música no mundo. A forma como uma comunidade realmente pode se reunir em torno de uma música e como todo mundo na sala pode tocar alguma coisa, mesmo que estejam apenas batucando numa garrafa, isso para mim é algo tão extraordinário e mostra o que a música poderia fazer por todas as culturas se nós deixássemos ela entrar. E onde está a música que você e Milton gravaram juntos? Pode ter havido algo no Youtube por um momento, mas, no nosso ramo, criamos muitas músicas e nem todas acabam saindo. Mas sim, nós escrevemos uma música e gravamos juntos. Acho que talvez tenhamos feito algum tipo de diário de viagem que tinha a música, mas ela nunca saiu em um álbum ou qualquer coisa do tipo. Você se lembra do seu primeiro contato com a música brasileira? Existem outros artistas brasileiros além do Milton que você gosta de ouvir? Sim. Certamente são os antigos, que estão por aí há muito tempo, como o João Gilberto, mas (o primeiro contato) provavelmente foi nos anos 1990, quando alguém me deu uma fita mixada. Tinha Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Tom Zé, Milton, Lô Borges... essa nova geração psicodélica revolucionária se comparada à música antiga, à “Garota de Ipanema”. E então, quando fui visitar o Brasil, conheci pessoas como Maria Gadú, que estava levando a música a novos lugares, mas mantendo uma tradição dentro do que tocava. É fascinante. Este ano, você volta ao Brasil quase 10 anos depois da sua última visita. O que mais mudou na sua vida durante todos esses anos? Uau. Eu não sei. Acho que estou simplesmente mais realizado, e é provavelmente por isso que eu não tenho feito tantas turnês recentemente. Obviamente a pandemia interrompeu todas as viagens internacionais, e durante esse período eu me senti bastante confortável em casa e pensei: “Ok, esse mundo está passando por muita coisa e eu não sei se estar por aí dizendo ‘Ei, olhem para mim’ é realmente o que ele precisa”. Estar mais realizado e quieto me permite, espero, ser mais reflexivo sobre o que escolho compartilhar e tentar encontrar um propósito para a música que vou fazer. Eu já tinha sementes disso quando era mais jovem, mas agora é mais importante para mim que a música tenha um propósito. Como você define a sua música atualmente? A música que eu fiz para o público existe em oito álbuns (de estúdio), o que poderia servir como uma referência, mas isso é, talvez, 10% da música que eu já fiz na vida. Tenho toda essa “outra música” em que tentei explorar gêneros e fazer todo tipo de coisa, desde música ambiente para meditação até música neoclássica ao piano. Então, sinto que na minha vida pessoal eu sou um artista muito versátil, mas, é claro, a música que compartilhei com o público como cantor e compositor é muito pop, com um toque de humor e letras sobre união, diversidade, inclusão e autorrealização. Por que estamos aqui neste planeta? Do que se trata tudo isso e como posso aproveitar ao máximo essa situação enquanto estou nela? Estou mirando mais nisso agora. Estou fazendo música pop para amantes de yoga. Mas, no escopo total da minha criatividade humana, eu estou em toda parte. Então, espero viver o suficiente para compartilhar tudo. Você se considera uma pessoa otimista? Gosto de dizer que sou um pessimista otimista, o que significa que tenho uma sensação bem forte de que as coisas não vão dar certo. Mas a música pode ajudar de alguma forma, né? Ou não? Ah, sim. A música é uma maneira incrível de viajar no tempo. É como surfar em uma onda sonora. Quando você se alinha com ela é um momento fenomenal, você está em sincronia com o mundo, e esse é um lugar tão poderoso e bonito para existir. Por causa disso estou constantemente ouvindo música, garimpando e procurando novos sons e artistas. A música é um belo remédio. Ela simplesmente torna a vida melhor. A música pode mudar o mundo? Sim. E eu acho que ela realmente muda o mundo. Pode ser que mude de maneiras pequenas, mais como tendências, enquanto gostaríamos de vê-lo mudar de forma universalmente compassiva. Sabe, ainda temos figuras políticas e operações corporativas afetando nossas culturas de maneiras altamente destrutivas. Enquanto isso, a música continua a alcançar todo mundo pelo planeta, e nos toca de maneiras amorosas e que influenciam nosso estilo, nossa fala, nossas amizades... Isso é lindo. Você já tem quase 30 anos de carreira. Quando olha para trás, hoje, do que mais se orgulha nessa trajetória? Tem algum arrependimento? Não tenho arrependimentos. Agora, 30 anos depois, estou muito orgulhoso de ainda estar aqui. Quando olho para o meu eu mais jovem, (vejo que) eu fiz o trabalho, escrevi, fiz turnês pelo mundo, toquei, pratiquei e isso me deu esse enorme corpo de trabalho com o qual posso continuar brincando e acrescentando. Me sinto grato e orgulhoso. Quero conduzir o resto da minha carreira de uma forma que seja confortável para mim e que, espero, ainda alcance algumas pessoas. Você veio muitas vezes ao Brasil. Quais são suas lembranças mais fortes das visitas anteriores? E, desta vez, tem algo que você realmente queira fazer? Eu estou sempre procurando novas experiências. Isso, com certeza. As minhas viagens anteriores (ao Brasil) foram sobre surfar e passar tempo com amigos tocando música. O que eu geralmente faço é dizer aos meus amigos (locais) para me levarem a algum lugar que eu nunca tenha conhecido e que me mostrem alguma comida ou maneira de comer que seja diferente de qualquer outro lugar no mundo. Eu sempre procuro isso. Então, estou esperando ter algumas novas descobertas desta vez.