Edwin Luisi volta a encenar solo premiado sobre travesti alemã que resistiu ao nazismo e fala de relação com filho adotivo: 'é bom ter alguém comigo'

Dezoito anos após a primeira montagem de "Eu sou minha própria mulher", que levou os principais prêmios do teatro brasileiro em 2007, Edwin Luisi voltou esta semana a interpretar Charlotte von Mahlsdorf (1928-2002), mulher trans que resistiu ao nazismo, no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Com direção de Herson Capri, o espetáculo adapta o texto do americano Doug Wright, consagrado com o Prêmio Pulitzer, um dos mais respeitados do teatro no mundo. Em cena, Edwin se alterna entre 20 papéis, dentre eles Charlotte, seus familiares, oficiais do nazismo e o próprio autor, em uma narrativa que mistura drama e humor para tratar de temas universais. Mais é mais: Rosamaria Murtinho interpreta Iris Apfel, ícone fashion até os 102 anos, e fala sobre etarismo: ‘Sinto na vida pessoal e no trabalho’ Em cartaz: Rosamaria Murtinho como Iris Apfel, solo de Edwin Luisi, musicais de Tim Maia e Nara Leão e mais espetáculos no Rio — O mote da peça é muito mais atual do que antes. Hoje, o antissemitismo está voltando, assim como a LGBTfobia. A violência é demasiada, e a gente tem se habituado a ela, criado uma casca. Mas quando você vê isso interpretado, as pessoas ficam muito tocadas — observa o ator, que tinha planos de remontar o espetáculo há pelo menos cinco anos, e decidiu produzi-lo, mesmo sem patrocínio, ao lado de Sergio Saboya e Silvio Batistela. Sozinho em meio a um cenário simples, Edwin se entrega a um intenso jogo cênico. No centro, estão os personagens de Doug, que faz longas entrevistas com Charlotte, e um amigo jornalista do autor, com quem ele troca sobre as descobertas. Conforme a personagem principal vai se abrindo, diversas outras figuras entram em cena, como seu pai misógino e nazista, que a obrigou a ingressar na Juventude Hitlerista, sua tia, uma das primeiras pessoas acolhê-la em sua expressão de gênero, um namorado, outros jornalistas, oficiais nazistas e mais. Tendo se identificado desde a infância com o gênero feminino, Charlotte sofreu forte opressão familiar, o que culminou no assassinato do pai aos 16 anos. Após ser internada em clínicas psiquiátricas e enviada para reabilitação de menores, tudo em meio à perseguição nazista contra a população LGBTQIAPN+, ela seguiu vivendo segundo sua própria identidade. Apaixonada por coleções, fundou um museu com objetos do cotidiano recolhidos de casas bombardeadas durante a Segunda Guerra Mundial, que funcionou até a década de 1990 e foi, por anos, ponto de encontro e acolhimento para a comunidade queer. Charlotte von Mahlsdorf Divulgação Apesar de tocar em pautas sensíveis, Edwin ressalta que o texto também tem leveza e graça, e pode se conectar com qualquer espectador. — A peça tem muitas camadas. Tem a mãe que não liga que ela se vista com roupas femininas, tem a violência do pai, tem a tia que abraça a causa dela, tem o namorado, com quem ela tem uma relação deslumbrante de bonita. E também tem muito humor, porque a personagem é divertida e apaixonante — diz. Para Herson Capri, que dirige e repaginou a adaptação, a história de Charlotte é uma lição de liberdade fundamental nos tempos atuais. — Existe tanta perseguição por causa de comportamento, mas o comportamento humano, seja ele qual for, desde que não interfira na liberdade do outro, tem que ser absolutamente livre. As escolhas, a orientação sexual, a raça, que ninguém consegue interferir... A peça fala dessa liberdade ampla, e coloca isso de forma brilhante, linda, com um só ator fazendo 20 personagens — reflete o diretor, que aceitou na hora o convite para a remontagem. Novas experiências Após a primeira apresentação da peça, para convidados, Edwin conta que se sentiu emocionado com a recepção eufórica do público, e compartilha um dos prazeres que descobriu durante a preparação da montagem: o gosto pela produção. — Ganhei um pouco de responsabilidade em relação a quem faz teatro. O ator fica tão encimesmado em seu trabalho, no público, que esquece que há outros profissionais em volta. Quando você está produzindo, percebe que está todo mundo abraçando uma causa para um ator ou um grupo de atores brilharem em cima do palco. E isso é muito bonito, é uma lição que eu aprendi fazendo esse trabalho, dar valor a essa equipe — conta. Aos 79 anos, Edwin participou ativamente da produção de um espetáculo pela primeira vez. No processo, tem contado com a ajuda do filho adotivo, o ator e empresário Cláudio Andrade, que assina a produção executiva do espetacúlo e tem sido braço direito do veterano durante a temporada. — Eu estou com quase 80 anos, então é bom ter uma pessoa comigo. A gente vai junto para o teatro, volta do ensaio, a gente almoça junto, ele dá uma assessoria lá para casa nesse período meio tenbroso de ensaio, montagem. Nesse momento, está praticamente morando um pouco na minha casa — diz. Daqui para frente, o desejo é montar ainda mais peças. — Eu tenho um sonho de produzir não só para mim. Não sei qual será o futuro, mas agora a gente tem uma firma de produção bem estruturada — finaliza. Serviço Onde: Teatro Poeira, Botafogo. Quando: qui a sáb, às 20h. Dom, às 19h. Até 26 de abril. Quanto: R$ 140. Classificação: 14 anos.